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Manifesto do Partido Comunista 

Notas de Estudo

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Qual foi então a contribuição do movimento operário francês para a elaboração das grandes linhas do Manifesto?

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A primeira grande acção política da classe operária francesa ocorreu com a revolução de Julho de 1830, em Paris, e teve por objectivo o derrubamento do regime despótico do rei Carlos X, da dinastia Borbom, e a sua substituição pelo regime constitucional liberal burguês do rei Luís Filipe, da dinastia de Orleães.

Mas tal como veio a suceder mais tarde com o movimento operário inglês em 1832, também a grande burguesia financeira francesa aproveitou a revolução de Julho para se alcandorar ao poder às costas do movimento revolucionário dos operários franceses em Julho de 1830, afastando-os, depois, da fruição dos direitos eleitorais e da reforma parlamentar por que lutaram. Toda esta experiência contribuiu para a definição dos princípios estratégicos essenciais do Manifesto, nomeadamente o princípio de que a libertação do proletariado é obra do próprio proletariado e não dos seus aliados de circunstância.

A partir da experiência da revolução de Julho de 1830, o movimento operário francês assume definitivamente o carácter político de uma força republicana e jacobina. De qualquer modo, a revolução de Julho acendeu a chama da revolta liberal um pouco por toda a Europa: da Bélgica à Polónia, da Itália à Alemanha e até a Portugal, então já em plena guerra civil entre liberais e absolutistas.

Todavia, o primeiro grande levantamento exclusivamente operário em França deve-se à revolta dos canudos, os tecelões da seda nas manufacturas de Lião, a maior cidade industrial francesa naquela época. O termo canudocanut, em francês – advém da forma da lançadeira então usada pelo operário tecelão.

Chegaram a estar concentrados nas manufacturas da seda na cidade de Lião cerca de 80 000 operários. Na sua primeira revolta – a de 1831 – os tecelões tomaram os quarteis e a câmara municipal durante oito dias, e expulsaram da cidade as autoridades, a guarda nacional e o exército, numa luta que custou às forças da ordem 100 mortos e 263 feridos e aos revoltosos 69 mortes e 140 feridos.

O rei democrata Luís Filipe enviou para Lião um corpo de exército de 20 000 homens, comandado por Soult, o velho general napoleónico que invadiu Portugal em 1809 pela fronteira do norte e ocupou o Porto (a 2ª invasão francesa).

Soult negociou um acordo com os operários revoltados, acordo que não foi respeitado pelo governo de Paris, dando assim origem à segunda revolta dos canudos, a de 1834. Houve ainda uma terceira revolta, esta em 1848, já depois da publicação do Manifesto, que teve como consequência a dispersão do proletariado da seda pelos campos fora da cidade.

Foi na revolta dos canudos, em 1831, que apareceram pela primeira vez as bandeiras negras, como símbolos da revolta proletária, mais tarde adoptadas pelos anarquistas, e a palavra de ordem dos proletários da seda, que ainda hoje a proclamam: Viver Trabalhando ou Morrer Lutando!

Marx estudou profundamente o movimento revolucionário dos tecelões de Lião, assim como dos de Manchester, na Inglaterra, e dos da Silésia, na Alemanha, experiências que lhe permitiram aprofundar e sistematizar as suas concepções revolucionárias.

As revoltas dos tecelões de Lião nos anos de 1831 e 1834 foram os primeiros levantamentos autónomos dos operários contra a burguesia e deram assim início ao moderno movimento revolucionário do proletariado.

Note-se que o primeiro texto em que Marx se proclama comunistaOs Manuscritos Económico-Filosóficos, redigidos em 1844 – surge no seguimento das revoltas dos tecelões de Lião (1831 e 1834) e da Silésia (1844).

Antes de 1844, não havia hipótese de Marx e Engels terem produzido o Manifesto do Partido Comunista, o qual, como já sabemos, só foi escrito entre Novembro de 1846 e Fevereiro de 1847.

      19.02.2016

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