PAÍS
António Costa: Um Elefante no Quintal e Um Esqueleto no Armário
- Publicado em 05.12.2014
Com o seu XX Congresso Nacional, realizado no passado fim-de-semana em Lisboa, o Partido Socialista Português entronizou António Costa no cargo de secretário-geral do partido e completou a operação de cosmética pela qual os chuchas portugueses tentam salvar do caruncho uma organização política reaccionária, que morreu com a queda do muro de Berlim.
Todos os partidos socialistas europeus faliram, por absoluta inutilidade superveniente, mas o português é o único que procura sobreviver mais algum tempo, ensaiando umas quantas manobras que estão totalmente condenadas ao fracasso.
A primeira coisa que fizeram foi correr com o desgraçado do Seguro, como se o homem de Penamacor fosse culpado de ter seguido à risca o Memorando de Entendimento que Sócrates assinou com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, e nos trouxe a tróica por três anos, que afinal já vão em quatro.
Seguro, em vez de denunciar Sócrates sem apelo nem agravo, colou-se ao rabo de François Hollande, até perceber estupefacto que o novo presidente da república francesa era o mais descarado lacaio da chancelerina Merkel.
Quando as sondagens demonstravam sem equívoco que Seguro era um burro morto, porque nem a cavalo se alçou, lançaram os soaristas da Lusitânia mão do processo das eleições primárias, pelo qual conclamaram todos os lusos que odiavam Seguro a pô-lo na rua a pontapé, coisa odiosa que nunca se viu fazer a nenhum partido socialista, nem sequer ao italiano do ladrão Betino Craxi.
Foi então nessas primárias escolhido para candidato a primeiro-ministro o primário António Costa que é – já o disse mais do que uma vez e repito-o – o mais medíocre de todos os presidentes que a câmara municipal de Lisboa teve até hoje, nos últimos quarenta anos.
Costa entrou nas primárias com um documento intitulado uma agenda para a década, e que não aborda sequer um único dos graves problemas nacionais, mas que ia instilando no público a clara ideia de que Costa precisava de dez anos para pagar a dívida aos credores externos, pelo processo pelo qual os traidores Coelho e Portas pensariam fazê-lo em vinte anos e o xéxé de Boliqueime julgaria poder pagá-la em trinta, como o declarou no prefácio ao volume VIII dos seus Roteiros.
A agenda para a década é assim o modelo da sociedade da tróica imposto pelo Costa através da fome e da miséria, com salários baixos, cortes nas pensões e aumento das horas de trabalho.
Com o despedimento de Seguro, por indecente e má figura, avançou o Costa para o congresso do PS, e mal toma as rédeas do poder, logo pede uma maioria absoluta para uma política diferente. Diferente em quê, nunca ousou dizê-lo até hoje, o Costa.
Costa foi então entronizado em dois dias, mas, uma vez mais, não apresentou uma única ideia concreta sobre a política governamental que irá propor para conquistar uma maioria absoluta.
Mas foi eleito secretário-geral, o Costa. E até agora tudo correu bem para ele.
Costa tem, todavia, um elefante no quintal e um esqueleto no armário. E é isso que fará com que nunca tenha uma maioria absoluta nas próximas eleições legislativas.
O elefante no quintal é a dívida. E, sobre a dívida, Costa não adiantou uma única palavra. Mas disse, vagamente a respeito dela, três barbaridades que se devem desde já examinar como a bosta do elefante que Costa mantém ocultado no quintal.
Diz Costa que, quanto aos credores, irá falar com a Europa… François Hollande também dizia o mesmo; e, na verdade, no dia imediato à sua eleição presidencial, Hollande viajou de avião para Berlim, onde Merkel lhe mostrou que afinal quem naquele encontro vestia calças era ela e não o novo inquilino do Eliseu.
Imagine-se para onde a Europa vai mandar Costa, quando este for, altivo como o primata Hollande, falar com ela.
Mas, entretanto, a palavra salário (aumento de salários já se vê, porque é isso que está em causa) não tem lugar no discurso do Costa. Não haverá nenhum aumento de salário para nenhum trabalhador, o que é com certeza a ideia oculta do Costa para continuar a poder pagar a dívida.
E a terceira barbaridade - a terceira bosta de elefante também – é aquela parte do discurso em que Costa fala da aliança à esquerda. Ora Costa nunca disse que pretendia ir até à esquerda para uma política de esquerda; Costa está disposto a aliar-se à esquerda mas para uma política de direita, a política do Costa, a política do acordo com a esquerda para a redução e para o congelamento salarial durante uma década. Tal é a agenda da dívida.
Este é o Costa que o Costa tem escondido: o Costa do elefante da dívida, uma política de esquerda para salários de direita durante dez anos.
Vejamos agora o esqueleto que Costa tem no seu armário. O esqueleto é Sócrates e, por enquanto, está na cadeia de Évora.
Costa foi o braço direito de Sócrates durante sete anos de governo do partido socialista e foi o principal renovador das polícias, da institucionalização das secretas e da reforma penal, aquela que permitiu prender Sócrates com o espalhafato do costume.
Sócrates, com o apoio total de Costa e a colaboração dos banqueiros da família Espírito Santo, é o principal responsável pela criação das Swaps e das parcerias público-privadas, manobras de engenharia financeira que levaram as finanças portuguesas e os bancos portugueses à bancarrota.
Nas vésperas de ser detido no aeroporto de Lisboa, Costa na Câmara e Ferro Rodrigues na Assembleia da República invocaram Sócrates como se fora um génio, e clamaram pelo seu regresso. Mas, em três dias, tudo se mudou.
De repente, Costa, em pleno XX Congresso Nacional, escondeu Sócrates no armário e ninguém mais falou dele. Costa diz que não é daqueles que rasgam as fotografias dos caídos em desgraça, mas a verdade é que já cortou Costa, de todo em todo, a voz Sócrates no espaço público português.
Dentro em breve usará, até onde puder ser esticada, a presunção de inocência de Sócrates.
Se não puder ser esticada até à inocência total e completa de Sócrates, é Costa que se despenha no abismo.
O partido socialista não terá, com Costa, uma maioria absoluta. E, se a obtivesse, seria a autêntica desgraça interna.
A única maioria absoluta que Portugal precisa é a da união da todas as forças políticas democráticas e patrióticas, para sair do euro, regressar a uma nova moeda soberana própria – o novo escudo – não pagar a dívida, desenvolver a economia nacional, combater o desemprego, aumentar os salários e repor progressivamente os cortes roubados nos salários, no tempo de trabalho, nas pensões e reformas da segurança social.
Isto nunca se fará com Costa, mas far-se-á contra Costa e com o apoio de uma forte base do partido socialista.
Espártaco


