A freguesia do Caniçal, no concelho de Machico, é o primeiro porto de pesca e a mais importante comunidade piscatória da Região Autónoma da Madeira.
Os pescadores do Caniçal e suas famílias estão em polvorosa, desde o passado dia 27 de Maio.
Tudo começou com um ataque desalmado e provocatório da GNR aos pescadores do atuneiro Falcão do Mar, da praça do Caniçal, com o qual ataque aquele corpo militar parasitário de polícia roubou àqueles pescadores e suas famílias cento e oitenta quilogramas de atum patudo da faina da noite de 26 de Maio de 2014.
O Falcão do Mar é um pequeno atuneiro com uma companha de dezassete pescadores, sob o comando do arrais Sebastião.
Com o arrais Sebastião e os seus homens, o Falcão do Mar dedica-se, nesta época, à pesca do atum patudo, pelo método piscatório do salto e vara, método que, ao invés do método dos atuneiros de rede e arrasto franceses, espanhóis e japoneses, que operam nas águas da zona económica exclusiva da Madeira, não tem efeitos predadores e salvaguarda totalmente as populações de golfinhos.
Na 23ª reunião ordinária da Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico (ICCAT), realizada, na cidade do Cabo, entre 18 e 25 de Novembro de 2013, foi fixada, para a União Europeia, uma quota – Total Admissível de Captura (TAC) – de 22 667 toneladas de atum patudo em 2014, restringindo-se a quota portuguesa a 4 769,14 toneladas para a zona económica exclusiva de Portugal (Continente, Açores e Madeira), ficando a França e a Espanha com a quase totalidade do resto das quotas de pesca de patudo reservada à União Europeia, muito embora essa pesca se faça, em mais de 90%, nas águas da nossa zona económica exclusiva.
Relativamente à pesca do patudo, a quota da Madeira é de 277 toneladas, e já estava esgotada nos fins de Maio, por manifesta incompetência do secretário regional Manuel António, que nunca lutou nem luta por melhores quotas para a Região.
Naquela noite de 26 de Maio, o arrais Sebastião mandou reservar, do total da safra da noite, uns quantos atuns, no montante global de 180 Kg., para dividir pelos 17 pescadores da sua companha.
Como ainda não se inventou maneira de comer a cabeça e as barbatanas do patudo, que são enormes, a reserva, em atum comestível, mal chegava a 170 Kg. no total, ou seja, cerca de 10 Kg. de atum por cada pescador...
Como a época e a quota de capturas do patudo estavam a chegar ao fim, aqueles dez Kg. eram tudo quanto tinha cada pescador do Falcão do Mar para comer de atum até ao dia do Senhor dos Milagres ou da Senhora da Piedade.
Pois foram esses 10 Kg de atum que a GNR, assaltando o atuneiro, sem nenhum mandado judicial para o efeito, roubou a cada pescador do Falcão do Mar.
Oh, como nós gostaríamos de ver estes valentes militares da GNR tomarem de assalto os atuneiros de arrasto e de rede de França, de Espanha e do Japão, que se passeiam nas nossas águas, para verificarem o cumprimento da lei!...
Este cobarde assalto da GNR aos pescadores indefesos para lhes roubar da boca o seu pão – ou o seu peixe – provocou a mais viva e revoltada indignação não só dos companheiros do arrais Sebastião, como de todos os pescadores do Caniçal e de todos os trabalhadores madeirenses.
Veio a GNR tentar limpar as ventas no Diário de Notícias da Madeira, alegando que tudo o que é pescado tem de passar pela lota e pagar imposto.
Mas, se é isso, porque roubou então a GNR o peixe às pobres dezassete famílias dos pescadores do Falcão do Mar?! Porque não lhes pediram que pagassem o imposto devido e não lhes devolveram os dez kg de patudo?!
E como, ainda por cima, depois de lhes terem comido o atum, ainda lhes levantaram contra-ordenações que podem levar ao pagamento de coimas entre 500 e 3 740 euros, e coimas que, só no caso do armador – que é também o arrais Sebastião –, podem subir aos 49 891 euros, vê-se que mais paga um pescador do Caniçal por não levar o peixe à lota, que o administrador de um banco por levá-lo à falência.
Claro é que, como este país está, com um governo de traição nacional Coelho/Portas, e como está a Região, com um governo de fascistas capitaneados por Alberto João Jardim, nem valerá a pena lembrar a essa corja e à corja da GNR que todo o pescador madeirense, desde as mais remotas eras, sempre teve e usou do direito ao quinhão, para trazer para casa e entregar às famílias a sua necessária porção de pescado.
Mas o melhor é estar calado, porque senão a GNR, que lhes roubou o pescado por falta do pagamento do imposto na lota, irá com certeza roubar-lhes pela segunda vez o mesmo peixe, agora para penhora do IRS em falta, pelo imposto do rendimento sobre o quinhão!...
Seja como for, os pescadores do Caniçal devem erguer-se com determinação, como efectivamente o têm estado a fazer, contra a canalha do governo regional, cujo secretário nunca soube defender quotas de captura de tunídeos adequadas às necessidades económicas da Região, e contra a canalha da GNR, polícia que vive à custa de quem trabalha e que para nada serve nem na Região nem no País.
Honra aos companheiros do Falcão do Mar!
Viva o povo do Caniçal!
Fora com a GNR da Madeira!
Espártaco