INTERNACIONAL

Estava tudo lá, in loco, em Paris e na França.

Claro, Hollande sabe isso tudo, mas oculta-o. A prova de que sabe tudo o que eu aqui coloquei à vossa reflexão, é que, em vez dos 12 dias da lei para prazo normal do estado de emergência, Hollande já decretou três meses. Três meses de estado de sítio em França. E um contingente de 3 000 homens do exército de terra chamado a ocupar Paris imediatamente.

Caras e caros leitores: em França, a guerra civil já começou. Aguardemos os próximos acontecimentos. E não façam batota: não acusem o Estado Islâmico pelo facto de o espectro da guerra civil rondar, cada dia mais sinistro, a França.

Duas decisões tomou Hollande que só irão agravar a situação interna explosiva da França: o estado de emergência alargado – noventa dias –, e os bombardeamentos de pura vingança à cidade de Racca, capital do Estado Islâmico na Síria.

O estado de emergência exorbitantemente extenso vai traduzir-se numa ditadura racista de perseguição a todo o que é muçulmano ou islâmico, significando uma verdadeira mas encapotada declaração de guerra a 10% da população, os tais oito milhões de cidadãos franceses de cultura islâmica, vivendo em condições de habitação e de trabalho suburbanas e sub-humanas, enquanto que para os outros setenta milhões significará o estado de emergência uma permanente violação dos direitos civis e políticos, tornando o regime político francês actual numa sociedade anti-democrática e fascista.

Numa ocasião em que a economia francesa está em grave recessão, o desemprego aumentou e as medidas de austeridade impostas pelo colapso do euro são a linha geral do governo de Manuel Valls, a ditadura, agravada por noventa dias de estado de emergência, não augura nada de bom para a unidade e coesão da sociedade francesa.

Por outro lado, a política vingativa dos bombardeamentos indiscriminados sobre a população do Estado Islâmico ontem iniciada isolará cada vez mais a França do mundo árabe e vai desmascarar definitivamente a hipocrisia da política de Hollande, para o qual é mau tudo o que árabes e muçulmanos façam aos franceses, mas é bom tudo o que de igual façam os franceses aos árabes e muçulmanos. Dois pesos e duas medidas, tal é a moral do imperialismo, mesmo que se trate do social-imperialismo gaulês.

Mais inteligentes do que Hollande e o seu governo foram Zapatero e o governo espanhol, nos atentados perpetrados na estação de Atocha, em Madrid, no dia 11 de Março de 2004: Zapatero compreendeu que os interesses profundos da Espanha não conflituavam verdadeiramente com os interesses substanciais de árabes e islamitas; e, vai daí, não precisou de esgrimir vinganças; limitou-se a retirar as suas tropas do Iraque e do Afeganistão, pois aí elas defendiam interesses do imperialismo ianque, mas não os da pátria espanhola.

Zapatero soube resolver o problema que o terrorismo da Alcaeda suscitou à Espanha, mas François Hollande não só não resolveu como agravou, com os vingativos bombardeamentos agora encetados, o problema posto pelo recente ataque a Paris.

Dediquemos finalmente algumas linhas à análise da pacotilha moralista com que Hollande, o imperialismo, a reacção mundial e a comunicação social contra-revolucionária pintam a operação militar da guerra civil começada sexta-feira em França.

Para o imperialismo e para Hollande, o ataque a Paris foi um ataque cobarde: “um ataque de guerra praticado de forma cobarde”, nas exactas palavras do presidente socialista francês, pronunciadas na televisão do Estado, urbi et orbi. Mas onde reina afinal a cobardia? – numa secção de oito jovens que, de cara destapada, circulam no terreno próprio das maiores forças armadas e policiais da Europa continental e, imolando a sua vida, alcançam os seus objectivos de combate, ou numa aviação de cobardes mercenários que despejam toneladas e toneladas de bombas e de mísseis sobre mulheres, homens, crianças e velhos, escolas e hospitais, sem quaisquer condições de defesa ou de protecção, como o fez e faz a aviação e a marinha francesas na Líbia, no Mali, na Nigéria, no Chade, na Síria, no Iraque e no Afeganistão?

Hollande, Bergoglio, David Cameron, Eanes, Barack Obama choram baba e ranho em lágrimas de crocodilo pelos inocentes que perderam a vida nestas operações, reportando-se às vítimas francesas de um grupo de jiadistas também franceses.

Mas em França, nenhum adulto, homem ou mulher, tem o direito de se proclamar inocente perante actos da natureza daqueles que eclodiram ontem na cidade de Paris.

Politicamente inconscientes, concedo; mas inocentes, não! Todo o adulto francês – – mas também português, americano, afegão, russo, etc. – tem obrigação de conhecer o que andam a fazer por aí o seu Estado, o seu Governo, as suas Forças Armadas, e tem o dever de tomar posição política a favor ou contra o que eles fazem. Se amanhã morrerem no Bataclan, onde nunca sonharam que a guerra pudesse aparecer no palco de repente, não morrem no estado de inocência, morrem no estado político de culpado, porque não se opuseram ou não souberam opor-se, na devida ocasião e em devido tempo, à criminosa política do seu governo imperialista moribundo, aceitando ou reconhecendo-a como sua, na hipócrita convicção de que a guerra movida pelo seu país é sempre lá longe, muito longe, onde só morrem desgraçados oprimidos e explorados, e não os bem vestidos e bem falantes frequentadores do Bataclan.

Azar azar – isso sim, triste mesmo – é quando num estádio de futebol morre um operário ou um trabalhador, que sempre se hajam oposto à política criminosa de Hollande e dos monopólios franceses e que não frequentariam nunca o Bataclan.

Felizmente não rebentaram bombas no Estádio de França. Mas esta circunstância deve ser aproveitada para lembrar, ao fechar destas reflexões, que a violência da classe operária, necessária para derrubar a burguesia imperialista no mundo inteiro e em cada país em concreto, é uma violência revolucionária de classe, que todavia não usa esse tipo de metodologias usadas na sexta-feira em Paris.

A violência do proletariado e dos comunistas é uma violência de classe, que também nasceu em Paris, justamente no período de 72 dias contados entre o dia 18 de Março e o dia 28 de Maio de 1871, violência ensinada à classe operária de todos os países de todos os tempos pela Comuna de Paris.

16.11.2015

Arnaldo Matos




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