INTERNACIONAL

Eu Não Sou Charlie!

Com vossa licença, chamo-me Arnaldo Matos, sou comunista, modesto aluno de Marx e do movimento operário internacional, defendo os proletários e os pobres. Não faço parte do rebanho de carneiros que nesta última semana se rebaptizou de charlie e marchou, cheirando-lhes o cu, atrás de terroristas como François Hollande, Ângela Merkel, David Cameron ou Passos Coelho, este ladrão de trabalhadores e reformados do meu País.

Segundo comunicações vendidas pelas agências noticiosas internacionais e obtidas das polícias locais, um milhão de pessoas das mais diversas cores políticas e dos mais diferentes credos religiosos – misteriosamente as agências não reportam a participação de ateus nas marchas – desfilou ontem, Domingo, em Paris, entre a Praça da República e a Praça da Nação, aparentemente em homenagem às duas dezenas de vítimas dos atentados ocorridos em França na semana passada, levados a cabo por jovens franceses muçulmanos, o mais grave dos quais atentados na sede do Charlie Hebdo, um jornal semanário satírico que fez carreira a implicar com o comunismo, o catolicismo, o judaísmo, o muçulmanismo e o chamado terrorismo islâmico.

À mesma hora e organizada pelas respectivas embaixadas e institutos franceses, a manifestação de Paris repetiu-se em Nova Iorque e em algumas cidades europeias, entre as quais Lisboa, sob o mesmo tema obcessivamente repetido: Eu sou charlie.

A manifestação de Paris abriu com François Hollande e Manuel Valls, enganchados no presidente do Mali e na chancelerina Ângela Merkel, com Natanyhau e Matteo Renzi e mais quatro dezenas de chefes de Estado e de governo que fizeram de Paris, por um dia, uma capital mundial, a que só faltou a presença do maior terrorista da história nos últimos sete anos: o tal de Barack Obama.

Ora, toda esta gente – em Paris, em Nova Iorque, em Londres e até em Lisboa – desfilou a coberto de cartazes que invocaram o medo na sua qualidade de vítima – Je suis Charlie – o medo que os terroristas maiores do tempo presente (Obama, Cameron, Hollande, Netanyhau) incutem nos seus próprios povos, mediante uma amálgama ideológica que oculta a natureza e qualidade dos verdadeiros e autênticos terroristas: o imperialismo americano, inglês, alemão e francês.

Desde a data da sua fundação em 1970, o Charlie Hebdo passou quarenta e cinco anos a zurzir na religião muçulmana, no islamismo, no catolicismo, no judaísmo e, sobretudo, a zurzir na luta dos jovens islamitas contra o imperialismo americano. A noção de liberdade de pensamento e de liberdade de imprensa para o Charlie Hebdo é que tudo tem piada quando se aplica aos oprimidos, mas não são capazes de inventar uma piada susceptível de denunciar o carácter do imperialismo.

Os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo parece nunca terem alcançado que o sarcasmo, o humor, até a simples ironia, também têm um carácter de classe bem marcado e que alguma coisa irá de mal com os seus tropos quando só têm lápis e caneta para oprimir os mais fracos, os mais pobres e os mais deserdados. A liberdade de pensamento e de imprensa reclamada para Charlie Hebdo era uma liberdade de classe: a liberdade de oprimir pelo sarcasmo e pela sátira os mesmos que já são oprimidos pela exploração nos campos e nas fábricas.

A classe dominante capitalista portuguesa também usa dessa liberdade de palavra e de imprensa para oprimir os trabalhadores alentejanos e os operários fabris em todo o território nacional.

Claro está que os comunistas e o proletariado não precisam de recorrer à bomba para calar os jornalistas e cartoonistas imbecis. Mas, quando os muçulmanos vêem diariamente destruídas as famílias por cobardes ataques aéreos do imperialismo ianque no médio oriente ou do imperialismo francês no Mali, na Líbia, no Iraque ou na Síria, compreensível é que façam lembrar também aos opressores que não estarão livres para dormirem sossegados em casa.

