Friederich Engels
Anti-Dühring
Prefácios
Introdução - Capítulo I – Generalidades
Introdução - Capítulo II – O que Promete o Sr. Dühring
Parte 1 - Filosofia - Capítulo III – Classificação. Apriorismo
Parte I – Filosofia
Capítulo IV – Esquemática do Mundo
"O ser universal é único. Bastando-se a si próprio, nada tolera ao seu lado ou acima de si. Associar-lhe um segundo ser seria fazer dele o que ele não é, ou seja, fazer dele uma parte ou um elemento de um todo mais amplo. Desde que desenvolvemos a nossa ideia unitária, por assim dizer, como um plano, nada do que deve entrar necessariamente nessa unidade ideal pode conservar em si a dualidade. Mas também nada pode escapar a essa unidade ideal. […] A essência de todo pensamento consiste na reunião dos elementos de consciência numa unidade. […] O pensamento é o centro da unidade da síntese que faz nascer o conceito indivisível do mundo e conhecer o universo, conforme o nome já indica, como uma coisa em que tudo se funde numa unidade."
É o que diz o sr. Dühring. Nessas afirmações, vemo-lo aplicar, pela primeira vez, o método matemático, segundo o qual, "qualquer problema se resolve de um modo axiomático com o auxílio de algumas formas fundamentais simples, como se se tratasse de […] princípios simples da matemática."
"O ser universal é único". Se uma tautologia é a simples repetição no predicado do que já se exprimiu no sujeito, e se isso é o que precisamos para construir um axioma, então aqui temos um e de primeira água. No sujeito, o sr. Dühring diz-nos que o ser, como universal, compreende tudo e no predicado afirma intrepidamente que nada, então, existe fora dele. Que colossal "ideia criadora de sistemas"!
Criadora, com efeito. Mais seis linhas, e o sr. Dühring, por meio do nosso pensamento unitário, transforma a unicidade do ser na sua unidade. E como o que caracterisa o pensamento é a aglutinação formadora da unidade, pelo simples facto de pensar em si próprio, o ser, o que existe, se concebe como uma unidade e o conceito do mundo se torna indivisível; daí se conclui que, sendo o que existe pensado e o conceito de mundo unitário, o mundo real é igualmente uma unidade indivisível. Em consequência "as transcendências não têm mais lugar, logo que o espírito aprendeu a discernir o que existe na sua universalidade homóloga".
Eis uma batalha do espírito comparada com a qual Austerlitz e Iena, Hradec Králové e Sedan desaparecem completamente. Em duas frases, numa só página, após termos mobilizado o primeiro axioma, conseguimos abolir, pulverizando-o, todo o mundo sobrenatural: Deus, os exércitos celestiais, o céu, o inferno e o purgatório, além da imortalidade da alma.
Como passamos da unicidade do ser à sua unidade? Simplesmente representando o ser a nós próprios. Desde o momento em que o envolvemos com o nosso pensamento unitário, o ser único torna-se no pensamento um ser unitário, uma unidade ideal, porque a essência de todo o pensamento consiste na aglutinação de elementos da consciência numa unidade.
Esta última proposição é simplesmente falsa. Em primeiro lugar, porque o pensamento consiste tanto em decompor analiticamente os objectos representados na consciência nos seus elementos, como em unir os elementos conexos numa unidade. Sem análise, não há síntese. Em segundo lugar, a não enveredar por falsos caminhos, os elementos de consciência só podem ser reduzidos à unidade pelo pensamento, quando essa unidade já existia previamente nesses mesmos elementos ou nos objectos. Não é bastante que eu resolva classificar uma escova de sapatos na classe dos “mamíferos”, para que a mesma, mesmo remotamente, passe a desenvolver glândulas mamárias. A unidade do ser, ou seja, aquilo que justifica a redução à unidade no pensamento, é, pois, justamente o que é necessário demonstrar; e, quando o sr. Dühring nos assegura que concebe o ser como unidade e não como duplicidade, nada mais faz senão expor a sua opinião pessoal que a ninguém convence.
