Friederich Engels - Anti-Dühring (Parte I – Filosofia - Capítulo V – Filosofia da Natureza: Tempo e Espaço )

Friederich Engels
Anti-Dühring

Prefácios
Introdução - Capítulo I – Generalidades
Introdução -
Capítulo II – O que Promete o Sr. Dühring
Parte 1 - Filosofia - Capítulo III – Classificação. Apriorismo
Parte I - Filosofia - Capítulo IV –  Esquemática do Mundo


Parte I – Filosofia
Capítulo V – Filosofia da Natureza: Tempo e Espaço

 Passemos, agora, à filosofia da natureza. O sr. Dühring, também aqui, tem razões para não estar satisfeito com os seus predecessores. A filosofia da natureza "caiu tanto, que se tornou uma árida e má poesia, feita de incultura" e foi "abandonada à filosofia prostituída, à maneira de um Schelling e outros tipos desse género que, traficando com o sacerdócio do absoluto, mistificavam o público". A fadiga livrou-nos desses "monstros", mas até agora não deram lugar senão ao "insustentável" e, "no que se refere ao grande público, a retirada de um grande charlatão é sempre, como se sabe, uma oportunidade para um sucessor, embora mais medíocre, mas com habilidade bastante que lhe permita repetir as produções do outro, como rótulo diverso". Os próprios naturalistas não revelam "muito gosto em fazer uma excursão pelo reino das ideias universais", limitando-se, no domínio teórico, a "improvisações incoerentes". Nesse terreno há, pois, necessidade de um socorro urgente e, por felicidade, o sr. Dühring está presente.

Para poder apreciar com justeza as revelações que se seguem sobre o desenvolvimento do mundo no tempo e sua limitação no espaço, é mister citar aqui algumas passagens da "esquemática do mundo".

O sr. Dühring, também de acordo neste ponto com Hegel (Enciclopédia, §93), atribui ao ser a infinidade – o que Hegel chama de má infinidade – e que assim a aprecia: "A mais clara forma de se representar sem contradição a infinidade é a sucessão ilimitada dos números na série numérica... Do mesmo modo que a cada número podemos acrescentar uma nova unidade sem jamais esgotar a possibilidade de continuar a numeração, a cada estado, do ser, qualquer que seja, acrescenta-se mais um e é na produção ilimitada desses estados que consiste a infinidade. Essa infinidade concebida com precisão, não tem, por conseguinte, senão uma forma fundamental e uma direcção única. Se bem que seja, com efeito, indiferente para o nosso pensamento traçar uma direcção oposta a essas sucessões de estados do ser, a infinidade que progride para trás não é, entretanto, mais do que uma representação precipitada e imatura. Seria preciso que ela tivesse sido, na realidade, percorrida em sentido inverso; e assim, teria em cada um dos seus estados uma série infinita de números. Mas, então, cometeríamos a inadmissível contradição de uma série infinita já percorrida e desse modo se revela como absurda a ideia de supor uma segunda direcção da infinidade".

O primeiro corolário que deriva dessas concepções da infinidade é que o encadeamento das causas e dos efeitos, no mundo, deve ter tido necessariamente um começo: "um número infinito de causas, que se houvessem previamente seguido umas após outras, é inconcebível, só pelo facto de supor como já percorrido o inumerável". Assim fica demonstrado a existência de uma causa final.

O segundo corolário é "a lei do número determinado; a acumulação do idêntico, de qualquer género real de elementos independentes, não é concebível senão formando um número determinado". Não só o número dos corpos existentes no universo deve ser, em qualquer momento, um número em si mesmo determinado, como também deve sê-lo o número total das partículas independentes de matéria existente no mundo, por menores que sejam. Esta última necessidade é a verdadeira razão que impede realizar qualquer síntese sem átomos. Qualquer divisão real tem sempre uma determinação finita e deve tê-la, se não quisermos ver surgir a contradição do inumerável percorrido. Pela mesma razão não só o número de voltas que a terra deu até agora em torno do sol deve necessariamente ser um número determinado, mesmo que desconhecido, como todos os processos periódicos da natureza devem também ter tido um começo e todas as suas diferenciações, todas as variedades da natureza, derivadas uma das outras, devem ter, como origem, um estado idêntico a si próprio. Pode este estado, sem contradição, ter existido por toda a eternidade; mas mesmo essa representação seria também inconcebível se o próprio tempo se compusesse de partes reais, e não por um fraccionamento ideal de possibilidades, classificadas, à vontade, pelo nosso entendimento.