Acontece, todavia, que os acontecimentos sombrios ocorridos na última semana em França são um problema interno do Estado Francês, e não um problema europeu ou do Mundo, no qual os outros países do velho continente se devam imiscuir.

A caça ao homem posta em prática pelas polícias de elite francesas contra jovens franceses de religião muçulmana, com a execução desses jovens sem apelo nem agravo, em vez do seu aprisionamento, mostra que, para o Estado Francês, os jovens muçulmanos nascidos em França não são autênticos cidadãos franceses. São coisas ou animais a abater. Sabendo nós, como sabemos, que esses jovens foram longo tempo vítimas do desemprego e condenados a penas de prisão por pequenos furtos, cabe perguntar que tratamento deram os polícias a esses jovens nas cadeias de França, para os terem transformado em jihadistas cheios de ódio.

Um terço da população francesa é hoje muçulmana. O que é que Hollande e Manuel Valls pensam fazer aos muçulmanos de França? Vão matá-los a todos? Vão forçá-los a capitular? Vão desencadear contra eles uma guerra santa? Vão expulsá-los do território pátrio?

A França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América perderam definitivamente a guerra contra o chamado terrorismo islâmico, quando, em 2001, reagiram pela força bruta, irracional e estúpida contra o Afeganistão, contra o Paquistão e, depois, contra o Iraque, com uma segunda guerra a Sadam, após a demolição das Torres de Manhattan.

Pensando que as armas americanas e da Nato venceriam tudo, porque seriam capazes de pôr o adversário de joelhos, os imperialistas e a Nato sofrem derrotas cada vez maiores: não só não conseguiram pôr termo ao terrorismo islâmico como o agravaram até ao ponto de coleccionarem derrotas incontornáveis.

Os Estados Unidos, a Nato e a Europa perderam a segunda guerra do Iraque, perderam a guerra do Afeganistão, perderam a guerra da Líbia, perderam a guerra da Síria e estão a perder a guerra contra o Estado Islâmico, a nova guerra santa proclamada por Obama contra o Islão.

O governo português deve afastar-se completamente da estratégia americana contra o chamado terrorismo islâmico, não por medo, mas porque essa estratégia está definitivamente condenada à derrota total.

Portugal ainda não retirou o seu contingente militar do Afeganistão, onde perdemos homens e dinheiro para cumprir o papel de lacaios dos americanos e da Nato.

Portugal vai agora envolver-se, como lacaio da França, no Mali, onde irá ser inevitavelmente derrotado.

Nós não somos Charlie. Nós somos, João, Francisco, José, Alfredo, Carlos até. E, se me dão licença, Arnaldo também. Mas jamais lacaios do imperialismo.



Arnaldo Matos





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Comentários   

 
# João Paz 13-01-2015 02:35
Excelente denúncia do pretenso unitarismo que só une os terroristas de Washinton a Berlim passando pelos sionistas de Israel e muitos milhares que EMBARCARAM na propaganda oficial. Aponta as causas e as saídas para este calamitoso estado de coisas que a classe dominante engendra a cada dia que passa.
Trata-se pois, como muito bem diz o artigo, de ajoelhar ou lutar e esta posição (lutar) vai seguramente ter mais adeptos a cada dis que passa.
O POVO VENCERÁ!
 
 
# José Pinto Marques 13-01-2015 10:01
Como sou um dos deserdados portugueses, pela politica neoliberal implementada na nossa Pátria por este bando de ladrões, encontro-me a trabalhar em França. Somos os novos escravos.
Je suis José
 
 
# Valentim Martins 13-01-2015 13:36
Um grande artigo. Bem esclarecedor.
O povo vencerá!
 
 
# José Sanos 14-01-2015 18:15
Não podemos esquecer que esta ultima reacção ao Charlie Ebdo vem da caricatura de um muçulmano a ser assassinado com o Corão à sua frente, e com o comentário que afinal o Corão não salva. Isto por ocasião dos massacres da primavera árabe, em que o povo lutava não por uma religião mas apenas contra a tirania. Estes cronistas se para os cristãos e muçulmanos foram uns verdadeiros cães de fila, já para a maçonaria foram uns verdadeiros lambe botas!
 

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