TESES PARA UMA RESPOSTA AO MEU AMIGO FCR
- Publicado em 08.08.2014
12- Se se refere à Tróica, claro está que os seus objectivos só estão alcançados quando o país em causa estiver falido.
13 – Tem muita razão na questão das quotas de poluição. Desde Quioto que se sabe que paira nos ares um novo imposto universal: o imposto sobre a poluição.
O meu amigo deve pedir urgentemente explicações aos seus amigos verdes, os quais há dezenas de anos que não fazem outra coisa que não seja contabilizar o CO2 dos peidos das vacas e das deslocações automóveis dos indivíduos em férias, abrindo assim o caminho ao novo imposto. Tem aqui o meu amigo uma boa oportunidade para ver qual é a ideologia e o papel contra-revolucionários que têm estado a desempenhar até hoje os seus verdinhos.
14 – A incerteza da vida empresarial é uma boa treta ideológica do capitalismo. Ora, precisamente o que há é geralmente a certeza da vida empresarial: o empresário explora o trabalho dos trabalhadores e transforma as mais-valias daí resultantes em lucros, e estes em novo capital. Tal é a certeza empresarial. As incertezas empresariais de que fala o meu amigo resultam da lei do desenvolvimento desigual dos sectores de produção capitalista, lei esta que é também uma certeza empresarial e a mais certa de todas as incertezas.
15 – Se se levasse até as últimas consequências a sua tese de criminalizar os bancos e os governos responsáveis por todos os actos evitáveis que provocam danos irreparáveis na vida de milhões de pessoas, então teria de meter na cadeia todos os capitalistas e todos os respectivos governos, sem excepção, matando o país à fome como consequência desse justicialismo. Nós, comunistas, temos um processo mais eficaz e menos doloroso: a revolução proletária. Com ele, pomos fim ao sistema capitalista e à classe dos capitalistas e, simultaneamente, construímos uma sociedade de iguais, sem classes nem exploração do homem pelo homem - e espero que o meu amigo, homem culto como é, não me venha dizer que isso é o que já se viu na Rússia e na China, porque o que já se viu na Rússia e na China é uma outra modalidade de capitalismo, o capitalismo de Estado.
16 – Já reparou que a Vivo nunca teria sido vendida a ninguém deste mundo sem a escandalosa isenção fiscal, de que o meu amigo fala? E se a Vivo não pudesse ser vendida, em que é que ficava a privatização da Vivo? Agora, faça o favor de concluir: cada vez que se privatiza uma empresa nacionalizada, estamos automaticamente a autorizar a sua venda futura aos imperialistas sem pagamento de impostos ao Estado vendedor. Se eu lhe tivesse dito isso de caras, o meu amigo nunca acreditaria nem em mim nem nas minhas palavras. Agora, com o exemplo da Vivo – e junte-lhe os exemplos da EDP, da Siderurgia, das Cimenteiras, do Banco Totta & Açores e da TAP, talvez o meu amigo FCR já esteja disposto a ouvir o que eu lhe tenha para dizer !....
17 – Ah! E quanto a essas luminárias que o meu amigo lastima terem zarpado para a estranja, e que considera de grandes qualidades técnicas – talvez esteja a pensar no Henrique Granadeiro, no Bava e nuns quantos outros – não vê que não são especialistas de coisa nenhuma, a não ser a de roubar o povo português? Esses seus tão admirados especialistas são meros lacaios do capitalismo e do imperialismo.
18 – Sobre muitos pontos de vista considero e admiro o meu amigo, porque, por si só, soube concluir que o sistema político actualmente em vigor em Portugal se transformou na antecâmara de uma ditadura fascista.
19 – A razão por que os jovens e desempregados se têm mantido calados é que não acreditam nos partidos actualmente existentes e nos seus políticos. Mas, acredite-me, mais cedo ou mais tarde vão deixar de emigrar, e irão arregaçar as mangas e vão derrubar esta choldra.
20 – Também li o artigo de Jacques Attali no l’Express que tanto o impressionou. Não sei se vale a pena dizer-lhe que o novo pensamento de Attali sobre a mudança das regras do velho capitalismo e pela adopção de uma nova gestão das empresas, que tenha em consideração os interesses de patrões e de trabalhadores, já tem cerca de 200 anos de velhice: nessa altura, o seu actual Jacques Attali chamava-se Bernstein, Kautsky, Babel, Sorel, e outros corporativistas, alguns como vê, de raiz marxista.
21 – A teoria dos choques também não é nova. Marx, quando tinha acabado de sair da Universidade, escrevendo um belo ensaio sobre a teoria do direito em Hegel, chamou a atenção para o facto de que o medo e o terror provocados pelos governos têm um objectivo muito prático: fazer ajoelhar os explorados e oprimidos perante as exigências da nova ditadura. O medo foi aliás a arma com a qual Hitler conquistou uma vasto sector dos trabalhadores alemães, do lumpen-proletariado e dos desempregados, o que então representou a mais próxima e a mais convincente concretização do escrito do jovem Marx sobre o tema.
22 – Não vejo em Itália nenhuma esquerda no Poder... É certo que foi derrubado o Berlusconi, mas não há nenhuma verdadeira esquerda a substitui-lo. E, ao invés, há uma situação nova muito grave para a democracia: pela primeira vez, há gente que chega ao poder sem eleições, e atacando as ideias revolucionárias do ainda pequeno sector da esquerda italiana verdadeira. Ainda hei-de ver o meu amigo a fazer em Portugal o funeral dessa esquerda que tanto admira agora. Acha bem chegar ao poder sem eleições? E se o novo governo se alcandorasse em São Bento pela mão de Cavaco – o nosso Napolitano – também achava bem?
Com amizade
Garcia Pereira
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