Já com o conteúdo real e diferenciável do tempo não se dá o mesmo: à medida que o tempo é realmente ocupado por acontecimentos, diferenciavelmente específicos, esta função real do tempo e as formas de existência deste campo se enquadram, por serem mesmo distintas, como suscetíveis de serem contadas. Imaginemos um estado sem mudanças que, na sua perfeita identidade consigo próprio, não apresenta nenhuma diferença de efeitos; o conceito restrito de tempo torna-se, assim, a ideia mais geral do próprio ser. É impossível fazer uma ideia de acumulação de uma duração vazia.

O sr. Dühring, até aqui, mostra-se maravilhado com o significado dessas descobertas. Ele espera, de início, que "pelo menos não serão consideradas como verdade sem importância"; mas mais adiante diz o seguinte: "Lembremo-nos do método extremamente simples pelo qual nós demos aos conceitos do infinito e à sua crítica um alcance até aqui desconhecido... recordemo-nos dos elementos do tempo e do espaço, concebidos universalente, que se constituíram de maneira tão simples pelo presente método de precisá-los e de aprofundá-los".

Nós acertámos! "Nitidez" e "profundidade" reais! Mas, quem é que acertou? Em que época vive? Quem aprofundou e precisou?

"Tese. O mundo teve um começo no tempo e também no espaço é igualmente limitado. – Prova: admitamos, com efeito, que o mundo não tem começo no tempo, uma eternidade se teria escoado até chegar a um momento dado, fluindo, portanto, no mundo, uma série infinita de estados de coisas sucedidos uns aos outros. Mas a infinidade de uma série consiste precisamente em que ela nunca pode ser rematada por uma síntese sucessiva. Uma série infinita e desenvolvida é, pois, impossível e, consequentemente, um começo do mundo é uma condição necessária da sua existência, que é o que se tratava de demonstrar. Mas, quanto ao segundo ponto de vista, que novamente se admita o contrário da tese: o mundo seria um todo determinado e infinito de objectos que existem simultaneamente. Ora, podemos conceber a grandeza de um quantum, não estabelecida entre certos limites concretos por nós observados, somente pela síntese das partes; e a soma total dessa quantidade só pode ser concebida por meio da síntese acabada, ou pela adição repetida da unidade a si própria. Por consequência, para conceber, como um todo, o mundo que enche todos os espaços, deveria a síntese sucessiva das partes do mundo infinito ser considerada como acabada, isto é, seria mister, com a contagem de todos os objectos coexistentes, considerar como tendo escoado um tempo infinito. Disso resulta que não se poderia considerar um agregado infinito de objectos reais como um todo determinado, nem, conseguintemente, como objectos simultaneamente determinados. Portanto, um mundo não é infinito quanto à sua extensão no espaço, mas, pelo contrário, é encerrado sempre dentro dos seus limites, o que era o segundo ponto a demonstrar".

Essas proposições são literalmente copiadas de um livro bastante conhecido que apareceu, pela primeira vez, em 1781 e que se intitula: Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, e no qual todos podem lê-las na primeira parte, segunda secção, segundo livro, segundo capítulo, artigo segundo: Primeira Antinomia da Razão Pura. Portanto, ao sr. Dühring cabe unicamente a glória de ter baptizado uma ideia de Kant com o nome de "lei da quantidade determinada" e de ter descoberto a existência de um tempo onde ainda não existia tempo, mas ainda assim um mundo. Quanto ao resto, isto é, quanto aquilo que, na análise do sr. Dühring, tem algum sentido, ao subentender "nós", na expressão "Encontramos", quer referir-se a Immanuel Kant e a “actualidade” das descobertas do sr. Dühring tem apenas noventa e cinco anos de idade. É, na verdade, “extraordinariamente simples"! e estranho o "alcance até aqui inaudito" da nova ideia.

