Esta semana os trabalhadores e o povo português seguiram com grande atenção, solidariedade e envolvimento a luta dos trabalhadores dos CTT contra a privatização da empresa e, a avaliar pelo que já sucedeu em outras privatizações, contra os despedimentos que o encerramento de várias Estações de Correio em todo o país prenunciam, este processo será também aplicado a esta empresa.
Os trabalhadores e o povo português, não só puderam verificar a firmeza na luta por parte dos trabalhadores dos CTT, como puderam assistir, uma vez mais, à resposta violenta e brutal com que o governo trata da situação, como ficou demonstrado pelos acontecimentos que ocorreram nos portões de entrada das instalações de Cabo Ruivo daquela empresa, onde os trabalhadores que integravam o piquete de greve que tentava impedir a saída de 4 camiões – conduzidos por trabalhadores externos à empresa, o que é ilegal – foram brutalmente agredidos e empurrados pela polícia de intervenção.
Com uma situação financeira sólida, a empresa regista lucros sucessivos, ano após ano, o que torna, para o comum dos mortais, mais bizarra esta insistência na sua privatização. O fecho de balcões por todo o país, tal como sempre denunciámos, visava tornar mais racional e rentável a empresa para futuros compradores internacionais, grandes grupos financeiros e bancários, depurando-a dos únicos activos tóxicos que o capital privado verdadeiramente teme – os trabalhadores!
Faz, portanto, parte daquele lote de activos e empresas estratégicas nacionais, detidas no todo ou em parte, com grande peso negocial pelo estado, como são a GALP, a PT, a REN, a ANA, que dão lucro, mas que, mercê da nova divisão internacional de trabalho que, quer pela assinatura original do Tratado com a CEE, quer pelos Tratados posteriores – dos quais destacamos o Tratado de Lisboa – os sucessivos governos PS e PSD, acolitados pelo CDS, aceitaram vender, a preço de saldo, aos grandes grupos financeiros e bancários com a justificação de que Portugal é um estado de direito, cumpridor das suas obrigações, nomeadamente quanto aos créditos que solicita.
Escamoteia-se, no entanto, que a dívida é um instrumento de domínio de potências económicamente mais desenvolvidas como a Alemanha, sobre países onde as burguesias parasitárias se dispõe a actuar como meros serventuários e executantes dos seus ditames. Ditames que se prendem com o objectivo estratégico dessas potências em assegurar uma maior acumulação capitalista, conseguida à custa da concentração, nas mãos dos seus grupos financeiros, económicos e industriais do maior número de empresas e activos estratégicos existentes nos países considerados elos fracos do sistema capitalista na Europa, como é o caso de Portugal.
Acontece, porém, que a par de o país perder activos e empresas estratégicas de vital importância para definir uma estratégia económica independente e soberana, o povo e os trabalhadores portugueses têm sido confrontados com a realidade de que, com os processos de privatização que têm sido levados a cabo, advém sempre uma enorme onda de despedimentos, geralmente classificada como necessária para emagrecer gorduras às empresas a privatizar, a par de um inaudito aumento dos custos dos serviços ou produtos por essas empresas desenvolvidos.
É esta dupla natureza, a da perda de activos e empresas estratégicas que possibilitem a definição de uma política económica soberana e independente, a par do corolário de despedimentos que vem sempre associado a estas privatizações, que tornam comum a luta dos trabalhadores das empresas privatizadas ou das concessões de activos convenientemente oferecidos a grandes grupos privados – mesmo que falidos, como é o caso da Martifer, em relação aos ENVC - com a luta de todo o povo e de todos os trabalhadores portugueses.
Será, aliás, importante que a violenta, mas responsável oposição de Seguro e do PS responda à questão do que fariam se o povo português, não tendo aprendido as lições do passado, lhes viesse a conferir a possibilidade de voltar a ser governo? Revogariam todas as medidas terroristas e fascistas levadas a cabo pelo governo PSD/CDS? Suspenderiam, no mínimo, o pagamento da dívida e dos juros? Anulariam todos os contratos que levaram à privatização de activos e empresas públicas estratégicas?
Só com uma esclarecida, corajosa e mobilizadora direcção que leve a cabo todas as greves gerais necessárias, pelo tempo que for necessário, até ao derrube deste governo de traição nacional e do seu tutor Cavaco Silva, é que se criarão as condições para a constituição de um governo democrático patriótico que, para além de se recusar a pagar uma dívida que não foi contraída pelo povo, nem o povo dela retirou qualquer benefício, acarinhe e implemente um programa que contemple a nacionalização de todos esses activos e empresas estratégicas, preparando Portugal para a saída do euro e da União Europeia, instrumentos que, como se tem visto, mais não levaram que à destruição maciça do nosso tecido produtivo, à perda da nossa soberania e à prossecução de um programa generalizado de empobrecimento do povo e de quem trabalha.