EDITORIAL

Mortes que Revoltam:
Quem São os Responsáveis?

No intervalo de cinco dias, morreram dois instruendos do último curso de Comandos: o furriel Hugo Miguel de Abreu, de vinte anos de idade, natural da Ribeira Brava, na ilha da Madeira, e o soldado Dylan Araújo da Silva, da mesma idade, natural de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo.

Primeiro, os seus inconsoláveis pais, que nos merecem todo o respeito, carinho e solidariedade, mas depois toda a juventude e toda a população portuguesa que se encheram de muito justa indignação e de incontida revolta, começam agora a questionar--se: morreram ou foram mortos? E, se foram mortos, quem os matou?

Nenhuma entidade militar – nem o Regimento de Comandos, nem o Chefe de Estado-Maior do Exército, nem o chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, nem o Ministro da Defesa – publicou qualquer declaração a informar as famílias dos jovens militares e o País dos factos que teriam levado à morte dos instruendos do centésimo vigésimo sétimo curso de Comandos.

Marcelo, o penduricalho dos afectos ensebados, não apareceu no funeral dos rapazes nem se deslocou aos enterros para consolar as famílias, ele que passa a vida a beijocar este mundo e o outro…

Todos fugiram com o rabo à seringa, todos sacudiram a água do capote, todos se escapuliram à sua responsabilidade nos trágicos acontecimentos.

Ora, quem matou os jovens comandos?

Vejamos as coisas como devem ser vistas: não há nada que justifique ou que perdoe a morte de um soldado em instrução. Se um soldado perde a vida em instrução, é porque foi morto pela negligência ou incompetência de alguém, nomeadamente dos seus chefes.

E quando a cadeia de comando aparecer – como Marcelo, como o Ministro da Defesa Azeredo Lopes, ou como Chefe de Estado-Maior do Exército, General Rovisco Duarte – a encomendar respostas a um inquérito, estão a chutar a bola para canto, ou seja, a demitir-se das suas responsabilidades próprias.

Se um soldado morre em instrução, os pais do soldado devem exigir responsabilidades ao presidente da república, na sua qualidade de chefe supremo das forças armadas do País, ao Ministro da Defesa, na sua qualidade de responsável político pelas Forças Armadas, e ao Chefe de Estado-Maior do Exército, se a vítima integrar unidades do Exército de Terra.

Um soldado que morre em instrução é, para todos os reais e verdadeiros efeitos, um soldado assassinado por alguém que não cumpriu o seu dever militar.

O centésimo vigésimo sétimo curso de Comandos estava constituído por sessenta e sete instruendos: 3 oficiais, 7 sargentos e 57 soldados.

No primeiro dia da fase individual da parte final do curso, que teve início às 07H00 do domingo, dia 4 de Setembro, onze instruendos transformaram-se subitamente em baixas, a partir das 11H00, incluindo os instruendos que tão tristemente acabaram mortos: o Hugo Miguel Abreu e o Dylan Araújo da Silva.

Ora, a pergunta que toda a gente faz aqui é esta: ninguém, na cadeia de comando, incluindo os serviços de saúde militar, se apercebeu que qualquer coisa de extremamente grave se estaria a passar com uma força militar instruenda que já contava com 16% de baixas ainda antes de completar o primeiro dia de instrução? Haverá alguém no Regimento de Comandos, nas Forças Armadas, na Defesa Nacional que não saiba que um soldado, transportando trinta quilogramas de carga, fato de combate e espingarda incluídos, num dia com 40,2º de temperatura, perde 1,5 litros de água do seu corpo por hora e que se a não repuser, com respectivos sais, dentro de quatro horas está morto?

Se os instruendos Hugo Miguel Abreu e Dylan Araújo da Silva se sentiram mal, respectivamente, às 15H40 e às 17H00, por que não foram evacuados imediatamente, por via aérea, para o Hospital que deveria estar de prevenção ao exercício?

Porque é que os dois instruendos, como aliás os outros nove, foram levados para uma tenda médica de campanha no Campo Militar de Alcochete e ali ficaram para morrer, o que aconteceu ao jovem Hugo Miguel Abreu, cuja morte foi declarada às 21H45, seis horas depois dos primeiros sintomas do golpe-de-calor, e quase acontecia ao jovem Dylan Araújo da Silva, que ficou na tenda até às 24H00, mesmo depois de toda a gente ter visto que a tenda não era solução para o caso, sete horas depois de se ter sentido mal, e quando o calor interno do seu corpo já tinha alcançado os 42 graus de temperatura e, obviamente, o seu fígado e rins já estavam desfeitos.

Porque é que não estava de prontidão no local um helicóptero da Força Aérea para evacuar eventuais doentes ou feridos, que efectivamente não iriam deixar de ocorrer, designadamente por golpes-de-calor, claramente previsíveis naquelas circunstâncias de temperatura, de clima e de esforço físico?