Mas acontece que Kant não considera, de modo algum, a tese acima, como provada por sua demonstração. Ao contrário, na página seguinte, sustenta e prova que o mundo não tem começo no tempo nem limite no espaço e justamente nisso é que reside a antinomia, a contradição irredutível, segundo a qual podemos provar tanto uma tese como a sua contrária. Talvez pessoas de menor alcance encontrassem motivos para reflexão no facto de "um Kant" achar nisso uma dificuldade insolúvel, nunca, porém, o nosso audacioso fabricante "de resultados e de teorias essencialmente originais": o que lhe pode servir, na antinomia de Kant, copia sem pestanejar, o resto põe de lado.

O problema resolve-se muito simplesmente. Eternidade no tempo, infinidade no espaço, essa coisa consiste, por si mesma, tomando as palavras no seu sentido literal, em não ter nenhum limite, nem pela frente nem por trás, nem acima nem abaixo, nem à direita nem à esquerda. Essa infinidade é diferente da de uma série infinita, porque esta começa sempre e necessariamente na unidade, num primeiro termo. Essa representação de série é inaplicável ao nosso objecto, como é imediatamente evidente quando a aplicamos ao espaço. A série infinita adaptada ao mundo espacial é uma linha tirada em direcção ao infinito, a partir de um ponto determinado, numa direcção determinada. Isso exprime, mesmo remotamente, a infinidade do espaço? Pelo contrário: bastam seis linhas tiradas a partir desse ponto único, em três direcções opostas, para circunscrever as direcções do espaço e teríamos assim seis dimensões. Kant o compreendeu tão bem que não foi senão indirectamente, por um rodeio, que ele transportou a sua série numérica para o mundo espacial. O sr. Dühring, pelo contrário, força-nos a admitir seis dimensões no espaço e, logo depois, esquecendo-se do que afirmou, não encontra palavras para exprimir a sua indignação contra o misticismo matemático de Gauss por não querer contentar-se com as três tradicionais dimensões do espaço.

Aplicada ao tempo, a linha ou a série de unidades, infinita nas duas direcções, tem um certo sentido como imagem. Mas, se nós representarmos o tempo como uma série formada a partir da unidade, ou como uma linha tirada a partir de um determinado ponto, estamos desde já a estabelecer que o tempo tem um começo: supomos precisamente o que era necessário provar. Damos à infinidade do tempo um carácter incompleto e unilateral, e, como sabemos, uma infinidade incompleta, unilateral, é uma contradição lógica, exactamente o contrário de uma "infinidade concebida sem contradição". Dessa contradição só podemos sair admitindo que a unidade da qual partimos para contar a série, o ponto a partir do qual traçamos a linha, é uma unidade tomada arbitrariamente na série, um ponto tomado arbitrariamente na linha, de tal modo que resulta indiferente saber onde o colocamos em relação à linha ou à série.

E a contradição que consiste em "medir uma série numérica infinita"? Estaremos aptos a examinar mais de perto essa contradição, quando o sr. Dühring realizar diante de nós o prodígio de contá-la até ao fim, depois de ter conseguido contar deaté zero. É claro que, não importa por onde comece a contar, deixará sempre atrás de si uma série infinita e com ela o problema que deve resolver. Que inverta somente a sua própria série infinita 1 + 2 + 3 + 4..., e experimente contar de novo, desde o fim infinito, até à unidade; será evidentemente a tentativa de um homem que não sabe nem do que se trata. Há mais ainda. Quando o sr. Dühring afirma que a série infinita do tempo escoado foi contada, afirma, implicitamente, que o tempo tem um começo; porque, de outro modo, não poderia mesmo começar a "contar". Introduz, portanto, subrepticiamente, como hipótese prévia, precisamente o que devia demonstrar. A ideia da série infinita contada, também chamada "lei universal da quantidade determinada" de Dühring, é, pois, uma contradictio in adjecto, e encerra em si não apenas uma contradição, mas uma contradição absurda.

