A IMIGRAÇÃO IRLANDESA (extraído da obra “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”)
- Publicado em 22.02.2025
A IMIGRAÇÃO IRLANDESA
F. Engels - 1844
(extraído da obra “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”)
Já mencionámos várias vezes a existência de irlandeses que se vieram instalar na Inglaterra; vamos agora examinar mais de perto as causas e os efeitos desta imigração.
O rápido desenvolvimento da indústria inglesa não teria sido possível se a Inglaterra não dispusesse duma reserva: a numerosa e miserável população da Irlanda. Na sua terra, os irlandeses não tinham nada a perder, em Inglaterra tinham muito a ganhar; e desde que se soube na Irlanda que na margem leste do canal St. George qualquer homem robusto tinha assegurados trabalho e bons salários, bandos de irlandeses atravessaram-no todos os anos. Calcula-se que ate agora emigraram deste modo um bom milhão de irlandeses e que ainda agora há cinquenta mil imigrantes por ano; quase todos invadem as regiões industriais e em particular as grandes cidades, constituindo aí a classe mais baixa da população. Há 120 000 irlandeses pobres em Londres, 40 000 em Manchester, 34 000 em Liverpool, 24 000 em Bristol, 40 000 em Glasgow e 29 000 em Edimburgo1. Estas pessoas que cresceram quase sem conhecer os benefícios da civilização, habituados desde tenra idade a privações de toda a espécie, grosseiros, bêbados, não se importando com o futuro, chegam assim, trazendo os seus costumes brutais para uma classe da população que tem, para dizer a verdade, pouca inclinação para a cultura e a moralidade. Demos a palavra a Thomas Carlyle2.
Em todas as ruas principais e secundárias, podemos ver os ferozes rostos milesianos3 que respiram a hipócrita malícia, a maldade, a mentira, a miséria e o escárnio. O cocheiro inglês que passa com a sua viatura dá uma chicotada ao milesiano; este amaldlçoa-o, estende o chapéu e mendiga. Ele representa o pior mal que este país tem de combater. Com os seus farrapos e o seu desprezo de selvagem, está sempre pronto a fazer qualquer trabalho, que só exige braços vigorosos e rins sólidos; e isto por um salário que lhe permita comprar batatas. Para condimento basta-lhe o sal; dorme, feliz, na primeira pocilga, ou no primeiro nicho que encontra, habita em celeiros e vestir ou despir o fato esfarrapado que traz constitui uma das mais delicadas operações que existe, a qual só se procede nos dias de festa ou em ocasiões especialmente favoráveis. O saxão que é incapaz de trabalhar em tais condições está condenado ao desemprego. O irlandês, ignorante de qualquer civilização, afasta o saxão indígena, não pela sua força, muito pelo contrário, e apodera-se do seu lugar. É aí que habita com a sua grosseria e o seu desleixo, com a sua falsidade e a sua brutalidade de bêbado, verdadeiro fermento de degradação e desordem. Quem quer que ainda se esforce por flutuar, por se manter a superfície, tem aqui o exemplo de que o homem pode existir, não a nadar, mas vivendo no fundo da água... Quem não vê que a situação das camadas inferiores da massa dos trabalhadores ingleses se alinha cada vez mais pela dos irlandeses que lhes fazem concorrência em todos os campos? Que qualquer trabalho que não exija senão força física e pouca habilidade não é pago a tarifa inglesa, mas a um preço que se aproxima do salário irlandês, quer dizer, pouco mais do que «o necessário para não morrer de fome comendo batatas da pior qualidade durante trinta semanas por ano», pouco mais... Mas esta distância diminui cada vez que chega um vapor da Irlanda.
Aqui, Carlyle tem toda a razão, exceptuando a condenação exagerada e parcial do carácter nacional irlandês. Estes trabalhadores irlandeses que, por quatro pence, fazem a travessia, frequentemente amontoados como gado na ponte do navio, instalam-se em todo o lado. As piores moradas são bastante boas para eles: as roupas não os preocupam enquanto um único fio as mantêm; ignoram o uso de sapatos; a sua comida consiste exclusivamente em batatas; o que ganham para além disso, bebem-no. Porque teriam tais seres necessidade de um salário alto? Os piores bairros de todas as grandes cidades estão povoados de irlandeses. Onde quer que um bairro se distinga particularmente pela sua sujidade e a sua ruína, podemos ter a certeza de ver em maioria estes rostos célticos, que se distinguem à primeira vista das fisionomias dos indígenas saxões, e de ouvir aquela pronúncia cantante e aspirada que o irlandês autêntico nunca perde. Aconteceu-me ouvir falar celto-irlandês nos bairros mais populosos de Manchester. A maior parte das famílias que habitam as caves são quase todas de origem irlandesa. Em resumo, como diz o Dr. Kay, os irlandeses descobriram o que é o mínimo de necessidades vitais, e agora ensinam-no aos ingleses4. Por outro lado, importaram o alcoolismo e a sujidade. Esta falta de limpeza, que na terra deles, no campo, onde a população esta disseminada, não tem consequências muito graves, e que nos irlandeses se tomou uma segunda natureza, e na verdade uma tara assustadora e perigosa nas grandes cidades, devido a grande concentração urbana. Tal como fazia na sua terra, o milesiano lança todo o lixo e detritos em frente da porta, provocando assim a formação de charcos e montes de porcaria que sujam os bairros operários e empestam a atmosfera. Tal como fazia no seu país, instala a pocilga encostada a sua