CULTURA
Projecto Global: um trespasse da ideologia burguesa
Projecto Global: um trespasse da ideologia burguesa
Projecto Global, realizado por Ivo Ferreira e lançado a 23 de Abril de 2026, propõe-se a transportar o espectador até à turbulência do Portugal pós-revolucionário. Situado nos anos 80, o filme procura iluminar a história das Forças Populares do 25 de Abril – organização popular de luta armada que operou em Portugal entre 1980 e 1987. No entanto, testemunha-se com alguma rapidez que a obra fica aquém do objectivo com que se compromete. A audiência depara-se de imediato com um ambiente carregado, mas pouco coeso: Ilustra-se um Portugal marcado pela crise, pela autoritarização do Estado e pela insatisfação popular, mas em ponto algum se retrata como este Portugal surgiu.
Constata-se de imediato uma suavização grotesca do papel da repressão policial no clima político de então, transferindo-se uma vasta maioria da responsabilidade deste contexto para as camadas populares, a sua agitação, o seu descontentamento e o seu protesto perante a degradação da sua qualidade de vida. Entre um leviano “tu sabes que eles também são precisos” (referindo-se precisamente à força policial), uma cumplicidade sem hesitação no auxílio à fuga de Jaime da prisão e o estranho e ambíguo posicionamento do inspector-chefe perante as FP e o movimento revolucionário, o guião parece carecer, primeira e imediatamente, de uma noção realista do papel e actuação do braço armado do Estado na repressão das camadas populares e no agravamento de tensões entre o proletariado e a classe burguesa.
Com um elenco de sucesso e uma narrativa próxima da audiência, seria também de esperar que o espectador pudesse, espontânea e naturalmente, empatizar com os personagens e as histórias pessoais retratadas no ecrã. No entanto, as suas identidades vêem-se rapidamente reduzidas a estruturas de arquétipo, onde cada indivíduo desempenha um papel claro e definido na acção, sem espaço para uma evolução de carácter humano e realista. A narrativa não se demonstra mais impressionante, denotando-se alguma imprecisão na temporalidade e sequência histórica dos acontecimentos abordados.
Ainda no campo da precisão histórica e visual, denota-se uma compreensão enviesada do pós-revolução, dos seus agentes, das suas linhas ideológicas e do papel por eles desempenhado. A inserção de elementos de propaganda política (como autocolantes e cartazes), reservada ao PCTP-MRPP, parece uma intencional, ainda que tácita, associação da imagem do partido à causa das FP25, como se quisesse talvez sugerir uma ligação entre as duas partes. Tal alegação parece histórica, cultural e socialmente irresponsável, mediante, em primeiro lugar, a natureza primordialmente abrilista das Forças Populares e, em segundo lugar, expressa uma evidente incongruência perante as tomadas de posição do PCTP/MRPP quanto à sua interpretação da natureza e do significado da revolução de Abril de 1974. Reitera-se ainda que esta associação não existe expressa ou directamente para qualquer outra força ou actor político de então, nem mesmo para o capitão, que existe claramente como um arquétipo de Otelo Saraiva de Carvalho, física e psicologicamente, sendo-lhe, ainda assim, permitido o anonimato.
Analisando ainda a linha narrativa, não fica claro o posicionamento do filme quanto às FP, ao movimento revolucionário e ao futuro da luta de classes. No seio de um movimento de luta popular à linha revolucionária armada, estranha-se a presença de um espírito capitulacionista e derrotista, e de uma linha ideológica simpatizante de ecos trotskistas (como “Vê lá o que dizes, ainda te dão um tiro, como o Estaline fez ao Trotski”), ou ainda de uma práxis que se resume a ataques espontâneos e não planeados. Neste âmbito, é logicamente questionável a referência sucessiva à ideia de uma revolução pacífica e na dissolução completa do fascismo em Portugal, imediatamente após o colapso do regime salazarista e marcelista. Adicionalmente, a visão da linha revolucionária quanto à emancipação e aos corpos femininos destoa amplamente da redução instrumental de Rosa a um apetrecho e um objecto exclusivos para a atenção masculina. Rosa, à semelhança do restante elenco, desempenha um papel de um arquétipo, carregando um peso adicional na nuance discutivelmente misógina de alguns dos seus traços, sendo objectivamente a forma genérica de uma mulher que, por chance ou acaso, se encontra envolvida no seio de um grupo de resistência armada de então, mas permanecendo, acima de tudo, mulher e mãe. As suas acções, como as de todos os personagens, não existem por um motivo, não desencadeiam nenhuma reacção específica, nem parecem ter uma motivação transversal ou consistente. O diálogo e o argumento revelam-se teatrais, forçosos e irrealistas, sendo difícil discernir uma lógica narrativa que crie coesão, consistência, credibilidade e proximidade pessoal entre o espectador e as escolhas artísticas do filme.
Curiosamente, é aqui mesmo que parece residir o cerne do guião e da sua leitura da revolução, do poder popular, da insurreição armada, ou de qualquer uma das temáticas que se propôs abordar: uma concepção idealista, carente de raízes na realidade histórica, e quase anti-materialista da luta de classes e da sua evolução no período pós-revolucionário. Projecto Global é um filme que não consegue, nem poderia, criar empatia com uma audiência familiar à narrativa precisamente porque não se baseia, informa ou inspira nela, optando ao invés por uma abordagem “slice of life” de uma luta que é, antes de mais, colectiva, material, histórica e multifacetada – e portanto com ela plenamente incompatível. É, fundamentalmente, um filme de revolucionários falhados, mas sempre sortudos o suficiente para se escapare por entre as pingas da chuva, de rebeldes armados que se rendem passivamente às investidas do capital e dos seus agentes, de um proletariado activo, mas imóvel; um filme mais fiel ao conceito idealizado de emancipação e libertação da classe operária do que à realidade da sua luta e das suas reacções e necessidades perante ela.
Assim, Projecto Global aborda a temática a que se propôs, somente na medida em que se demonstra, com pouco esforço, um exemplo de uma visão revolucionária fantasiosa e quase delirante da luta de classes, das suas motivações, origens e fins. A revolução avançará, mas não avançará assim.
AP


