A ESQUERDA E O 25 DE ABRIL (2.ª parte)

Transcrição, da responsabilidade da redacção do Luta Popular, da intervenção do camarada Arnaldo Matos na Conferência/Debate realizada na Casa Álvaro Campos em Tavira, dia 17 de Abril de 2009

Os militares nunca souberam o que é que queriam com aquela guerra e então adoptaram uma estratégia para combater os movimentos de independência, naturalmente essa estratégia estava sempre condenada ao fracasso qualquer que ela fosse, mas adoptaram uma estratégia que consistia, como não era possível fazer grandes operações militares porque isso levava a que a população desaparecesse dos campos, eles não podiam fazer grandes operações militares. As grandes operações militares como o “Nó Górdio”, como operações na Guiné, como a operação “Viriato” no Norte de Angola, eram operações militares que podiam até terminar por uma vitória militar, mas que terminavam sempre com uma derrota populacional: o povo fugia.
Então os nossos cérebros militares pensaram numa estratégia diferente que era, em vez disso, criar um esquema que permitisse defender as populações e mantê-las connosco. Para isso era preciso abandonar a guerra e fazer um outro tipo de guerra de continuação. Para isso eram precisas unidades mais pequenas, não grandes unidades mas pequenas unidades. Quais pequenas unidades? A companhia. E precisamente porque a companhia é o núcleo fundamental de guerra colonial e a companhia é dirigida por um capitão, é (por isso) que os capitães têm tanta importância nas forças armadas portuguesas. É porque a estratégia militar fez com que fosse necessário um grande número de capitães, mas não de generais, não de coronéis, não de tenentes-coronéis.
Isto é, o exército português cresceu como uma mulher gorda: alargou para o meio, mas era para cima pequeno e para baixo só tinha duas pernas.
Portanto, esta estrutura faz levar à mobilização dos capitães por razões meramente corporativas: como eram precisos muitos capitães, a academia militar não conseguia fabricar capitães a tempo, era preciso então recorrer aos alferes milicianos e propor-lhes: os senhores querem ser capitães? Então vão fazer nova comissão, um tratamento à pressa e eles passavam a capitães.
Mas os capitães do quadro diziam: “eu não posso, eu que fiz um curso militar não posso, por opção, dividir com esses indivíduos que se limitaram a fazer uma guerra em Angola ou na Guiné ou em Moçambique, dividir com eles a minha carreira” e vai surgir aqui uma contradição entre os capitães da academia militar e os capitães milicianos. Os capitães milicianos não podiam ter os mesmos direitos que os capitães do quadro permanente e os capitães do quadro permanente podiam ser coronéis, generais, podiam ser isso tudo, mas os outros nem sequer um podiam ser. E surge aqui uma contradição que leva às reuniões dos capitães, não dos generais, dos capitães, durante muito tempo para tentar resolver isto até que o governo publicou um decreto que igualava os capitães milicianos aos capitães do quadro permanente. E foi aqui que surgiu o Movimento das Forças Armadas.
O Movimento das Forças Armadas é um movimento que se propõe pura e simplesmente defender os interesses directos daquele clã militar da Escola do Exército, o (do) clã dos capitães. Todas estas revoluções se fazem, todos os novos estados se fizeram em Portugal dirigidos por Generais, desde aquele que mais está debaixo dos vossos ouvidos que é o 28 de Maio, até outros que por aí adiante foram avançando. Inclusive o golpe de Beja era também o golpe de um general. O golpe de Beja em 1960 é também um golpe de um general. Mas nunca de capitães.
O que é que faz com que os capitães depois de conduzirem esta guerra… - lembrar-se-ão também que houve duas tentativas de golpe por altura do 25 de Abril, primeiro um golpe das Caldas de 16 de Março, feito por quem? Pelos capitães milicianos com a cobertura do general Spínola. Este golpe falhou pois não chegou a Lisboa sequer, mas acompanhei sempre o estado disso, apenas a Alenquer e voltou para trás. Mas antecipou o golpe do 25 de Abril que já estava marcado para o 25 de Abril para não coincidir com o 1 de Maio porque o 1º de Maio era uma coisa operária, e um golpe feito numa data de operários podia ser mal entendido e eles não queriam complicações. Bom! Portanto temos aqui uma situação que é esta: (quando,) juntou-se no 25 de Abril a fome com a vontade de comer, juntou-se todas as pessoas que estavam em Portugal, todos os sectores sociais, todos os sectores estavam contra aquele regime.
Os militares porque já estavam fartos de guerras e mais guerras, os operários porque achavam que, apesar de tudo, os seus salários eram inferiores aos salários eferentes, incomparavelmente inferiores.