E porque é que não foi chamado imediatamente o INEM, já que não havia helicóptero, para proceder à evacuação, para o Hospital que deveria estar de prontidão para acolher as eventuais e previsíveis vítimas de golpes-de-calor?

Quem é ou quem são os responsáveis por deter durante seis e sete horas, respectivamente, numa tenda médica de campanha, dois jovens às portas da morte?

E porque é que o oficial responsável pelo 127º curso de Comandos, colocado perante a verdadeira hecatombe de baixas sofridas pelos instruendos, não suspendeu imediatamente todas as actividades do curso, evitando as males maiores que viriam a acontecer?

É que convirá aqui lembrar que mesmo os que sobrevivem a golpes-de-calor intensos como os homens do curso 127º, poderão ficar seriamente diminuídos para o resto de suas vidas, o que estamos esperançados não venha suceder a mais ninguém, sobretudo aos dois jovens instruendos qua ainda se encontram em tratamento em serviços hospitalares intensivos.

O general Carlos Branco, ex-instrutor do curso de Comandos, suscitou no seu blogue Cortar a Direito, com uma coragem exemplar, o problema da responsabilidade daqueles militares e políticos que deixaram o ministro da defesa Aguiar Branco e o governo de traição nacional Coelho/Portas destruir o sistema de saúde militar, designadamente o seu sistema hospitalar, que eram não apenas indispensáveis para os efectivos das forças armadas portuguesas, mas também como reserva da nação e do povo em ocasiões de crise.

Na verdade, lambendo as botas à Tróica, Aguiar Branco, Passos Coelho e Paulo Portas destruíram o sistema hospitalar e de saúde dos três ramos das forças armadas. Se as forças armadas precisarem de tratar um dia os soldados feridos em combate, ou mesmo em treino, terão de despachar os seus homens para São José, Santa Maria ou São João no Porto, instituições onde já nem os civis podem ser tratados.

Quando foi preciso evacuar as vítimas do primeiro dia do 127º curso de Comandos, a médica de serviço no actual Hospital das Forças Armadas (HFAR) recusou--se a receber os pacientes, alegando que não dispunha de condições para o efeito.

As vítimas tiveram que ser encaminhadas para os hospitais civis, como sucedeu com o instruendo Dylan Araújo da Silva, transferido para o hospital Curry Cabral, onde infelizmente veio a falecer.

Os fascistas que estiveram no poder no tempo do governo de traição nacional Coelho/Portas, com Aguiar Branco na defesa, são os primeiros responsáveis pela destruição do serviço de saúde e hospitalar das forças armadas, e, portanto, os primeiros responsáveis pelas mortes do Hugo Miguel Abreu e do Dylan Araújo da Silva.

Mas não não são os únicos.

Os chefes de estado-maior do exército, da marinha, da força aérea e general das forças armadas, todos colaboraram nesse crime, que consistiu em liquidar um serviço hospitalar que não só era e continua a ser indispensável para todos os combatentes militares, como também para reserva estratégica de todo o povo português.

Onde estão esses militares agora, eles que cederam como capachos aos responsáveis Aguiar Branco, Passos Coelho e Paulo Portas? É que são também responsáveis pela morte do Hugo Miguel Abreu e do Dylan Araújo da Silva. E vão com certeza tentar fugir às suas incontornáveis responsabilidades.

Catarina Martins e o seu Bloco dito de Esquerda aproveitaram a situação dos instruendos mortos e feridos no primeiro dia da parte final do 127º curso de formação, para exigir a extinção do Regimento de Comandos, actualmente reduzido ao efectivo de um Batalhão.

O raciocínio – chamamos-lhe assim – de Catarina é curioso: os comandos justificavam-se no tempo de guerra colonial, mas não nos dias de hoje… Ora, se os Comandos deveriam ser combatidos pela esquerda portuguesa pois seria antes de tudo no tempo da guerra colonial. A ideologia de Catarina e do seu Bloco é uma ideologia fascista ao retardador… Não são precisos hoje, porque foram precisos ontem!...

O que a esquerda proletária revolucionária, em nome da classe operária, deve exigir é a extinção das forças armadas permanentes profissionais, porque são hoje forças mercenárias pagas não para servir o povo português, mas para lutar contra ele, forças armadas que só existem para manter a ditadura da burguesia e o modo de produção e exploração imperialista em Portugal.

Os comandos, as demais tropas de terra, a marinha e a força aérea são hoje tropas mercenárias ao serviço do imperialismo americano, francês e alemão em África, e no Médio Oriente.

O centésimo vigésimo sétimo curso de comandos acabava de entrar na parte final da sua formação de profissionais da guerra, para partirem muito em breve para a República Centro Africana.

São as forças armadas mercenárias actualmente existentes em Portugal que devem ser extintas, não apenas uma das suas forças de ataque, como é o Regimento de Comandos.

13.09.2016

Arnaldo Matos

 


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