É evidente que uma infinidade que tem um fim, mas não tem começo, não é mais nem menos infinita do que aquela que tem um começo, mas não tem fim. O menor senso dialéctico teria advertido ao sr. Dühring que começo e fim são conceitos necessariamente ligados, como Polo Norte e Polo Sul; se se abandona o fim, o começo se torna o fim – o único fim da série, e vice-versa. Toda esta quimera não existiria se não fosse hábito dos matemáticos operarem com séries infinitas. Como em matemática é preciso partir do determinado e finito, para chegar ao indeterminado e infinito, é preciso que todas as séries matemáticas, positivas ou negativas, comecem pela unidade, sem o que é impossível calcular com essas séries. Mas a necessidade mental do matemático está longe de ser uma lei que aja necessariamente sobre o mundo real.

De resto, o sr. Dühring não poderá jamais compreender, sem contradição, a infinidade real. A infinidade é, por si mesma, uma contradição prenhe de contradições. Já é contraditório que uma infinidade se componha de quantidades finitas e, no entanto, isso acontece na realidade. Admitir que o mundo material tem limites não conduz a menos contradições que admiti-lo ilimitado. Toda a tentativa para afastar essa contradição leva, conforme vimos, a novas e mais graves contradições. Precisamente porque é uma contradição, a infinidade é um processo infinito a desenvolver-se, sem fim no tempo nem fim no espaço. A supressão da contradição seria o fim da infinidade. Hegel já o havia visto muito bem e é por isso que trata os que se dedicam a fantasiar sobre essa contradição com o devido desprezo.

Continuemos. O tempo teve, pois, um começo. Que havia, então, antes do começo? O mundo num estado idêntico a si próprio e invariável. E como, nesse estado, não há mudanças que se sucedam umas às outras, o conceito mais específico do tempo se transforma na ideia do ser. Primeiramente, é-nos completamente indiferente saber quais os conceitos que se transformam na cabeça do sr. Dühring: não se trata do conceito do tempo, mas do tempo real, do qual o sr. Dühring não se desembaraçará tão facilmente. Em segundo lugar, que o conceito do tempo se transforme na ideia geral do ser, isso não nos fará dar um passo à frente, porque as formas essenciais de todo o ser são o espaço e o tempo e um ser fora do tempo é um absurdo tão grande quanto um ser fora do espaço. O "ser atemporalmente passado" de Hegel, e o "ser imemorial" de que falam os neo-schellinguianos, são concepções racionais, se as compararmos com esse ser concebido à margem do tempo. O sr. Dühring, aliás, vai com muita cautela por esse caminho; propriamente falando, é bem um tempo, mas um tempo tal que, no fundo, não se pode chamá-lo de tempo, pois o tempo não se compõe em si mesmo de partes reais e é somente a nossa inteligência que nele introduz divisões arbitrárias; só um tempo repleto realmente de factos diferenciáveis pode ser contado, não se podendo mesmo imaginar o que possa significar a enumeração de durações vazias. O que essa sucessão possa significar é-nos, agora, completamente indiferente: a questão é saber se o mundo, no estado aqui suposto, tem ou não uma duração no tempo. Sabemos há muito que não se obtém resultado medindo uma duração sem conteúdo do mesmo modo que nada se obtém operando com medidas sem desígnio e sem finalidade objectiva, no espaço vazio. E é precisamente no que esse processo tem de inútil que Hegel chama a essa infinidade de má infinidade. Segundo o sr. Dühring, o tempo não existe senão pela mudança e não é a mudança que existe no tempo e pelo tempo. Justamente porque é tão diverso e independente da mudança, é que se pode medi-lo pela mudança, porquanto para medir é necessário sempre um elemento distinto da coisa que se mede. O tempo, em que se não produzem mudanças cognoscíveis está muito longe de ser tempo nenhum, ele é antes o tempo puro, isento de qualquer influência estranha, isto é, o verdadeiro tempo, o tempo enquanto tal. Realmente, quando queremos conceber a ideia do tempo em toda a sua pureza, fora de todas as misturas estranhas e heterogéneas, somos obrigados a afastar como estranhos todos os acontecimentos diversos que se produzem no tempo, simultânea e sucessivamente, como alheios a ele, apresentando-nos, assim, um tempo em que nada se passa. Por aí não fizemos, pois, diluir a ideia do tempo na ideia geral do ser, mas apenas chegámos à ideia do tempo puro.

