EDITORIAL

Marcelo

                                                                                                                                                                                                                        Arnaldo Matos

Um Povo que se viu condenado a suportar durante dez anos um presidente da república como Cavaco – reaccionário, primário, inculto, ignorante e odioso – está também condenado, num primeiro tempo, a maravilhar-se com a substituição de Cavaco, mesmo quando o substituto de Cavaco seja um reaccionário histriónico como é Marcelo.

Marcelo fingiu-se de morto, sua táctica política preferida, durante a campanha eleitoral para a presidência da república, e não mexeu uma palha para ser eleito. Sabia muito bem que a televisão vende presidentes como vende sabonetes. E tendo estado por quinze anos como único comentador político nacional aos domingos, não precisaria de fazer mais nada senão praticamente desaparecer durante a companha, pois seis domingos seguidos sem comentários de Marcelo deixariam na classe média uma saudade beligerante, que a uniria à direita capitalista na tarefa de eleger o seu homem para Belém.

Marcelo foi eleito por uma dupla falta de comparência: primeiro, por falta de comparência da esquerda, que não soube nem quis unir-se atrás de um único candidato das forças democráticas e patrióticas, e, depois, por falta de comparência do próprio Marcelo, que não passou bilhete aos seus competidores, deixando-os a falar sozinhos no vazio.

A campanha eleitoral de Marcelo só começou no dia imediatamente a seguir ao de ter sido eleito presidente da república, acentuando-se a partir das vésperas da tomada de posse do cargo. E assim continuará em campanha até aos idos de Maio.

Na realidade, Marcelo só revelará a sua verdadeira face logo que as sondagens avisarem que o novo presidente terá conseguido o apoio de dois terços do eleitorado, do centro e da direita unidos.

Marcelo porá então fim à campanha eleitoral pós-eleitoral em curso, explicando assim ao que vem: a meter na ordem o parlamento, o governo, o orçamento e o país.

É por isso que venho cumprir desde já o meu dever de apelar à luta contra Marcelo, o presidente das baboseiras, das mentiras e falsidades, o presidente dos capitalistas, da burguesia exploradora e opressora. E faço-o precisamente no momento em que há cada vez mais gente iludida nas patranhas de Marcelo.

No dia da sua tomada de posse, mão direita sobre um exemplar do texto com capa vermelha e tudo, Marcelo jurou defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Ora, esta é a primeira baboseira, mentira e falsidade do novo presidente, pois toda a agente estará lembrada dos comentários de Marcelo a sustentar os orçamentos de estado manifestamente anticonstitucionais, provenientes do governo de traição nacional Coelho/Portas, e a apoiar Cavaco por ter sonegado esses documentos à imperiosa apreciação prévia do tribunal constitucional.

Se, para Marcelo, a Constituição da República é um papel que até agora valeu zero nas suas apreciações dominicais, quem poderá acreditar que valerá mais do que isso no futuro, no exercício do seu novo cargo de presidente da república?

Logo que pôde – e foi no discurso de posse na assembleia da república, depois do juramento – Marcelo proclamou a sua segunda baboseira, mentira e falsidade do dia: a de que é – e quer ser – o presidente de todos os portugueses. Ó, como a pequena-burguesia reaccionária se delicia com estas chachadas marcelistas!... Em Portugal, há um presidente da República – da República, notem bem – não dos portugueses. A República é a forma que o Estado reveste em Portugal hoje, e o presidente da república é o órgão superior e supremo do sistema capitalista, o órgão superior e supremo da classe dominante para explorar e oprimir a classe operária, a classe dominada e explorada. O presidente da república é o presidente da burguesia capitalista, é o órgão supremo da exploração e opressão dos trabalhadores. Não é nem nunca pode ser o presidente de todos os portugueses… É o presidente do sistema político e económico de uma classe para explorar e oprimir outra classe.

Não haja ilusões: não há nem nunca houve nenhum presidente da república que fosse presidente de todos os portugueses. Aliás, é a república e não os portugueses quem tem um presidente. O presidente da república é eleito por sufrágio dos cidadãos eleitores, é certo, não para ser presidente deles, cidadãos eleitores, mas para ser presidente da república, que também não é a república deles.

Não há presidente de todos os portugueses, assim como não há governo de todos os portugueses, nem parlamento de todos os portugueses, nem tribunais, nem exército, nem forças armadas, nem cadeias de todos os portugueses.

A nossa sociedade é uma sociedade de classes, em que, cada vez mais, só há uma classe dominante e exploradora e uma classe dominada e explorada. Compete à classe operária, constituída em proletariado revolucionário, derrubar essa classe dominante e o seu Estado, para instituir uma sociedade sem classes. Isto é, cabe à classe operária e a todo o povo trabalhador derrubar Marcelo, ou seja, derrubar pela força, com o sistema que nos explora e oprime, o presidente do próprio sistema.

Naquele dia, e no mesmo discurso de posse, desfraldou o hipócrita Marcelo a bandeira dos consensos, para cicatrizar as feridas, dizia ele, destes longos anos de sacrifícios. Mas como pode haver consensos numa república e com uma classe que, sob o aplauso de Marcelo, roubou 4 feriados, cinco horas de trabalho por semana e trinta por cento dos rendimentos e reformas dos operários e outros trabalhadores, do mesmo passo que aliviou a carga fiscal dos capitalistas e permitiu-lhes fugir com os lucros para os países estrangeiros, nomeadamente a Holanda?

Quando Marcelo falar de consenso, deve o operário puxar imediatamente da pistola: é que Marcelo vai passar ao assalto.

E já passou ao assalto de António Costa, no sábado passado, quando, no meio das contorcidas artimanhas de baboseiras, mentiras e falsidades, Marcelo obteve de Costa autorização para contactar directamente com os ministros por telefone, passando por cima do chefe do governo.

Costa ofereceu de bandeja à raposa a chave do seu próprio galinheiro… Ah, coitado do Costa, coitado!

14.03.2016








                                                                                                                                                                                                                                                                                 

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Comentários   

 
# sérgio Oliveira 14-03-2016 22:00
Neste momento já nem é tudo isso (embora verdadeiro e pertinente) que mais me indigna.O que mais me indigna e estranho ninguém analisar nem questionar, são os estranhissímos 52%, à justa o minino dos minimos necessários para a eleição à primeira volta.O único número inteiro que aparece em dez candidatos e tendo cinco milhões de eleitores mandado passear taia eleições não tendo sequer comparecido.Mar celo foi buscar os 52 certinhose direitinhos "adonde"?! Ele há cada councidência milagrosa e oportuna neste país onde votam tantos mortos!..
 

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