PAÍS

Soares e o paradigma

Desde que se viu livre de Sócrates, com o qual politicamente se enterrou e enterrou o país, Soares comporta-se como um papagaio, sempre que ouve a palavra Europa: é preciso mudar de paradigma, é preciso mudar de paradigma, é preciso mudar de paradigma...

Na véspera da greve geral do passado dia 24 de Novembro, Soares e uns capangas da desgraça, a que chegámos, publicaram um manifesto com o redondo título de Novo Rumo, gritando a plenos pulmões que era preciso mudar de paradigma, para salvar o euro e a Europa.

Uns dias depois, no livro Um Político Assume-se, Soares volta a vociferar que, para salvação da Europa e do euro, é preciso mudar de paradigma.

E há dois ou três dias, no jornal de Belmiro de Azevedo, o português Mário Soares, invocando a sua qualidade de antigo presidente da República, co-assinou e co-publicou com o espanhol Federico Mayor Saragoza, que apelava também aos seus créditos de antigo director-geral da Unesco, um escrito jornalístico em que os dois fantasmas, agora em coro, invocavam uma vez mais a necessidade de mudar de paradigma, para salvar o euro e a Europa.

O que há de novo no artigo conjunto de Soares/Saragoza está em que, pela primeira vez, Soares adianta alguma coisa sobre o conteúdo do tal novo paradigma.

Com certeza que ninguém esperaria que Soares e Saragoza defendessem o repúdio da dívida pública, instrumento com o qual o imperialismo germânico levou à falência países europeus como a Grécia, Portugal, Irlanda, e, de caminho, vai levando também na esteira a Itália, a Espanha e a Bélgica.

A solução Soares/Saragoza está, em primeiro lugar, na obrigação que, segundo eles, deve ser imposta ao Banco Central Europeu de emitir moeda.

Como toda a gente sabe, Soares é uma nulidade, tanto em economia política como em política económica. Mas o que ele, Soares, e o seu confrade espanhol pretendem dizer é que a dívida pública soberana dos países da Zona Euro deve ser monetarizada, ou seja, o Banco Central Europeu deve emitir notas no montante igual ao das dívidas públicas soberanas dos países do euro.

No final do corrente ano, a dívida pública soberana dos 17 países da Zona Euro é igual ao produto interno bruto desses mesmos países: perto de 20.000.000 de milhões (20 biliões) de euros.

Se o Banco Central Europeu fosse autorizado a emiti este volume de dinheiro, a juntar ao que já está em circulação, a inflação, em cada hora do dia, ultrapassaria o recorde da hora anterior e o dinheiro do salário com que o patrão pagasse a força de trabalho ao fim de um dia, não daria para o trabalhador comprar géneros que dessem para alimentá-lo no dia seguinte.

E o euro sofreria uma desvalorização tão brutal que teríamos de levar uma mala de notas para comprar um pão!...

A monetarização da dívida soberana dos 17 seria uma medida política de terror absoluto, e que teria como consequência final o pagamento da dívida exclusivamente pelos trabalhadores, e por mais ninguém.

Tal é um dos aspectos do novo paradigma soarista, paradigma há muito tempo papagueado mas só agora concretizado.

No artigo Soares/Saragoza aparecem mais umas quantas medidas concretas para o novo paradigma, alegadamente destinadas a salvar o euro e a Europa, a saber: injecção de fundos para obras; incentivos para a produção; escalonamento no tempo do défice acumulado.

Soares e Saragoza devem ter ouvido falar em Keynes e, na sua inocente ignorância da economia política e da política económica, pensam que é possível enfrentar a crise capitalista mundial actual com os instrumentos com que Keynes teoricamente respondeu à crise de 1929, às vezes com sucesso.

A crise de 1929 foi sobretudo uma crise de superprodução, com origem na indústria: havia mercadorias, mas não havia rendimentos disponíveis para as comprar.

A crise mundial actual do sistema capitalista é, porém, de natureza financeira: as dívidas públicas e privadas impedem a produção de mercadorias e, mesmo que não estivessem a impedir a produção, estariam a impedir a compra das mercadorias, porque, em lugar de rendimentos, o que há é o seu inverso: dívidas.

O ponto central do paradigma é, pois, a dívida. Como diz um provérbio latino, muitas vezes esgrimido por Marx, hic Rhodus, hic salta (que uma ou outra vez Marx traduziu graciosamente assim: aqui está a rosa, aqui é que é preciso dançar...) Dir-se-ia que nestas ocasiões, Marx teria já em vista os nossos dois socialistas ibéricos...

Quanto a dívidas, aliás, só há uma solução: repudiá-las, não as pagar nunca, porque, de recessão em recessão, nenhum país nem ninguém conseguirá produzir riqueza que alguma vez possa pagar dívidas sempre em crescimento acelerado.

E não tenham pena dos bancos alemães, nossos estimados credores: eles, neste ínterim, já ganharam com a dívida muitíssimo mais do que os montantes que emprestaram.

Ora, para os nossos dois socialistas ibéricos (que há muito abandonaram a luta pelo socialismo e pela sociedade sem classes, adoptando os princípios da economia de mercado!...) “os mercados, sem ordem nem ética, baseados na especulação, estão a destruir o euro e a União Europeia”.

Quem haveria de dizer?!

Mas a verdade é que não são os mercados, sem ordem nem ética, que estão a destruir o euro e a União Europeia. O euro, como marco travestido que é e sempre foi, é bom para o imperialismo germânico e está a ser defendido pelo mercado, visto que é a dívida pública que alimenta os bancos alemães e o imperialismo da Alemanha sobre a Europa, do Atlântico aos Urais.

Não é igualmente o mercado que destrói a União Europeia. Também aqui os mercados cumprem a sua função, e não vale a pena ao oportunismo pequeno-burguês socialista esconjurar a pretensa falta de ordem ou falta de ética dos mercados.

Os mercados e o euro estão a construir uma União Europeia, ou seja, a única União Europeia possível: o espaço de afirmação do imperialismo alemão, em que todos os restantes países europeus são meras colónias daquele.

Nós, Portugueses, não queremos essa união europeia reaccionária, e não há outra senão essa.

Lembram-se de Hitler? Só Soares e Saragoza não vêm que têm andado estes anos todos a construir a Europa com que sonhou Hitler.

Ah, este Soares! Como se ouvia nos anos sessenta, é sempre a mesma melodia: Mário Soares e a social-democracia!...


NÃO PAGAMOS!
POR UM GOVERNO DE ESQUERDA, DEMOCRÁTICO PATRIÓTICO!
O POVO VENCERÁ!

Soares Lobo

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