casa; e, se isso não for possível, deita o porco no seu quarto. Esta nova e anormal espécie de criação praticada nas grandes cidades e totalmente de origem irlandesa. O irlandês conserva o seu porco como o árabe o seu cavalo, e só o vende quando esta suficientemente gordo para ser morto. Quanto ao resto, come com ele, dorme com ele, os seus filhos brincam com ele, sobem para as suas costas e espojam-se com ele no lixo, como se pode constatar em mil exemplos em todas as grandes cidades de Inglaterra. E quanto a sujidade, ao desconforto das casas, é impossível fazer uma ideia. O irlandês não está habituado aos móveis, um monte de palha, alguns trapos completamente incríveis como roupas, e eis a sua cama. Um pedaço de madeira, uma cadeira partida, uma caixa velha a laia de mesa e não precisa de mais nada; um bule, algumas panelas e escudelas de barro e isso basta-lhe na cozinha, que serve ao mesmo tempo de quarto de dormir e casa de jantar. E quando lhe falta o combustível, tudo o que lhe vem à mão e que se possa queimar: caixas, batentes de portas, caixilhos, soalho, supondo que o haja, vão parar à chaminé. E, de resto, para que é que quereria espaço? No seu país, na sua cabana de ripas, basta uma única sala para todas as funções domésticas; em Inglaterra, a família também não necessita senão de uma sala. Assim, este amontoado de várias pessoas numa única sala, agora tao divulgado, foi introduzido principalmente pela imigração irlandesa. E como é necessário que este pobre diabo tenha pelo menos um prazer e a sociedade o exclui de todos os outros, vai para a taberna beber aguardente. Para o irlandês, a aguardente é a única coisa que dá sentido a vida; a aguardente e, claro, o seu temperamento desleixado e jovial: eis porque se entrega à aguardente até à mais brutal embriaguez. O carácter meridional, frívolo, do irlandês, a sua grosseria, que o coloca a um nível apenas um pouco superior ao do selvagem, o seu desprezo por todos os prazeres mais humanos, que é incapaz de experimentar precisamente devido à sua rudeza, sujidade e pobreza, são outras razões que favorecem o alcoolismo. A tentação é demasiado forte, ele não pode resistir, e bebe todo o dinheiro que ganha. Como poderia ser de outro modo? Como é que a sociedade, que o coloca numa tal situação em que se tornará quase necessariamente um bebedor, que o deixa embrutecer e não se preocupa nada com ele, como é que pode acusá-lo em seguida, quando ele efectivamente se torna um bêbado?
É contra um concorrente deste género que tem de lutar o trabalhador inglês, contra um concorrente que ocupa o lugar mais baixo da escala que pode existir num país civilizado e que, precisamente por esta razão, se contenta com um salário inferior ao de qualquer outro trabalhador. É por isso que, como refere Carlyle, o salário do trabalhador inglês, em todos os sectores em que o irlandês lhe faça concorrência, está constantemente a baixar, e não poderia ser doutro modo. Ora estes sectores são numerosos. Todos os que exigem pouca ou nenhuma habilidade estão abertos aos irlandeses. É verdade que, para os trabalhos que exigem longa aprendizagem ou uma actividade duradoura e regular, o irlandês, libertino, versátil e bebedor, não serve. Para vir a ser um operário-mecânico, para se tomar um operário de fabril, teria primeiro de adoptar a civilização e os costumes ingleses, em resumo, tornar-se objectivamente inglês. Mas quando se trata de um trabalho simples, menos preciso, que requeira rigor em vez de jeito, o irlandês é tão bom como o inglês. E é por isso que todos estes ofícios foram invadidos pelos irlandeses: tecelões manuais, serventes de pedreiro, moços-de-fretes, jobbers5, etc., incluem um grande número de irlandeses; esta invasão contribui em muito, nestas profissões, para baixar os salários e, com estes, o nível de vida da própria classe operária. E mesmo que os irlandeses que penetraram nos outros ramos tenham sido obrigados a civilizar-se, ainda lhes ficaram as marcas suficientes do seu antigo modo de vida, para que exerçam sobre os seus camaradas de trabalho ingleses uma influência degradante — sem falar na influência do próprio meio irlandês. Porque, se tivermos em conta que em cada grande cidade um quinto ou um quarto dos operários são irlandeses ou filhos de irlandeses criados na sujidade irlandesa, não nos espantaremos que na existência de toda a classe operária, nos seus costumes, no seu nível intelectual e moral, nas suas características gerais, se encontre uma boa parte daquilo que constitui a base da natureza do irlandês. Compreendemos assim facilmente como a revoltante situação dos trabalhadores ingleses, nascida da indústria moderna e das suas consequências imediatas, foi ainda mais degradada pela presença da concorrência irlandesa.
__________________________________________
1 Archibal ALISON, High Sheriff of Lanarkshire: The Principles of Population and their Connection with Human Happiness (As leis fundamentais da população e as suas relações com a felicidade humana), 2 vol., 1840 — Este Alison e o historiador da revolução francesa e como seu irmão, o Dr. W. P. Alison, é um tory religioso.
2 Chartism, pp. 28-31 e segs.
3 Miles é o nome dos antigos reis celtas da Irlanda.
4 Dr. J. P. KAY: The Moral and Physical Condition of the Working Classes Employed in the Cotton Manufacture in Manchester, 1832, segunda edição, p. 21.
5 Operário que trabalha à tarefa.


