Friederich Engels - Anti-Dühring (Introdução - Capítulo I – Generalidades)

Friederich Engels
Anti-Dühring

Introdução
Capítulo I – Generalidades

Pelo seu conteúdo, o socialismo moderno é, antes de mais nada, o produto de uma dupla verificação: os antagonismos de classe entre possuidores e não-possuidores, burgueses e operários assalariados, que imperam na moderna sociedade, e a anarquia, que preside à produção. Mas, na sua forma teórica, o socialismo apresentava-se, nos seus primórdios, como um desenvolvimento aparentemente lógico dos princípios proclamados pelos grandes racionalistas franceses do século XVIII. Como qualquer nova teoria, o socialismo, ainda que tenha as raízes nos factos económicos, teve que se ligar, ao nascer, ao material das ideias existente.

Os grandes homens que prepararam, em França, os espíritos para a revolução que haveria de desencadear-se, já adoptavam uma atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam nenhuma autoridade exterior. A religião, a observação da natureza, a propriedade, a ordem pública, tudo era submetido à mais desapiedada crítica; tudo o que existia devia justificar a sua existência perante o tribunal da razão ou renunciar a continuar existir. Aplicava-se a tudo, como crivo único, a razão. Era a época em que, parafraseando Hegel, o mundo descobriu que tinha um cérebro. Em primeiro lugar, porque o cérebro humano e as conclusões a que chega com os seus raciocínios outorgam o direito de serem aceites como base de todas as acções e de todas as relações sociais; em segundo lugar, e num sentido mais amplo, porque a realidade, que não se ajusta a esses princípios, é inteiramente subvertida, dos alicerces à cúpula. Todas as formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as ideias tradicionais, foram postas à margem como contrárias à razão. O mundo, até então, governara-se por puros preconceitos; o passado merecia apenas comiseração e desprezo. O mundo, até então, tinha estado envolto em trevas; para o futuro, a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela justiça eterna, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos inalienáveis do Homem.

Sabemos, hoje, que esse império da razão era apenas o império idealizado pela burguesia: a justiça eterna corporificou-se nos tribunais da burguesia; a igualdade reduziu-se à igualdade burguesa perante a lei; proclamou-se como um dos direitos mais essenciais dos homens, a propriedade burguesa; e o Estado da razão, o contrato social de Rousseau, ajustou-se, como de facto só podia ter-se ajustado, à realidade, convertido em república democrático-burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, sujeitos às mesmas leis de seus predecessores, não podiam romper os limites impostos pela sua época.

Ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, existia o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos ociosos e pobres trabalhadores. E foi precisamente esse facto que permitiu aos membros da burguesia apresentarem-se como representantes, não de uma determinada classe, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda, desde o momento em que nasceu, a burguesia trouxe nas entranhas a sua própria antítese, uma vez que os capitalistas não podem subsistir sem operários assalariados. E na mesma proporção em que os mestres das corporações medievais se convertiam em burgueses modernos, os artífices e os aprendizes transformavam-se em proletários. Em termos gerais, se a burguesia pode alegar ter representado, nas suas lutas contra a nobreza, não só os seus próprios interesses como também os das diferentes classes trabalhadoras da época, a verdade é que em cada um dos movimentos burgueses deflagrados já apareciam palpitações independentes da classe que trazia consigo o germe mais ou menos desenvolvido do proletariado moderno. E, de facto, já na época da Reforma e da Guerra dos Camponeses, Thomaz Münzer representava essa tendência. Na grande Revolução Inglesa foram os Levellers que desempenharam esse papel e, na Grande Revolução Francesa, Baboeuf foi o porta-voz do proletariado. Junto com essas afirmações revolucionárias da personalidade de uma classe incipiente surgem e desenvolvem-se as manifestações teóricas correspondentes: nos séculos XVI e XVII aparecem as descrições utópicas de sociedades ideais e, no século XVIII, teorias já directamente comunistas, como as Morelly e Mably. O postulado da igualdade rompia a envoltura dos direitos políticos para estender-se às condições sociais da vida dos homens. Já não se tratava apenas de abolir privilégios de classe, mas também de destruir os próprios antagonismos de classe. Uma espécie de comunismo ascético, inspirado nos espartanos, foi o primeiro sinal de vida da nova ideia. Logo após, surgiram três grandes utópicos: Saint Simon, no qual a tendência burguesa continua a afirmar-se, até certo ponto, ao mesmo tempo que a tendência proletária, e Fourier e Owen, radicados no país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão dos antagonismos por ela engendrados, expuseram sistematicamente uma série de projectos destinados a abolir as diferenças de classe, seguindo em linha recta as pegadas dos materialistas franceses.