Mesmo assim não se esqueçam que no 25 de Abril lutava-se por um salário mínimo nacional para a indústria de 6 000$00 e em 1974 foi aprovado o salário mínimo para a indústria no valor de 3 300$00. Os senhores sabem que, em termos reais, este salário só foi ultrapassado em 1998? Quer dizer o que ganhamos em 1974, os 3 300$00 em termos reais, era superior a todos os salários mínimos que houve até chegarmos a 1998? Ninguém sabe, mas é verdade: são factos.
“Quer dizer, a revolução faz-se numa situação em que, em Portugal, não havia uma crise mas sim um desenvolvimento acelerado, numa situação em que estruturas tradicionais portuguesas tinham sido completamente rompidas com o aparecimento da mulher na indústria, com a emigração, com uma guerra colonial que já não era suportável. Tudo estava de acordo para deitar abaixo o regime e, portanto, facílimo.
Mas o que é que distingue a esquerda, ou aliás, o que é que há em Portugal em 1974? Há um partido do poder, teve várias alterações, a União Nacional transformada, mas é sempre a mesma União Nacional, isto é, o partido dos grandes latifundiários e dos grandes capitalistas; existe um partido que vem da 1ª guerra mundial que é o Partido Comunista Português; existe o MRPP; e existe uma coisa que se chamava Partido Socialista e que se tinha fundado uns meses antes do 25 de Abril na Alemanha. Isso são os partidos que existem, não existem mais partidos. Bom havia umas quantas facções de intelectuais, mas partidos verdadeiramente, o que havia era isto.
Todas as pessoas estavam de acordo em derrubar o fascismo, mas o processo para derrubar o fascismo está dependente de duas coisas: 1.º perceber o que se tinha passado na sociedade portuguesa, e se os senhores lerem hoje, - e não pensem que eu vim hoje para fazer propaganda contra os outros, eu já tenho mais que fazer do que me andar a preocupar-me com essas coisas -, mas se os senhores lerem, por exemplo, o livro que conduziu o PCP em toda esta fase que é o “Rumo à vitória” vão ver que o “Rumo à vitória” o que diz é que nós vivemos numa sociedade de desgraçadinhos.
Ora precisamente nós nunca teríamos vivido tão bem como nos anos 60 se viveu em Portugal, nem antes, depois não é a mesma coisa, depois as coisas melhoraram, às vezes melhoraram outras vezes pioraram e, portanto, tinha-se uma visão incorrecta da situação em que o país se encontrava. E depois, quando se vai conduzir essa revolução, essa revolução é conduzida de formas que, consoante a teoria que se tem, podem conduzir para bem ou podem conduzir para mal.
Por exemplo, toda a gente sabia que o país tinha uma forte componente camponesa: em 1960 havia 1 milhão de explorações agrícolas em Portugal, 1 milhão! Ora bem, toda a gente sabe hoje e nessa altura também sabia que a pequena propriedade estava no Norte e no Centro e que a grande propriedade estava no Sul, descontando aqui o Algarve que tem uma parte grande propriedade e uma parte de pequena propriedade e que já tinha nessa altura. Bom, portanto, havia 1 milhão de propriedades.
Em 1970 havia apenas 750 000 propriedades agrícolas. Quer dizer, já tinham desaparecido 200 000 propriedades sem fazer revolução nenhuma. 200 000! Bom, quando se vai fazer a revolução, agora, temos duas categorias de camponeses: temos uns camponeses que vivem em terras de grande latifúndio e temos uma esmagadora maioria de camponeses que vivem em pequenas propriedades.
A condução desta luta é a questão que decide da vitória ou da derrota da revolução. Ou bem se compreende que os camponeses, pequenos camponeses que têm aquelas imensas propriedades mas não produzem nada que sirva, nada que preste, nada que possa competir com os mercados europeus, têm de ser apoiados, e, portanto, uma parte da população tem que se virar para eles para apoiá-los, ou não se compreende isto e pensa-se que a revolução está no Alentejo e, evidentemente, a derrota vai ser fatal como o destino, tanto para o Alentejo como para o resto.
Porquê? Porque o pequeno camponês ficou ansioso. Se num grande latifúndio os trabalhadores rurais sabem que se ficarem com o latifúndio está tudo bem, o patrão é só um, o latifúndio enorme, porque é que se há-de pegar nisto e dividi-lo em partes? Não isto fica tudo para quem trabalha a terra, tudo serve. Mas agora vão ao Minho e vão às Beiras e não têm esta propriedade e o que é que vão fazer à propriedade? Vão nacionalizá-la? Ora o camponês vai estar contra a revolução que nacionalize aquela propriedade. Como é que o camponês pode participar naquela revolução? Se o Estado lhe der garantias (de que não,) de que não lhe nacionaliza a terra e o apoia na produção até ele atingir os níveis que outras classes sociais já atingiram em Portugal.
Isto não foi feito, isto é uma das razões por que a revolução foi derrotada e é uma das razões por que alguma esquerda que defendia que isto devia ser assim e outra que defendia que não devia ser assim.

pctpmrpp

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