PAÍS

O Discurso Ultrafascista de Cavaco

Definitivamente, Cavaco é o Américo Thomaz dos tempos da Tróica. Cada novo discurso repete o discurso anterior, tal como Thomaz o fazia. Thomaz levou dezasseis anos a reproduzir o discurso da cultura do fontanário, sempre o mesmo todas as vezes que inaugurava uma bica de água, posta a correr numa aldeia; Cavaco há dez anos que repete o discurso da cultura do compromisso, como se tivesse rachada a cana da garganta ou encravada a agulha do gramofone.

Para Cavaco, um homem totalmente inculto como Thomaz, democracia é compromisso, e jamais lhe terá passado pelo juízo que democracia é precisamente o contrário: são ideias diferentes, partidos diferentes, e é luta de ideias e de partidos.

Num discurso que é tanto ou mais fascista do que o discurso corporativo do próprio Salazar, luta de ideias, luta entre diferentes programas políticos, luta entre diversos partidos – consequências aliás inevitáveis da existência de distintas classes na nossa sociedade – é, para o analfabeto de Boliqueime, sinónimo de ingovernabilidade.

Claro está que nunca passará pela cabeça do reaccionário de Belém que a governabilidade por que ele tanto almeja é uma governabilidade sem partidos, com classes mas sem luta de classes, em suma, uma governabilidade fascista, uma ditadura reaccionária, o domínio de uma classe por outra.

A cultura do compromisso, que defendeu ontem na câmara municipal de Lisboa e tem propagandeado sem sucesso nos últimos dez anos, sempre que lhe deixaram abrir a boca inculta e iletrada, não tem nada que ver com cultura mas com ditadura, dos Melos e dos Espírito Santos, financiadores das campanhas eleitorais de Cavaco e ladrões dos trabalhadores e reformados portugueses.

Se o governo de Passos Coelho já não consegue governar, como se tornou óbvio para toda a gente e até para o palonço que hiberna em Belém, tal não resulta de nenhuma ingovernabilidade da sociedade portuguesa, ultrapassável por essa pretensa cultura de compromisso, mas resulta, isso sim, do facto de que o governo de Passos Coelho é um governo de traição nacional e de que os trabalhadores e o povo português resistem, com denodo e coragem extremos, às políticas reaccionárias desse governo de traidores.

E mesmo com o costumado compromisso da cultura de traição da UGT e do PS, o governo de Passos Coelho não conseguirá nunca governar.

Ao manter em São Bento, contra tudo e contra todos, o governo de traição nacional Coelho/Portas, Cavaco é o mais nojoso de todos os traidores e já deveria ter extraído a lição de que a sua cultura do compromisso com o governo de Coelho/Portas só teve como consequência conduzir o povo português a exigir, como hoje o faz em toda a parte, a demissão de Cavaco, um presidente reaccionário, inculto e incompetente, que rasgou a Constituição da República como a rasgaram a Tróica, o governo Coelho/Portas e até alguns juízes do Tribunal Constitucional, único lugarejo onde a cultura reaccionária do compromisso encontrou algum acolhimento.

Cavaco, que é de uma ignorância abissal em tudo o que diz respeito à história de Portugal, vomitou, na página de introdução ao seu discurso de ontem em Lisboa, aquela visão resumida do regime republicano entre 1910 e 1926, que o professor fascista da sua mocidade lhe ensinou no ano em que chumbou e o pai – santo homem! – o mandou cavar batatas: a de que a instabilidade crónica do regime naqueles dezasseis anos teria levado em linha recta à ditadura.

É preciso que Cavaco tenha chegado a um grau já muito adiantado de Alzheimer, se pensa vir meter medo aos portugueses com o papão da instabilidade governativa, como rampa de acesso a nova ditadura. Porque, se há alguma coisa que Portugal não tem tido nos seus quarenta anos posteriores a Abril, é precisamente instabilidade governativa.