Nenhum dos três teóricos citados, entretanto, representava o interesse do proletariado que, já nessa época, surgia como um produto histórico. Da mesma forma que os racionalistas, esses três autores não se propõem a emancipar uma determinada classe, mas toda a humanidade, com a instauração do reinado da razão e da justiça eterna. Mas entre eles e os racionalistas abria-se um abismo. Os novos pensadores descobrem que também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios do racionalismo, é injusto e irracional, merecendo, portanto, ser desprezado como um traste inútil, da mesma forma como já o foram o feudalismo e as formas sociais que o precederam. Se, até então, a verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo, isso se deve a que, segundo o seu modo de ver, ninguém ainda tinha conseguido alcançá-las. Faltava o homem genial que só agora se ergue frente à humanidade, com o segredo da verdade que por fim foi descoberto. Por que é que só agora esse homem se levanta, por que é que só agora, e não antes nem depois, é que se descobre o segredo da verdade? Não foi porque isso lhe fosse imposto como algo de inevitável, pela concatenação do desenvolvimento histórico mas apenas porque a sorte assim o quis. O mesmo poderia ter ocorrido há quinhentos anos e a humanidade teria sido poupada a quinhentos anos de erros, sofrimentos e lutas.

Esse modo de ver é, em suma, o de todos os socialistas ingleses e franceses e o dos primeiros socialistas alemães, sem excluir Weitling. O socialismo é a expressão da verdade, da razão e da justiça absoluta, e é suficiente descobri-lo para que se imponha ao mundo por sua própria virtude. E, como a verdade absoluta é independente do espaço, do tempo, do desenvolvimento do homem e da história, só o acaso pode decidir quando e onde se deve revelar o seu descobrimento. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça absolutas, variam conforme o fundador de cada escola. E, como o carácter específico da verdade, da razão e da justiça absolutas é agraciado, por sua vez, em cada um deles, com a inteligência pessoal, as condições de vida, o estado dos conhecimentos e a disciplina mental, forçosamente surge um conflito entre as verdades absolutas, não restando outra solução senão a dos atritos ou das fusões de umas com as outras. Era, pois, natural e inevitável, que surgisse uma espécie de socialismo ecléctico medíocre e, com efeito, a maior parte dos operários socialistas da França e da Inglaterra têm, nos cérebros, uma mistura pitoresca que admite, aliás, toda uma série de matizes, na qual se fundem os princípios económicos, as expansões críticas e as representações sociais do futuro, dos diversos fundadores de seitas. Essa mescla é tanto mais fácil de ser composta quanto mais depressa os ingredientes individuais vão perdendo, no curso das discussões, os seus contornos agudos e concretos, como se fossem pedras aplainadas pela corrente do rio. Assim, para converter o socialismo numa ciência, só era possível colocando-o no terreno da realidade.

Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII surge, logo após, a moderna filosofia alemã, à qual Hegel dá o último remate. O principal mérito dessa filosofia foi a restauração da dialéctica como forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos dialécticos por natureza e o cérebro mais universal dentre eles, Aristóteles, chegou até a penetrar na forma mais substancial do pensamento dialéctico. Em troca, a nova filosofia, tendo alguns brilhantes pensadores dialécticos (por exemplo, Descartes, Spinoza), deixou-se dominar cada vez mais pelas chamadas especulações metafísicas, influenciada principalmente pelos ingleses, das quais não se livram também os autores franceses do século XVIII, pelo menos no que se refere às investigações filosóficas. Fora do estrito campo da filosofia, os franceses souberam também criar obras-primas de dialéctica, como, por exemplo, O Sobrinho do Rameau, de Diderot, e o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Rousseau. Resumiremos aqui os traços principais de ambos os métodos filosóficos, sem que, com isso, deixemos de estudar, mais adiante, com mais detalhes, esse assunto.

