PAÍS
- Publicado em 26.04.2026
MOVIMENTO ESTUDANTIL EM CRISE
CAUSAS E CAMINHOS
No dia 24 de Março, Dia Nacional do Estudante, milhares de estudantes vindos de todo o país reuniram-se, em grande descontentamento com as condições do ensino superior em Portugal, numa manifestação contra as medidas ousadas de elitização do ensino, defendidas pelo ministro da educação, Fernando Alexandre, do governo burguês da AD.
Os estudantes e as suas famílias trabalhadoras sentem cada vez mais na carteira a dificuldade que é estudar no nosso país. O salário mínimo é insuficiente para pagar as propinas elevadas e todos os custos associados ao ensino. Os alojamentos são poucos e encontram-se em condições degradadas, situação que, afirma o ministro, é causada pelos “alunos provenientes de meios socioeconómicos mais desfavorecidos”. As bolsas são limitadas e de difícil acesso, excluindo os mais vulneráveis de aceder ao ensino superior.
Apesar disso, e ignorando (mais uma vez) a dura realidade vivida pelos portugueses, o ministro pretende levar para a frente o descongelamento e o aumento das propinas para o ano lectivo de 2026/2027, medidas que consideramos inaceitáveis e altamente irresponsáveis.
Em reacção a este ataque ao ensino acessível, os estudantes saíram à rua, reivindicando o ensino gratuito, mais acção social e maior representação nos órgãos de governo das universidades. Efectivamente, esta causa levou, como vimos no dia 24, à reunião de estudantes suficientes para que se pudesse realizar uma marcha de tamanho significativo até à Assembleia da República. No entanto, esta manifestação, já com uma participação mais considerável do que a realizada em Outubro e convocada pelas mesmas razões, apesar de vistosa, não passou disso.
A reacção de Fernando Alexandre à manifestação foi uma de total indiferença, e tudo aponta para que o seu atentado ao ensino avance sem quaisquer alterações. O governo continua a não levar a sério os alunos e a desrespeitar as suas vontades.
Esta manifestação foi assim mais uma exibição do falhanço contínuo do movimento estudantil. No entanto, podemos facilmente perceber, ao analisar mediante uma lente marxista a organização deste movimento, quais são as suas principais falhas e assim, oferecer novas estratégias para levar além esta luta.
Primeiramente, observamos um problema na estratégia das associações estudantis que se assemelha ao dos sindicatos na luta contra o pacote laboral. As pequenas e, acima de tudo, esporádicas marchas que visam acabar com a precariedade acabam por servir, nada mais, nada menos, como um espectáculo para a comunicação social.
Os estudantes devem ousar fazer frente ao governo e aos burgueses que atacam o ensino superior, seguindo o exemplo daqueles que fizeram frente ao regime fascista nas faculdades. Isto só pode ser feito com mais acção, mais continuidade nessas acções e, acima de tudo, ideologia.
Mas em que sentido deve ser aplicada a ideologia marxista no movimento estudantil?
É importante, para entender como melhorar a organização do movimento dos estudantes, perceber como está organizada a colectividade em que se enquadram, isto é, as faculdades. Sendo os próprios estudantes membros da sociedade de classes, é natural que as estruturas de poder se reflictam nos locais de ensino e, por extensão, nas associações. Assim, vemos que muitas vezes as AE’s, infiltradas por estudantes com tendências burguesas, reaccionárias, reformistas e todos os outros traidores de classe, não se dedicam como deveriam (se se dedicam de todo) à luta dos estudantes. Isto dá-se porque esses estudantes, ou não sofrem e são indiferentes às consequências do ensino elitizado, ou defendem-no por ignorância. Assim, estes estudantes, membros das associações estudantis, participam apenas nas manifestações de modo a manterem a sua imagem e como forma de legitimar a sua presença nos cargos das associações, mesmo que sejam, para eles, a gratuitidade e a acessibilidade no ensino um objectivo indesejável. Isto é, estes estudantes participam nas manifestações, não lutam pelos objectivos e realizam as marchas “porque lhes fica bem”, criando assim mais uma fragilidade no movimento.
Com esta análise, percebemos que devemos ver e tratar o mundo estudantil como a sociedade completa. Enquanto não for democratizada, é capitalista e reflecte a sociedade de classes.
É crucial que os estudantes percebam a teoria da luta de classes e que não a deixem alienada do movimento estudantil, construindo-o de um modo mais ideologicamente homogéneo, unido e revolucionário.
Lutemos pela organização dos estudantes sob a direcção da classe operária!
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