O seu processo mental, exposto rigorosamente, é o seguinte: "Começo pelo que existe. Logo concebo a existência real em pensamento. A ideia do que existe constitui uma unidade. Mas o pensamento e o que existe têm que estar de acordo, correspondem-se, "coincidem". Portanto, o que existe é também, na realidade, unitário. Donde se conclui que o sobrenatural não existe". Se o sr. Dühring nos tivesse falado assim, sem subterfúgios, ao invés de nos apresentar os dogmas anteriormente citados, sua ideologia se tornaria compreensível. Querer demonstrar a realidade de qualquer resultado mental por meio da identidade entre o que se pensa e o que existe é, de facto, uma das fantasias febris mais loucas de... um certo Hegel.
Mesmo admitindo que toda a sua argumentação fosse exacta, o sr. Dühring não teria ganho uma só polegada de terreno aos espiritualistas, que lhe responderiam com muita precisão: também para nós o mundo constitui uma unidade; o seu desdobramento em mundo real e mundo sobrenatural somente existe para o nosso ponto de vista especificamente terreno, de homens pecadores; mas, em si e para si, isto é, em Deus, tudo quanto existe constitui uma unidade. Acompanhariam, assim, o sr. Dühring a percorrer seus amados "planetas" e lhe apontariam um ou vários em que, por não ter havido pecado original, não conheceriam a distinção entre mundo real e sobrenatural e onde, portanto, a unidade do mundo é exigência da fé.
O mais cómico nessa questão é que o sr. Dühring, para provar a não existência de Deus por meio do conceito do ser, lança mão da prova ontológica da existência de Deus. Diz essa prova: quando pensamos em Deus, nós o concebemos como a soma de todas as perfeições. Ora, a soma de todas as perfeições implica, antes de tudo, a existência, pois um ser inexistente é necessariamente imperfeito. Devemos, pois, incluir a existência no número das perfeições de Deus. Logo Deus deve existir. É assim, tal qual, que o sr. Dühring raciocina: quando ideamos o ser, ideamo-lo como conceito uno. O que se compreende num só conceito é uno. O que existe não corresponderia, portanto, ao seu conceito se não constituísse uma unidade. Logo, ele deve ser unitário. Deus, portanto, não existe, etc.
Quando falamos do ser, e somente do ser, a unidade não pode consistir senão em que todos os objectos de que se trata – são, existem. Na unidade desse ser e em nenhuma outra é que se harmonizam, e a expressão aplicada a todos em comum, isto é, – que todos são – não só não lhes pode conferir quaisquer outras qualidades, comuns ou não comuns, como exclui provisoriamente da nossa consideração todas as outras qualidades. Mal nos afastamos, um só milímetro que seja, desse simples facto fundamental de que o que todos os objectos têm em comum é a existência, começam a surgir aos nossos olhos suas diferenças. O facto de essas diferenças consistirem em que uns são brancos e outros pretos, uns animados e outros inanimados, uns, se assim se quiser, terrenos e outros supraterrenos, é coisa que não pode ser resolvida unicamente pela atribuição, igualitária a todos, simplesmente da sua existência.
A unidade do mundo não consiste precisamente em existir, se bem que existir seja uma condição da sua unidade já que, é preciso, evidentemente, que ele seja antes de poder ser uno. É necessário levar-se em conta que a existência começa a ser um problema a partir dos limites do nosso raio de visão. A unidade real do mundo consiste na sua materialidade e esta prova-se, não com frases de prestidigitador, mas por uma longa e laboriosa evolução da filosofia e das ciências da natureza.
Mas prossigamos na leitura do texto. O ser de que nos fala o sr. Dühring "não é aquele ser puro que, idêntico a si próprio, igual a si mesmo, é desprovido de qualquer propriedade concreta que não representa efectivamente senão uma contra-imagem do nada ou da ausência da ideia". Logo veremos que o mundo do sr. Dühring começa, sem dúvida alguma, por um ser despido de toda diferenciação interna, de todo movimento e de toda mudança, um mundo que não é, no fundo, mais que um reflexo do nada e não é, pois, senão um nada real. É somente a partir desse ser nada que se desenvolve o estado actual do mundo, diferenciado, mutável, apresentando já uma evolução, um processo de formação; e é somente depois de termos compreendido isso que chegamos a encontrar, de novo, sob essa transformação perpétua,"o conceito do ser universal idêntico a si mesmo". Assim, pois, temos agora o conceito de ser num grau superior, em que compreende em si tanto a permanência quanto a mudança, tanto o ser como o devir. Uma vez aí chegados, descobrimos que "o género e a espécie, o geral e o particular são caracteres distintivos mais simples, sem os quais a constituição das coisas não pode ser compreendida". Tratam-se, porém, de caracteres distintivos da qualidade. Depois de nos termos ocupado disso, continuemos: "Aos géneros opõe-se o conceito de grandeza como uma homogeneidade na qual já não se verificam diferenças qualitativas de espécie. Dito de outro modo: passamos da qualidade à quantidade, sendo esta sempre mensurável.”