Se submetermos à consideração especulativa a natureza ou a história humana ou a nossa própria actividade espiritual, encontrar-nos-emos, logo de início, com uma trama infinita de concatenações e de mútuas influências, onde nada permanece o que era nem como e onde existia, mas tudo se move, se transforma, nasce e perece. Esta intuição do mundo, primitiva, simplista, mas perfeitamente exacta e congruente com a verdade das coisas, foi utilizada pelos antigos filósofos gregos e aparece expressa, claramente, pela primeira vez, em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo está sujeito a um processo constante de transformação, de incessante nascer e perecer. Mas esta intuição, por ser exactamente a que reflecte o carácter geral de todo o mundo dos fenómenos, não basta para explicar os elementos isolados que formam todo esse mundo. E esta explicação é indispensável, pois, sem ela, nem mesmo a imagem total adquirirá sentido exacto. Para penetrar nesses elementos, antes de mais nada, precisamos destacá-los de seu tronco histórico ou natural e investigá-los separadamente, cada um per se, na sua estrutura, nas causas e efeitos que no seu seio se produzem, etc..

Com efeito, é essa a missão primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigação que os gregos clássicos situavam, com boas razões, num plano puramente secundário, uma vez que o seu papel se restringia, em substância, a fornecer, por um trabalho de classificação, os materiais científicos. Os primódios das ciências naturais exactas não se desenvolveram até chegar aos gregos do período alexandrino e, muito mais tarde, na Idade Média, aos árabes. Na realidade, a autêntica ciência da natureza data somente da segunda metade do século XV e, a partir de então, não fez mais que progredir com velocidade constantemente acelerada. A análise da natureza nas suas diferentes partes, a classificação dos diversos fenómenos e objectos naturais em determinadas categorias, a investigação interna dos corpos orgânicos segundo a sua diferente estrutura anatómica, foram outras tantas condições fundamentais a que obedeceram os progressos gigantescos realizados nos últimos quatrocentos anos, no que se refere ao conhecimento científico da natureza. Mas estes progressos processaram-se juntamente com o progresso no modo de analisar as coisas e os fenómenos da natureza, isoladamente, separados da grande concatenação do universo. Não são, pois, encarados dinamicamente, mas estaticamente, não são considerados como situações substancialmente variáveis, mas como dados fixos, dissecados como materiais mortos e não apreendidos como objectos vivos. Por esse método de observação ter passado, por obra de Bacon e Locke, das ciências naturais à filosofia, sobreveio a limitação específica de pensar, característica destes últimos tempos, do método metafísico.