Mas todas essas contradições e esses absurdos não passam de brincadeiras de criança ao lado da confusão caótica em que se embrenha o sr. Dühring, com o seu "estado primitivo do mundo idêntico a si próprio". Se o mundo já esteve num estado em que não se produzia absolutamente nenhuma mudança, como pode passar desse estado à mudança? O que é desprovido absolutamente de mobilidade, e, mais ainda, esteve nesse estado toda a eternidade, não pode sair por si próprio desse estado para passar ao estado de movimento e mudança. É preciso, portanto, que, de fora – do mundo exterior – tenha vindo um primeiro impulso que o pusesse em movimento. E o "primeiro impulso", como se sabe, é apenas uma expressão para denominar Deus. Esse Deus e esse Além, que o sr. Dühring pretendia haver eliminado tão galhardamente da sua "esquemática do universo", ele próprio os reintroduz, reforçados e aprofundados, aqui na filosofia da natureza.

Prossigamos. O sr. Dühring diz: "Quando um elemento imóvel do ser adquire grandeza, esta grandeza permanece invariável em sua determinabilidade. Isto é verdade... para a matéria e para a energia mecânica". A primeira proposição fornece-nos – diga-se de passagem – um exemplo precioso da grandiloquência axiomático-tautológica do sr. Dühring: quando uma grandeza não muda, continua idêntica. Assim, a quantidade de energia mecânica existente no mundo, permanece eternamente a mesma. Nada diremos sobre isso senão que, na medida em que é exacto, já o sabia e proclamava, há cerca de três séculos, a filosofia de Descartes e, nas ciências da natureza, é conhecida há mais de vinte anos, na teoria da conservação da energia. Não insistimos sobre o facto de que o sr. Dühring, restringindo-se à energia mecânica, não melhora esta tese de maneira alguma. Mas onde estava, pois, a energia mecânica, no tempo do estado imutável? A esta pergunta o sr. Dühring recusa-se obstinadamente a responder.

Onde, portanto, sr. Dühring, vivia essa energia mecânica, eternamente igual a si própria, e o que fazia ela? Resposta do sr. Dühring: "O estado primitivo do universo, ou, mais precisamente, de um ser da matéria invariável, não compreendendo nenhuma acumulação de mudanças no tempo, é uma questão que não pode ser posta de lado senão por um espírito que vê, na automutilação da sua força procriadora o cúmulo da sabedoria. Assim, ou aceitais de olhos fechados o meu estado primitivo invariável ou eu, o viril e potente Eugen Dühring, proclamo-vos eunucos intelectuais. Eis uma coisa que pode, sem dúvida, amedrontar mais que uma pessoa. Nós, porém, que já vimos alguns exemplos da força procriadora do sr. Dühring, podemos dar-nos ao luxo de passar por alto, sem réplica, o elegante insulto e repisar a pergunta: mas sr. Dühring, por favor, como é que fica, neste caso, a questão da energia mecânica?

O sr. Dühring imediatamente se embaraça. O facto, balbucia ele, é que "a identidade absoluta desse estado-limite primitivo não fornece, por si própria, um princípio de transição. Lembremo-nos, entretanto, que, no fundo, sucede a mesma coisa em cada novo elo, que, por menor que seja, venha a incorporar a cadeia da existência que tão bem conhecemos. Portanto, quem quiser criar dificuldades no presente caso, que é fundamental, que tenha o cuidado de não as deixar escapar em circunstâncias menos importantes. Além do que é possível interpolar estados intermediários em gradação progressiva e, desse modo, abrir o caminho da continuidade para retroceder até fazer desaparecer o jogo das variações recíprocas. Como conceito puro, na verdade, essa continuidade não nos permite ultrapassar a ideia principal, mas é para nós a forma fundamental de tudo quanto se rege por leis e de todas as transacções conhecidas, de maneira que temos o direito de utilizá-las como intermediárias entre o equilíbrio inicial e a ruptura desse equilíbrio. Mas, se concebêssemos o equilíbrio por assim dizer imóvel (!), fundamentando-nos nas ideias admitidas sem grande alarde (!) pela mecânica actual, seria inteiramente impossível indicar como a matéria poderia chegar à variação".