O ignorante Cavaco, ele próprio, esteve dez anos à frente de um governo maioritário, que caiu de podre com tanta estabilidade, sofrendo apenas as consequências de uma única greve geral, mesmo assim traída pela Central de Torres Couto.

Cavaco governou com a cultura compromissória de Couto: e que ganhou Portugal com essa cultura de traição?

Depois de arrefecer as pantufas de São Bento, Cavaco passou dez anos em Belém: o que é que o país beneficiou com a traiçoeira cultura do compromisso? Até o salário mínimo de hoje é inferior ao salário mínimo, em termos reais, de 1974. O que é que ganhou Portugal com a cultura fascista do compromisso propalado por Cavaco?

Sim, o povo português está contra os partidos, como adivinhou Cavaco no discurso de ontem; só não conseguiu foi adivinhar que o povo português está muito justamente contra os partidos da cultura do compromisso, os partidos do arco da traição: PSD, partido de Cavaco, o PS, partido de Sócrates/Seguro/Costa e o CDS, partido de Portas, os três partidos que sistematicamente mentem ao eleitorado e sempre se põem entre si de acordo nessa onda de mentiras.

Esses são os partidos que estão desacreditados, porque sempre prometeram e não cumpriram. É por isso que o povo se abstém cada vez mais massivamente, até eliminar esses partidos da nossa sociedade. Porque são traidores! Porque são os partidos da cultura do compromisso!

Ora, nem a cultura do compromisso, nem a alteração das leis eleitorais, nem o voto obrigatório porão termo ao descrédito dos partidos que estiveram no Poder durante os últimos quarenta anos.

Acha o analfabeto de Boliqueime – pelo menos foi o que ele disse no discurso de ontem, no primeiro Cinco de Outubro sem povo na Praça do Município e celebrado às escondidas no salão nobre da Câmara, para evitar os apupos – que o eleitorado está insatisfeito com o funcionamento das instituições democráticas.

Desta vez, o ignorante de Boliqueime acertou; mas acertou, da mesma maneira que um relógio parado acerta duas vezes ao dia: o povo português está realmente insatisfeito com o funcionamento das instituições democráticas, não porque elas funcionem democraticamente, mas precisamente porque não funcionam de modo democrático.

Centenas de greves e milhares de manifestações com milhões de pessoas a protestar continuamente ao longo de três anos, não foram suficientes para convencer os idiotas da cultura do compromisso, e, em especial, o presidente da República que deveria ter dissolvido o parlamento e convocado novas eleições, de modo a que um novo governo pudesse aplicar uma nova política, susceptível de resolver os problemas nacionais.

É antes de tudo, sobretudo e para além de tudo a conduta de Cavaco que obstaculiza o funcionamento normal da Constituição e da democracia em Portugal.

Cavaco é hoje o problema principal da democracia portuguesa. Cavaco tem de ser afastado! A democracia portuguesa só funcionará sem Cavaco ou contra Cavaco!

E nem pode Cavaco, em boa verdade, queixar-se sequer da ausência total da chamada cultura do compromisso. Com efeito, Seguro, Proença e Silva, estes dois últimos enquanto secretários-gerais da UGT, assinaram, em homenagem às pretensões de Cavaco, compromissos obscenos. Seguro, por exemplo, assinou o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o Tratado Orçamental, além de não ter votado contra o primeiro orçamento geral da Tróica, o orçamento de Gaspar. E tentou Seguro, para gáudio de Cavaco, estabelecer um compromisso profundo com Coelho e Portas, que só não foi alcançado, porque o Partido Socialista, sob o comando externo de Soares, ameaçou correr com Seguro.

Como é próprio de um fascista, Cavaco oculta, no seu discurso sobre o Cinco de Outubro as matérias políticas para tratamento das quais preconiza o exercício da cultura do compromisso entre os partidos do arco da traição. Mas não há, em Portugal, nenhum operário digno desse nome que não saiba que Cavaco sonha com a cultura do compromisso para rever a Constituição da República e eliminar, em definitivo, os últimos vestígios de Abril: a escola pública e o serviço nacional de saúde gratuito, a segurança social e os direitos fundamentais dos trabalhadores.