Para o metafísico, as coisas e suas imagens no pensamento, os conceitos, são objectos isolados de investigação, objectos fixos, imóveis, observados um após o outro, cada qual per se, como algo determinado e perene. O metafísico pensa em toda uma série de antíteses desconexas: para ele, há apenas o sim e o não e, quando sai desses moldes, encontra somente uma fonte de transtornos e confusão. Para ele, uma coisa existe ou não existe. Não concebe que essa coisa seja, ao mesmo tempo, ela própria e outra coisa distinta. Ambas se excluem de modo absoluto, positiva e negativamente, causa e efeito se revestem da forma de uma antítese rígida. À primeira vista, esse método especulativo parece-nos extraordinariamente plausível, porque é o do chamado senso comum. Mas o verdadeiro senso comum, personagem bastante respeitável dentro de portas fechadas, entre as quatro paredes da sua casa, vive peripécias verdadeiramente maravilhosas, quando se arrisca pelos amplos campos da investigação. E o método do pensamento metafísico, por justo e necessário que seja em vastas zonas do pensamento, mais ou menos extensas, de acordo com a natureza do objecto que trata, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira que, franqueada, faz com que ele se torne um método unilateral, limitado e abstracto; perde-se em contradições insolúveis, uma vez que, absorvido pelos objectos concretos, não consegue enxergar as suas relações. Preocupado com a própria existência, não reflecte sobre a sua génese e a sua caducidade; concentrado nas suas condições estácticas, não percebe a sua dinâmica; obcecado pelas árvores não consegue ver o bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e disso podemos dizer ter toda a certeza, se um animal existe ou não. Mas, se investigarmos mais detalhadamente, veremos que o problema pode complicar-se, e de facto se complica às vezes consideravelmente, como não o ignoram os juristas que, em vão, se atormentam para descobrir um limite racional, a partir do qual deve ser considerado como homicídio a morte de um feto no útero materno. Tampouco é fácil determinar fixamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou que a morte não constitui um acontecimento automático, instantâneo, mas faz parte de um longo processo. Do mesmo modo, pode-se afirmar que todo o ser orgânico é, no mesmo momento, ele mesmo e um outro; a cada instante processa substâncias trazidas de fora e excreta outras; em qualquer momento que o observarmos, veremos que no seu organismo morrem umas células e nascem outras. E, no transcurso de um período mais ou menos longo, a matéria de que é formado se renova radicalmente e novos átomos de matéria ocupam o lugar dos antigos, donde se pode concluir que todo o ser orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e um outro. Mesmo assim, se observarmos as coisas detidamente, veremos que os dois pólos de uma antítese, o positivo e o negativo, são antitéticos e que, apesar de todo seu antagonismo eles se completam e se articulam reciprocamente. E vemos, também, que a causa e o efeito são representações que só vigoram como tais na sua aplicação a dado caso concreto, mas que, situando o facto concreto nas suas perspectivas gerais, articulado com a imagem total do universo, se diluem na ideia de uma trama universal de acções recíprocas, onde as causas e os efeitos trocam constantemente de lugar e o que, antes, era causa, toma, logo depois, o papel de efeito e vice-versa.

Nenhum desses fenómenos e métodos de investigação se enquadra nos limites das especulações metafísicas. O contrário acontece com a dialéctica, que encara as coisas e as suas imagens conceituadas, substancialmente, nas suas conexões, na sua filiação e concatenação, na sua dinâmica, no seu processo de génese e caducidade, como os fenómenos que acabamos de expor, que nada mais são do que outras tantas confirmações do método experimental que lhe é próprio. A natureza é a pedra de toque da dialéctica e não temos outro remédio senão agradecer às modernas ciências naturais terem oferecido um acervo de dados extraordinariamente copioso e que vêm enriquecendo todos os dias, demonstrando, assim, que a natureza se move, em última análise, pelos canais da dialéctica e não sobre os trilhos metafísicos. Mas, até hoje, os naturalistas, que têm sabido pensar dialecticamente, são pouquíssimos e esse conflito, entre os resultados descobertos e o método especulativo tradicional que utilizam, desvenda aos nossos olhos a ilimitada confusão hoje reinante na teoria das ciências naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.

Só pela via dialéctica, não perdendo de vista a acção geral das influências recíprocas, da génese e da caducidade de tudo quanto vive, das mudanças de avanço e retrocesso, podemos chegar a uma concepção exacta do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem por ele projectada nos cérebros dos homens. Este foi o caminho pelo qual seguiu, desde o primeiro instante, a moderna filosofia alemã, Kant começou sua carreira de filósofo transformando o sistema solar estável e de duração eterna de Newton num processo histórico: no nascimento do sol e de todos os planetas pelo movimento de rotação de uma massa nebulosa. Deste facto, tirou a conclusão de que esta origem implicava, também, necessariamente, a futura morte do sistema solar. Meio século mais tarde, a sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace, e 50 anos depois, o espectroscópio demonstrou a existência, no espaço, daquelas massas ígneas de gás, em diferentes graus de condensação.

