Almada
Uma Falta Fundamental na Responsabilidade Política
Milhares de habitantes de Almada passam, há dias, por um acesso irregular a um bem essencial. Famílias inteiras viram a sua vida desorganizada. Trabalhadores chegaram a casa sem poder tomar banho depois de um dia de trabalho. Pequenos comerciantes sofreram prejuízos. Idosos e pessoas doentes ficaram numa situação de especial vulnerabilidade.
Foi esta a realidade vivida em várias localidades do concelho durante o final de Junho e o mês de Julho, até à actualidade.
Perante a indignação popular e as manifestações desencadeadas, a Câmara Municipal de Almada e os SMAS justificaram a situação com o aumento excepcional do consumo de água provocado pelas elevadas temperaturas e pelo crescimento sazonal da população, sobretudo na Costa da Caparica. Foram também apontadas ligações ilegais à rede e anunciados cortes programados durante a noite, bem como a entrada em funcionamento de um novo furo para reforçar o abastecimento. Estas foram as explicações oficiais.
Mas a questão decisiva permanece.
Como é possível que um concelho com mais de 170 mil habitantes veja o seu sistema de abastecimento entrar em ruptura por causa de uma vaga de calor e do aumento da população no Verão? Não se trata de um fenómeno inesperado. Todos os anos há temperaturas elevadas. Todos os anos a Costa da Caparica recebe dezenas de milhares de visitantes. O problema não caiu do céu.
Quando um serviço público funciona permanentemente no limite da sua capacidade, basta um aumento da procura para que as suas fragilidades fiquem expostas. É precisamente nestes momentos que se percebe o preço de anos de investimento insuficiente, de planeamento negligente e da ausência de uma estratégia capaz de antecipar necessidades conhecidas.
A água não é um luxo. Não é uma mercadoria. É um direito fundamental.
É por isso que os trabalhadores e as populações têm o direito de exigir respostas. Não apenas explicações para o que aconteceu, mas um compromisso concreto de reforço das infra-estruturas, de modernização da rede, de redução das perdas de água e de valorização dos trabalhadores que garantem diariamente um serviço essencial.
As alterações climáticas significam períodos de seca mais prolongados e ondas de calor mais frequentes. Esta realidade exige investimento público, capacidade de planeamento e serviços públicos fortes. Quem governa não pode continuar a agir apenas quando a crise já está instalada.
A população de Almada merece mais do que desculpas. Merece um abastecimento de água seguro, contínuo e preparado para responder às necessidades do presente e do futuro.
Porque quando falta a água, não falha apenas uma torneira. Falha uma responsabilidade fundamental do poder público.
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