São estes os objectivos tenebrosos, para a obtenção dos quais Cavaco, ocultando-os embora, convoca a cultura fascista do compromisso.

Sucede, porém, que o discurso de Cavaco na Câmara Municipal de Lisboa é tão fascista pelo que diz como por tudo quanto devia ter dito e não disse.

Cavaco não disse uma única palavra sobre as negociatas e a corrupção em que estão transversalmente envolvidos os três partidos do arco da traição: o PSD de Cavaco e de Coelho, o PS de Costa e o CDS de Portas. Todos os grandes negócios públicos portugueses passam pelo interior desses partidos, onde nunca faltou a cultura da ladroagem e do compromisso e onde o próprio Cavaco está também envolvido.

Cavaco esteve dez anos à frente do governo e vai para dez anos à frente da presidência da República: mas não mexeu um dedo, não disse uma única palavra, não promulgou uma única norma jurídica contra a corrupção.

Vinte anos de Cavaco significam vinte anos de corrupção, vinte anos de ladroagem, vinte anos de gatunagem à solta nos grandes negócios do País. Os banqueiros e outros grandes grupos de gatunos económico-financeiros controlam os dinheiros dos partidos do arco da governação, quer dizer, do arco da traição, e controlam, pagam e compram todas as campanhas eleitorais presidenciais de relevo.

Cavaco sabe muito bem disso, porque ele próprio, o seu partido – o PSD – e as suas candidaturas eleitorais receberam dinheiro e alimentaram a corrupção dele próprio, dos seus ministros e secretários de estado, hoje, da sua casa civil.

A corrupção está em São Bento, onde manda o partido de Cavaco, e está em Belém, onde manda Cavaco.

Porque é que, num país que se afunda em corrupção e onde até se discutem publicamente as luvas que cada um recebe, porque é que Cavaco oculta o fenómeno da corrupção em todos os seus discursos? O que é mais importante: denunciar a corrupção ou pregar a cultura do compromisso?

Porque é que Cavaco, no discurso sobre a fundação da República, não disse uma única palavra sobre os ministérios da Educação e da Justiça, totalmente paralisados há mais de um mês, com professores que são colocados hoje, deslocados amanhã e dispensados no dia seguinte, e com dezenas de milhares de funcionários da justiça que não sabem onde se deverão apresentar para o serviço e mais de três milhões de processos desaparecidos do sistema informático judicial?

Que presidente da República é este que leva ao colo um governo de traidores, de parasitas, de incompetentes e de gatunos?

E, para nos ficarmos por aqui, que presidente da República é este Cavaco que, perante a derrocada do sistema bancário e financeiro nacional, perante a gatunagem dos bandidos da família Espírito Santo, numa falência que irá custar às finanças portuguesas e ao orçamento de estado um golpe de mais de vinte mil milhões de euros, não diz sobre isso uma palavra no seu discurso sobre a comemoração da República?

É esta a República de Cavaco, aquela onde os gatunos banqueiros não são perseguidos e são todos amigos do presidente, do chefe do governo de Cavaco.

Por favor, internem-me esse gajo! Ou prendam-me esse gajo, que é melhor!


Espártaco


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Comentários   

 
# leopoldo mesquita 08-10-2014 17:07
Um artigo notável (mais um) do camarada Espártaco. Para além de se aplicar à natureza e comportamento tipicamente fascistas de Cavaco Silva, esta denúncia aplica-se também como uma luva a toda a corja de partidos, políticos, jornalistas e comentadores que estão a promover, com os mesmos argumentos aqui escalpelizados, um regresso acelerado do fascismo.
 
 
# Espártaco 09-10-2014 20:08
Obrigado,

Espártaco
 
 
# FRANCISCO MONTEIRO 09-10-2014 20:10
GOSTEI DO ARTICULO ESCRITO
 
 
# Espártaco 09-10-2014 20:11
Obrigado,

Espártaco
 

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