A filosofia moderna alemã foi completada por Hegel, no qual, pela primeira vez – esse é o seu grande mérito – se concebe o mundo da natureza, da história e do espírito, como um processo, isto é, como um mundo sujeito constantemente à mudança, a transformações e desenvolvimento constantes, procurando também destacar a íntima conexão que preside este processo de desenvolvimento e mudança. Encarada sob este aspecto, a história da humanidade já não se apresenta como um caos áspero de violências absurdas, todas igualmente condenáveis perante o julgamento da razão filosófica madura e cujo único interesse é serem deixadas de lado o mais depressa possível, mas, pelo contrário, como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, no qual incumbe ao pensamento a tarefa de seguir as suas etapas graduais através de todos os descaminhos, até conseguir descobrir as leis internas que regem tudo o que aparece como obra do acaso.

Não importa que Hegel não tenha resolvido esse problema. Seu mérito, que marcou época, consistiu apenas em o ter colocado. Mas não se trata de um problema que possa ser resolvido por um único homem. E, mesmo sendo Hegel, ao lado de Saint-Simon, o cérebro mais universal do seu tempo, o seu horizonte estava circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável dos seus próprios conhecimentos, e, em segundo, pelos conhecimentos e observações da sua época, também limitados em extensão e profundidade. A tudo isto deve-se ainda acrescentar um terceiro aspecto: Hegel era idealista. As ideias do seu cérebro não eram, para ele, imagens mais ou menos abstractas das coisas e dos fenómenos da realidade, mas, em vez disso, as coisas e o seu desenvolvimento eram apenas retratos realizados da “ideia” que já existia em algum lugar antes do mundo. Este modo de ver tudo subvertia, revirando pelo avesso toda a concatenação real do universo. Por mais justas e mesmo geniais que fossem muitas das concepções concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pela razão que acabamos de aludir, que muitos dos seus detalhes tivessem carácter acomodatício, artificioso, arbitrário, numa palavra, falso. O sistema Hegel foi um aborto gigantesco, porém o último da sua espécie. Com efeito, a sua filosofia padecia ainda de uma contradição interna incurável, pois que, se, por um lado, considerava como suposto essencial da concepção histórica, segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pôde, por sua própria natureza, encontrar solução intelectual no descobrimento do que se chama verdades absolutas, por outro, apresenta-se-nos precisamente como resumo e compêndio de uma dessas verdades absolutas. Um sistema universal e compacto, definitivamente plasmado, no qual se pretende enquadrar as ciências da natureza e da história, é incompatível com as leis da dialéctica. Isso, entretanto, não exclui, mas, ao contrário, faz com que o conhecimento sistemático do mundo exterior, na sua totalidade, possa progredir, a passos gigantescos, de geração em geração.

A consciência da total inversão em que o idealismo alemão incorrera tinha necessariamente que levar ao materialismo. Mas, note-se bem, não se trata do materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Afastando-se da simples repulsa, candidamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê, na história, o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas tem por encargo descobrir. Contrapondo-se à concepção, reinante tanto entre os franceses do século XVIII como em Hegel, da natureza como um todo que se mantém sempre igual e que se move em ciclos estreitos, sendo composto por corpos celestes eternos, como ensinado por Newton, e por espécies imutáveis de seres orgânicos, como ensinado por Lineu, o materialismo sintetiza os progressos mais recentes da ciência da natureza, segundo a qual a natureza também tem a sua história no tempo – tanto os corpos cósmicos como as espécies de organismos que os habitam em circunstâncias favoráveis surgem e desaparecem, e os ciclos, na medida em que se deixam legitimar, assumem dimensões infinitamente mais grandiosas. Tanto num como noutro caso, o materialismo moderno é substancialmente dialéctico e já não há necessidade de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o instante em que cada ciência tenha que se colocar no quadro universal das coisas e do conhecimento delas, já não há margem para uma ciência que seja especialmente consagrada a estudar as concatenações universais. Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência própria, é a teoria do pensamento e das suas leis: a lógica formal e a dialéctica. Tudo o mais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.