Comparemos agora essa "nítida classificação dos esquemas gerais" e esse "ponto de vista verdadeiramente crítico", com as ingenuidades, grosserias e fantasias febris de Hegel. Verificamos que a Lógica, de Hegel, tem o ser, como ponto de partida, exactamente como o sr. Dühring; que o ser se manifesta como nulidade, tal como o do sr. Dühring; que dessa nulidade do ser se passa ao devir, cujo resultado é a existência, isto é, uma forma mais elevada, mais rica, do ser, tal como no sr. Dühring. A existência conduz à qualidade e esta à quantidade – ainda da mesma forma que no sr. Dühring. E para que nenhuma peça essencial falte ao sistema, o sr. Dühring conta-nos o seguinte, noutro trecho: "Do reino da insensibilidade não se passa ao da sensação, apesar de toda a continuidade quantitativa, a não ser por um salto qualitativo do qual... podemos dizer se diferencia infinitamente pela simples variação de graus de uma só e mesma propriedade". É exactamente a linha nodal de desproporções hegelianas em que uma adição ou uma subtração puramente quantitativa produz, em certos pontos nodais, um salto qualitativo. É o caso, por exemplo, da água aquecida ou esfriada, para a qual o ponto de ebulição e o ponto de congelação são os nós ou elos em que se realiza, a uma pressão normal, o salto para um novo estado de agregação, nos quais, consequentemente, a quantidade se transforma em qualidade.
A nossa investigação tentou igualmente ir até à raiz das coisas e, ao atingir a raiz dos profundos esquemas fundamentais do sr. Dühring, encontrou... as "fantasias febris" de um Hegel, as categorias da Lógica hegeliana (primeira parte, teoria do ser) da qual se originam esses sonhos seguindo as "deduções" rigorosamente conformes à velha "variação de graus" hegeliana, e isso sem sequer procurar esconder o plágio!
E, não contente com ter tomado de empréstimo o seu esquematismo daquele, dentre os seus predecessores, que ele mais calunia, o sr. Dühring, depois de ter ele próprio dado o exemplo referido acima, de uma passagem brusca da quantidade em qualidade, tem a ousadia de falar de Marx, nestes termos:"Como é cómico vê-lo (a Marx) referir-se a essa Ideia confusa e nebulosa de Hegel, de que a quantidade se transforma em qualidade!
Ideia confusa e nebulosa! Quem é que"se transforma" e quem é cómico, sr. Dühring?
Todas essas lindas ideias não são, portanto, "estabelecidas de maneira axiomática" segundo uma ordem: são, pelo contrário, tranquilamente importadas de fora, da Lógica de Hegel. E tanto é assim que, em todo esse capítulo, a única coisa que tem a aparência de uma conexão lógica interna é a que foi emprestada de Hegel, e tudo, finalmente, resulta em inúteis fantasias sobre o espaço e o tempo, a imobilidade e a mudança.
Do ser, Hegel passa à substância, à dialéctica. Aí, trata das determinações reflexas dos seus antagonismos e contradições internas (por exemplo, negativo e positivo), depois chega à causalidade ou à relação de causa e efeito, finalizando com o estudo da necessidade. Outra coisa não faz o sr. Dühring. Onde Hegel escreve teoria da substância, o sr. Dühring traduz por propriedades lógicas do ser. Mas estas consistem, antes de tudo, em "antagonismos de forças", em antagonismos. Mas a contradição é negada firmemente pelo sr. Dühring. Voltaremos mais tarde a este assunto. Depois, ele passa à causalidade e desta à necessidade. Quando, pois, o sr. Dühring diz de si próprio: "nós, que não filosofamos fora da gaiola", ele concerteza quer dizer que filosofa dentro da gaiola, a do esquematismo das categorias hegeliano.
