PAÍS

António Costa em Falência Multiorgânica

Arnaldo Matos

Os meus amigos do PS são pessoas muito engraçadas, mas nem por isso demasiado inteligentes, acho eu. Por um lado, apreciaram vivamente o escrito que aqui publiquei no mês passado a exigir a imediata libertação de José Sócrates. Parece que compreenderam mesmo, de uma vez por todas – e até Mário Soares o repete agora – que Sócrates é afinal um preso político, encarcerado sem culpa formada, exactamente como os presos políticos no tempo de Salazar, de Caetano, da Pide e do Copcon. E até já vão repetindo em público que aqueles figurões reacionários a que a comunicação social apelida hoje de super-agentes em nada se distinguem dos pides, nem os seus odiosos magistrados se distinguem dos celerados juízes dos tribunais plenários.

António Costa, porém, e uns quantos dos seus companheiros acham contudo que não só não há presentemente presos políticos em Portugal, como tudo o que cumpre ao PS propor é esperar que a justiça faça neste caso o seu caminho sob a direcção de magistrados e polícias da direita e da extrema-direita, claramente ultra-reaccionários.

Soares olha embasbacado para o estado a que chegou o seu PS, primeiro sob a direcção de um desfavorecido cerebral como Seguro, e agora sob a direcção de um cobarde político como António Costa.

Mesmo assim, os meus amigos do PS não apreciaram lá muito o meu mais recente escrito sobre a prisão de José Sócrates e a cobardia política de António Costa. Porém, se fossem um pouco mais argutos, esses meus amigos teriam compreendido melhor o segundo do que o primeiro daqueles dois escritos.

Talvez que agora Soares e os soaristas deitem os olhos para as sondagens do último fim-de-semana e entendam que António Costa, afinal de contas, está a morrer de falência política multiorgânica, doença ainda mais severa e letal do que a cobardia política.

Com efeito, no barómetro da Eurosondagens para os órgãos de comunicação social do grupo Balsemão, o PS de António Costa alcança 37,5% das intenções de voto, enquanto que o PSD e o CDS somados alcançam 34,8%.

Ora, como toda a gente estará lembrada, Seguro deixou o PS com 3,8% de avanço sobre o PSD/CDS nas eleições europeias e, neste fim-de-semana, António Costa tinha somente 3,1% de intenção de voto a mais, um resultado bem pior e muito mais longe da maioria absoluta do que o último resultado eleitoral de Seguro.

As perspectivas eleitorais de Costa são ainda piores se se tiverem presentes os resultados da sondagem da Aximage para o grupo do Correio da Manhã, pois aqui a distância do PS para o PSD e o CDS em conjunto é de apenas 1,3%.

A coisa é tanto mais grave quanto é certo que, em Maio de 2014, Seguro ultrapassou Coelho e Portas em 5,7% dos votos expressos.

É manifesto que António Costa não só não conduzirá o PS à obtenção de nenhuma maioria absoluta, como se arrisca cada vez mais a colecionar resultados eleitorais inferiores aos de Seguro.

E porquê isto? Porque, como já foi denunciado neste jornal há uns meses, não existe entre Costa e Seguro uma diferença política substancial. Seguro e Costa são o Dupond e Dupont da política portuguesa.
No fundamental, defendem ambos a mesma política ou, para ser-se mais exacto, a política de cada um deles é pior do que a política do outro.

Costa fez-se eleger para secretário-geral do Partido Socialista e para candidato a primeiro-ministro sem nunca se pronunciar sobre a solução política que se propunha para os principais problemas da nação portuguesa. Fingiu-se de morto, como o aconselhou o perverso professor Marcelo.

Abandonou cobarde e cruelmente José Sócrates ao justicialismo reaccionário da extrema-direita do agente Rosário e do juiz Alexandre, sem denunciar a violação do segredo de justiça e permitindo a prisão sem culpa formada de um ex-primeiro-ministro português.

O silêncio de Costa quanto ao preso político José Sócrates, refém da extrema-direita reaccionária, liquidou a confiança do povo português no PS e no próprio António Costa.

Mas sucede que António Costa não se ficou por esse silêncio cobarde; Costa, que no último congresso do PS acenou com uma unidade política e governamental à esquerda, mudou-se com armas e bagagens para o terreno da direita, com quem tem vindo a debater, nas costas do PS e do povo português, os mais sinistros conúbios da mais descarada traição à esquerda.

Só para relembrar manobras do último fim-de-semana, Costa emigrou a Norte para cozinhar com a direita do PSD um acordo sobre a regionalização do país, sobrepondo à estrutura autárquica já existente uma rede regional não definida, mas que será teta de mama para milhares de agentes regionais do PS e do PSD, numa ocasião em que se exige uma reforma administrativa profunda, capaz de poupar despesas ao Estado e tachos para os jagunços e rapazes dos partidos do arco da traição.

Mas não só! Costa e Coelho, sempre em segredo profundo, reuniram-se para adoptar, fora da assembleia da República e com exclusão dos partidos da esquerda, novas medidas policiais e penais contra o chamado terrorismo jiadista, pondo gravemente em causa as conquistas de Abril, apenas para dar satisfação às exigências do imperialismo americano e europeu.

Ainda não pôs um pé no estribo do Poder e já Costa segue as pisadas de François Hollande, Manuel Valls e Ângela Merkel, conduzindo os negócios do país pela via que prometera abandonar há pouco mais de um mês.

Na eminência de não ganhar nenhuma maioria eleitoral, Costa encosta-se à direita Coelho/Portas, ao PSD e ao CDS, escolhendo sem ambiguidades os seus parceiros de poder.

Como se vê, Costa é pior do que Assis e ainda pior do que Seguro. Costa é contra toda a política de unidade democrática e patriótica, tal como a exigem os trabalhadores e o povo. Assim como para Hollande, a cartilha de Costa é a cartilha de salvação do capitalismo.

Não há dúvidas de que os meus amigos no PS têm agora em Costa um segundo problema para resolver praticamente igual ao de Seguro. Costa morre todos os dias um pouco. Todos os dias lhe colapsa um órgão. Morre obviamente de falência multiorgânica.
 

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