A nova etapa das ciências naturais, entretanto, só conseguiu impor-se na medida em que a investigação lhe fornecia o material positivo do conhecimento correspondente, e, enquanto isso, já há muito tempo, se haviam revelado certos factos históricos que abalaram decisivamente a concepção da história. Em 1931, rompe, em Lyon, a primeira sublevação operária e, de 1838 a 1842, o primeiro movimento operário nacional, o dos cartistas ingleses, alcança o seu apogeu. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano na história dos países europeus mais avançados, no mesmo ritmo em que se desenvolvia a grande indústria e em que se firmava a hegemonia política da burguesia recentemente conquistada. Os factos vinham desmentir, cada vez mais categoricamente, as doutrinas económicas burguesas sobre a identidade de interesses entre o capital e o trabalho e sobre a harmonia universal e o bem-estar geral das nações como fruto da livre concorrência.

Esses factos não podiam passar desapercebidos, assim como não podiam ser ignorados o socialismo francês e o inglês, que eram a sua expressão teórica, embora ainda bastante imperfeita. Mas a velha concepção idealista da história, que ainda não havia sido abandonada, não podia reconhecer sequer interesses materiais de qualquer espécie. Para ela, a produção, como todos os outros factores económicos, só existia como acessório, como elemento secundário dentro da "história cultural". Os novos factos, que a realidade revelava, obrigaram a uma revisão de toda a história antiga e, dessa maneira, ficou demonstrado que a história havia sido, sempre uma história de luta de classes e que estas classes em luta foram, em todas as épocas, condições de produção e de troca, ou seja, fruto das condições económicas e que a estrutura económica da sociedade em todos os factos da história era, portanto, a base real sobre a qual se erigia, em última instância, todo o edifício das instituições jurídicas e políticas, da ideologia filosófica, religiosa, etc. de cada período histórico. Assim, o idealismo via-se despojado do seu último reduto na ciência histórica. Lançava-se os alicerces para uma concepção materialista e abria-se o caminho para explicar a consciência dos seres humanos a partir do seu ser, em vez de explicar o seu ser a partir da sua consciência, como se assumia tradicionalmente.

Verificamos, assim, que o socialismo tradicional era incompatível com a nova concepção materialista da história bem como a concepção dos materialistas franceses, sobre a natureza, não podia coexistir com a dialéctica moderna e com as novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo criticava o regime capitalista de produção existente e as suas consequências, mas não conseguia explicá-lo e, portanto, também não o poderia destruir, limitando-se apenas a repudiá-lo, simplesmente, como imoral. Era preciso, porém, entender esse regime capitalista de produção em suas conexões históricas, como um regime necessário para uma determinada época da história, demonstrando, com isso, ao mesmo tempo, o seu aspecto condicional histórico, a necessidade da sua extinção e do desmascaramento de todos os seus disfarces, uma vez que os críticos anteriores se limitavam apenas a apontar os males que o capitalismo engendrava em vez de assinalar as tendências das coisas a que obedeciam. A principal máscara, sob a qual se disfarçava o capitalismo, caiu por terra com a descoberta da mais-valia. Esta descoberta revelou que o regime capitalista de produção e a exploração dos operários que dele se origina tinham, como base fundamental, a apropriação do trabalho não pago. Revelou ainda que o capitalista, mesmo suposição que comprava a força de trabalho do operário pela totalidade do seu valor, pelo valor total enquanto mercadoria no mercado, havia este excedente do valor, esta mais-valia, cuja soma, em última instância, constituía o valor do qual provinha a massa cada vez maior do capital acumulado nas mãos das classes possuidoras. Desde então, o processo da produção capitalista e o da criação do capital já não continham nenhum segredo.

Estas duas descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista que se resume na mais-valia são devidas a Karl Marx. Graças a estas descobertas, o socialismo converte-se numa ciência, que não é preciso senão desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.

Era esse, mais ou menos, o sentido com que se apresentavam as coisas no campo do socialismo teórico e da decadente filosofia, quando o Senhor Eugénio Dühring veio à cena e anunciou, com o auxílio de tambores e fanfarras, a total subversão da filosofia, da economia política e do socialismo, subversão feita unicamente por ele.

Vejamos, agora, o que o Senhor Dühring promete e... o que cumpre.

Introdução - Capítulo II – O que Promete o Sr. Dühring

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