Além da mecânica das massas, haveria ainda, segundo ele, uma transformação de movimento de massas em movimento das mais pequenas partículas. Porém, quanto a saber-se como se produz essa transformação, "não temos ainda à nossa disposição um princípio geral que a explique e não devemos pois admirarmo-nos se esses fenómenos se perdem um pouco na obscuridade".

Eis tudo o que o sr. Dühring tem a dizer. Efectivamente, deveríamos ver não só na auto-mutilação da nossa energia genital, mas também na fé cega e incondicional, o cúmulo da sabedoria, para nos contentarmos com esse fogo fátuo e essas fórmulas verdadeiramente lamentáveis. Por si mesma – reconhece o sr. Dühring – a identidade absoluta não pode chegar à mudança. Por impulso próprio, o equilíbrio absoluto não tem possibilidade de passar ao movimento. O que resta, então? Três afirmações falsas e insustentáveis.

Primeiramente, dizem-nos que é dificílimo mostrar a transição do primeiro para o segundo elo, na famosa cadeia da existência. O Senhor Dühring acha que os seus leitores são ainda lactentes. A demonstração, uma por uma, das transições e conexões, na cadeia da existência, é precisamente o que constitui a matéria das ciências da natureza e, se acontece que a demonstração não fica clara como deve, ninguém, nem mesmo o sr. Dühring, sonharia em explicar a produção de movimento a partir do nada, mas sempre e exclusivamente pela transmissão, transformação ou transplantação de um movimento precedente. Ora, aqui trata-se de explicar, segundo se convencionou, como se pode fazer sair o movimento da imobilidade, e portanto, do nada.

Em segundo lugar temos a "ponte da estabilidade". Este conceito, na verdade, não permite ao sr. Dühring superar a dificuldade, mas o direito de utilizar a estabilidade como intermediária entre a imobilidade e o movimento, sim. Infelizmente, a estabilidade da imobilidade consiste precisamente em não se mover. Como essa estabilidade pode produzir um movimento é um mistério cada vez maior! O sr. Dühring por mais que divida a sua transição do nada de movimento ao movimento universal, numa infinidade de pequenas partículas, atribuindo-lhes uma duração tão longa quanto quiser, não avançamos nem um décimo de milímetro no esclarecimento da questão. Do nada não pode sair seja o que for, sem que intervenha um acto criador, ainda que essa coisa seja tão pequena quanto um diferencial matemático. A ponte da estabilidade não é, portanto, nem sequer o que os escolásticos chamavam de"ponte dos burros"; é apenas uma ponte pela qual só sabe passar o sr. Dühring.

Em terceiro lugar, enquanto valer a mecânica actual e esta for, segundo o próprio sr. Dühring, um dos factores essenciais da formação intelectual, será inteiramente impossível indicar como se pode passar da imobilidade ao movimento. Mas a teoria mecânica do calor mostra-nos que o movimento de massas se transforma, em certas circunstâncias, em movimento molecular (embora, ainda aqui, o movimento nasça de outro movimento e nunca da imobilidade). Isso, talvez, insinua o sr. Dühring timidamente, podesse oferecer uma ponte entre o que é rigorosamente estático (o que está em equilíbrio) e o que é dinâmico (o que está em movimento). Todos esses fenómenos, porém, se perdem "um pouco no escuro" no qual, de facto, nos deixao sr. Dühring.

Eis que, chegados aqui, após tanta profundidade e exactidão, enterramo-nos, cada vez mais, em maiores absurdos para, enfim, aportar onde fatalmente aportaríamos: "no escuro". Isto, porém, não desanima ao sr. Dühring: logo na página seguinte ele tem o desplante de afirmar que "pode dar ao conceito de permanência em si própria, um conteúdo real, partindo directamente da observação da matéria e das forças mecânicas". E este homem chama aos outros "charlatães"!

Por felicidade, no meio de todo esse caminhar desesperadamente errante e incoerente “no escuro", temos um consolo realmente alentador: "A matemática dos habitantes de outros corpos celestes não pode repousar em axiomas diversos dos da nossa!".

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