PAÍS

Universidade de Coimbra

Nota de Repúdio pelo encerramento da Cantina Vermelhas

Em Maio passado, foi comunicada, na assembleia-geral da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, a intenção detida pela Universidade de Coimbra de encerrar a Cantina Vermelhas (cantina localizada na zona Celas) sendo a cantina frequentada maioritariamente pelos 4000 estudantes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), transferindo-os desta faculdade para as cantinas da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

Ora, se a existência actual de uma cantina direccionada para esta população já é insuficiente para responder às necessidades da comunidade académica, a deslocação massiva destes estudantes para outro espaço, já sobrelotado, agravará inevitavelmente os problemas existentes. Todos sabemos que as cantinas da Escola Superior de Enfermagem, para além dos estudantes de enfermagem, são frequentadas pelos de medicina, medicina dentária, outros residentes universitários, trabalhadores e visitantes do IPO. A utilização por milhares de estudantes adicionais levanta questões óbvias: como irá o novo espaço suportar este aumento brutal de procura? Haverá capacidade física suficiente? Serão resolvidos os problemas existentes ou simplesmente transferidos e agravados?

Estas são algumas perguntas que a Universidade deveria ter respondido, antes de tomar esta decisão, para além de que o encerramento da Cantina Vermelhas terá ainda outro efeito evidente: forçará muitos estudantes para o consumo no bar da FEUC, explorado pelo capital privado, à semelhança da esmagadora maioria dos bares da Universidade de Coimbra. Os preços significativamente mais elevados tornam esta alternativa incomportável para muitos estudantes, particularmente num contexto de aumento generalizado do custo de vida, de rendas e de transportes.

Perante a situação, a Universidade de Coimbra, em vez de reforçar os serviços essenciais à vida estudantil, opta por desmantelar infraestruturas fundamentais, sacrificando as necessidades concretas dos estudantes em nome de uma lógica de contenção orçamental e gestão tecnocrática e, ao invés de contratar mais trabalhadores de forma a alargar horários, melhorar condições ou reforçar a oferta alimentar, opta pelo encerramento dos serviços, começando pelo seu esvaziamento progressivo até à sua substituição prática por alternativas financeiramente mais rentáveis para a instituição e, enquanto os serviços essenciais à vida estudantil são degradados, continuam a ser atribuídas verbas desproporcionais a eventos passageiros, iniciativas de visibilidade institucional e estruturas de utilidade reduzida para a maioria dos estudantes. Esta prioridade orçamental revela o verdadeiro posicionamento político da instituição: a imagem e a mercantilização da universidade sobrepõem-se às necessidades concretas da comunidade académica.

A experiência mostra-nos que este acto constitui mais um ataque às condições dos estudantes e às condições materiais de vida da comunidade académica. De facto, esta decisão não surge isoladamente, integrando-se, antes, num processo mais amplo de degradação dos serviços públicos universitários, desinvestimento na acção social e mercantilização progressiva da universidade. De relembrar que o mesmo procedimento foi seguido aquando da eliminação do prato social na Cantina Rosa/São Jerónimo em 2022, medida apenas revertida devido à forte pressão da comunidade académica. Mais uma vez, são os estudantes, muitos estudantes trabalhadores, deslocados e economicamente vulneráveis que pagarão o preço desta política!

Este processo não é simplesmente uma mera incompetência administrativa. Trata-se da expressão concreta das contradições de classe no interior da universidade capitalista. A universidade é progressivamente transformada numa instituição subordinada às lógicas de mercado, onde os estudantes deixam de ser sujeitos do processo educativo para se tornarem consumidores, e onde os serviços sociais passam a ser encarados como custos a reduzir, ao invés de direitos fundamentais. O empobrecimento da acção social escolar faz parte de um processo mais amplo de elitização do ensino superior.

É do conhecimento geral que a Cantina Vermelhas enfrenta problemas estruturais graves que comprometem diariamente a qualidade e a acessibilidade do serviço prestado à comunidade académica: a falta de trabalhadores e a degradação das condições laborais do staff sobrecarregam os funcionários e limitam a capacidade de resposta da cantina, traduzindo-se em longas filas de espera, atrasos constantes e pressão para acelerar o atendimento devido a horários manifestamente reduzidos a que acresce simultaneamente, a insuficiência de lugares sentados e as más condições de acessibilidade que dificultam a utilização do espaço por muitos estudantes, enquanto a oferta alimentar se revela cada vez mais reduzida, marcada pela falta de opções adequadas para alunos com restrições alimentares e pela repetida incapacidade de garantir comida suficiente para o cumprimento das ementas previstas durante o período de refeições. A incapacidade do serviço em responder, a tempo inteiro, às necessidades reais dos estudantes está patente na redução dos horários circunscritos apenas aos almoços com encerramento durante o Verão.

Mas, encerrar a Cantina Vermelhas não resolve nenhum dos problemas existentes, apenas os desloca, aprofunda e agrava, exigindo respostas concretas, investimento público e reforço da acção social e não políticas de abandono e desresponsabilização até porque o problema não é exclusivo da Cantina Vermelhas. Todas as cantinas da Universidade de Coimbra enfrentam problemas semelhantes.

O PCTP/MRPP denuncia e condena firmemente esta intenção de encerramento da Cantina Vermelhas, considerando-a mais um episódio do contínuo ataque às condições de vida dos estudantes e ao carácter público e social da universidade e um passo no processo de empobrecimento da acção social escolar e de desvalorização das necessidades concretas da comunidade académica, em benefício de uma lógica de gestão economicista e mercantilizada com base capitalista no ensino superior.

Por um Verdadeiro Direito ao Ensino para Todos!

Por um Ensino Crítico e Científico!

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