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DEBATES

As Conferências de Lisboa
Publicado em 09.12.2014

As Conferências de Lisboa são um fórum internacional bienal promovido conjuntamente por oito instituições portuguesas sediadas em Lisboa – Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Portugal-África, Câmara Municipal de Lisboa, Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Instituto Marquês de Valle Flôr, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, SOFID–Sociedade Financeira de Desenvolvimento e UCCLA–União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa - e destinado a debater o tema do Desenvolvimento.

Nos dias de hoje, e ao contrário do que sucedia nos anos das décadas de sessenta e setenta do século passado, em que o orbe se apresentava dividido política e economicamente em três mundos, o desenvolvimento deixou de versar apenas sobre a transformação dos países economicamente atrasados, para passar a ocupar-se dos problemas do crescimento económico, da sua sustentabilidade e da distribuição de riqueza à escala global, envolvendo todos os países e continentes, qualquer que seja o respectivo grau ou estádio de crescimento.

As Conferências de Lisboa, se vierem a ser organizadas em espírito de total abertura e plena liberdade de pensamento, poderão constituir um evento científico e cultural da maior importância, susceptível de colocar Lisboa no mais elevado patamar da pesquisa e do debate das ideias económicas modernas.

Ora, a Primeira Conferência de Lisboa dedicada ao desenvolvimento realizou-se quarta e quinta-feira passadas, dias 3 e 4 de Dezembro, no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, sob a direcção do Dr. Luís Amado, ex-ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros do último governo de Sócrates e presidente da Comissão de Organização das Conferências de Lisboa, e foi, para todos os efeitos, o exemplo acabado daquilo que não devem ser mais as Conferências de Lisboa, como tive oportunidade de comentar tanto ao Dr. Luís Amado como ao presidente da Gulbenkian, Dr. Artur Santos Silva.

Se o que se pretende é fazer das Conferências de Lisboa um fórum de categoria internacional sobre desenvolvimento, então o governo português, de mais a mais tratando-se de um governo de vende-pátrias como o é o governo de traição nacional Coelho/Portas, tem de estar arredado deste evento, porque nenhum dos seus membros tem conhecimentos científicos à altura de participar no aludido evento. Mas a verdade é que o governo de Portugal, como essa choldra gosta de apelidar-se, enviou para a Primeira Conferência de Lisboa sobre o Desenvolvimento analfabetos do tipo de Luís Campos Ferreira, secretário de estado dos negócios estrangeiros e da cooperação, de Manuel Rodrigues, secretário de estado das finanças e de Pedro Pessoa e Costa, administrador da AICEP, que ocuparam um painel de duas horas dedicado à mesa-redonda sobre o tema As Empresas Portuguesas e o Financiamento da Cooperação, onde todos meteram água de bombordo e de estibordo, para espanto de Salimo Abdula, presidente da confederação empresarial da CPLP, moderador do debate.

Os nossos secretários de estado estão ainda naquela etapa dos conhecimentos económicos em que o desenvolvimento era visto como igual a investimento, e não havia meio de compreenderem que um país pode morrer afogado em investimento, sem nunca alcançar o desenvolvimento, como em parte aconteceu até a Portugal, com a avalanche dos subsídios europeus a fundo perdido, mas só aplicáveis onde o capitalismo anglo-franco-germânico autorizasse…

O segundo erro da Primeira Conferência de Lisboa sobre o Desenvolvimento está no inusitado papel que a organização concedeu ao controlo ideológico da conferência pelos funcionários da União Europeia.

Ora, precisamente esses funcionários deveriam estar proibidos de debater em público a problemática do desenvolvimento, à uma, porque, no seu conjunto, a União Europeia, dispondo embora de um terço do mercado mundial, tem um crescimento que mal atingirá 1% no corrente ano, e acolhe no seu seio o segundo maior conjunto de pobres do mundo. E haverá pouca gente que entenda tão bem a ignorância europeia em matéria de desenvolvimento como a entende o martirizado povo português.

Pois imaginem os meus dilectos leitores o que será ouvir durante cerca de uma hora um tal de Barroso a falar do nosso desenvolvimento. Mas a organização da Primeira Conferência de Lisboa não se ficou pelo frete concedido à pré-campanha presidencial envergonhada do Barroso. Foi ainda buscar mais dois pançudos tecnocratas, um dos quais ajudante do Barroso, para repetir os mesmos tropismos do mestre.

No primeiro dia da Primeira Conferência de Lisboa, estiveram todavia à altura dos acontecimentos e do prestígio futuro da bienal de Lisboa do desenvolvimento Jorge Sampaio – sim, o velho Jorge! – com a defesa da costela humanista do Desenvolvimento, Artur Santos Silva, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, único orador que compreendeu o significado internacional do evento, estes na Sessão de Abertura, e Alfredo Valladão, professor da Paris School of International Affairs e Chris Alden, Professor da London School of Economics, de Londres, que, no painel da tarde, tentaram, todavia com pouco êxito numa sala já cansada, rebocar o tema do desenvolvimento para a lógica da actual acumulação primitiva do capital a nível global.

No segundo dia, valeu a pena escutar, no primeiro painel, Corsino Tolentino, membro da Academia de Ciências e Humanidades de Cabo Verde, e Vuk Jeremic, presidente do Centro de Relações Internacionais e do Desenvolvimento Sustentável, de Belgrado, na Sérvia, intelectuais de dois países muito diferentes, mas que vêem a possibilidade do Desenvolvimento como uma luta dos seus povos contra a exploração global.

No terceiro painel, destacaram-se duas mulheres: Alice Sindzingre, investigadora do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRC), que nos falou com inteligência das contradições entre os conceitos de cooperação e de financiamento do desenvolvimento, e a chinesa Wang Yihuan, directora executiva do Centro de Investigação sobre o Desenvolvimento Internacional de Pequim, pequenina e nervosíssima, que parecia iria morrer em combate, e que deu a uns quantos teóricos do capitalismo global presentes na Avenida de Berna, em Lisboa, uma lição de como é que ela, em Pequim, vence esses teóricos, em África.

A Primeira Conferência de Lisboa, encerrou com um discurso de António Costa, na qualidade de presidente da cidade anfitriã da Conferência. Ouvi dizer que Paulo Portas falou a seguir a António Costa, mas nessa altura este vosso fiel escriturário já lhe tinha virado as costas e abandonado a Sala.

Estamos esperançados que Luís Amado saiba, nestes dois anos que nos separam da Segunda Conferência de Lisboa sobre o Desenvolvimento, corrigir os erros cometidos nesta Primeira Conferência, por forma a que sejam chamados ao debate os homens e mulheres de esquerda, designadamente marxistas, que não tiveram voz nesta Primeira Conferência.


A.M.




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