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A Pandemia Viral Ébola

ebola01O actual director-geral da saúde, Francisco George, compareceu ontem perante a comissão parlamentar da saúde, aparentemente para explicar aos deputados, à assembleia da República e ao País os planos e medidas do governo para fazer face àquela que poderá rapidamente transformar-se na maior pandemia viral, depois da gripe espanhola de 1918, que matou 50 milhões de pessoas em todo o mundo.

Até agora, a doença viral Ébola está a matar setenta por cento dos infectados, e a Organização Mundial de Saúde estima que, até ao fim de Novembro, surgirão, por semana, novos contingentes de dez mil novos infectados.
A doença tem origem num vírus que foi pela primeira vez detectado na margem do rio Ébola, um subafluente do Zaire.

De momento, a doença, altamente contagiosa a partir de meras gotículas de qualquer líquido corporal humano infectado, grassa, aparentemente sem controlo, em três países da África ocidental: a Serra Leoa, a Guiné-Conacri e a Libéria.

A situação e o avanço da pandemia estão a tornar-se dramáticos e, à falta de melhor inteligência do caso, levou Barack Obama a invadir a Libéria e a Serra Leoa com um regimento dos seus melhores marines, para combater o avanço do vírus. Claro, do imperialismo americano ninguém estaria à espera de outra coisa que não fossem alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, mesmo contra vírus invisíveis a olho nu.

Em Portugal, estes assuntos de saúde pública estão cometidos ao director-geral da saúde, o qual, não dispondo dos meios militares de Barack Obama, adoptou, desde que se conheceu o primeiro caso de Ébola e a sua incontrolável violência propagadora, a estratégia não menos ridícula do avestruz, consistente em enterrar a cabeça na areia.

Para sermos claros, até ontem à hora da apresentação de George em São Bento perante a comissão parlamentar da saúde, não havia em Portugal o mínimo resquício de um Plano Nacional de Contingência para o Ébola.

A direcção do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos, actualmente presidido pelo distinto médico e ilustre professor Pedro Serrano, publicou, a pedido do bastonário daquela Ordem, um firme, competente e bem fundamentado parecer, denunciando a incúria da direcção-geral da saúde na adopção das medidas de vigilância, de organização, de acolhimento e de tratamento para combater e conter, em território nacional, a expansão da doença.

Comparecendo, com arrogância e maus modos, em São Bento, George procurou transformar o combate à pandemia viral Ébola numa luta entre a maioria e a minoria parlamentares, chegando ao ponto de praticamente imputar à minoria, que propusera e agendara a sessão da Comissão Parlamentar da Saúde, a responsabilidade pela inevitável entrada do vírus em Portugal...

George esqueceu-se que um director-geral é um mero funcionário público, que tem o estrito dever de prestar informações sobre a sua actividade à assembleia da República e que não lhe compete nem agredir a oposição nem tomar a defesa da maioria, a qual maioria aliás já não é maioria se não perante a cegueira política reaccionária de Cavaco.

George, pelas coisas que disse e pelo modo provocatório como as disse, mostrou e demonstrou que não passa de um ignorante, de um incompetente, e de um irresponsável, tudo ao mesmo tempo, pelo que, como funcionário público que é, deve pura e simplesmente ser demitido da função.

George foi à assembleia da República, chamado para prestar contas sobre as medidas que adoptara ou não adoptara no combate ao Ébola, mas sobre os deveres da sua função nada disse, gastando o tempo a invectivar a oposição e a atacar o parecer do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos.

Ora, se não fosse um perfeito e acabado imbecil, George teria agradecido o contributo do Colégio da Especialidade nesta contingência gravíssima da saúde pública em Portugal e teria levado muito a sério o parecer do Professor Pedro Serrano, um competentíssimo especialista no assunto.

O Dr. Pedro Serrano e o Colégio da Especialidade, no parecer a que me venho reportando, fazem duas perguntas, obviamente a George: 1ª, qual é o risco de o Ébola chegar a Portugal? e 2ª, está Portugal preparado para enfrentar a doença?

Para George, o risco de o Ébola chegar a Portugal é baixo e, por outro lado, Portugal está preparado para fazer face à doença! 

As respostas do parecer do Colégio são totalmente opostas: o risco é alto e Portugal não está preparado. George considerou alarmistas as respostas dos médicos especialistas em saúde pública, mas estes, no seu parecer, já tinham denunciado, com a devida antecedência e esclarecida presciência, a manobra de George que procura, com o silenciamento do assunto, produzir na população uma falsa sensação de segurança.

George ainda conserva os tiques fascistas que trouxe do salazarismo, para o qual as desgraças se curavam com censura, se não mesmo com pancada.

Na verdade, só um funcionário ignorante, incompetente e irresponsável pode ter por baixo o risco da importação do Ébola, quando o vírus, que não conhece fronteiras, já está em Espanha e já chegou aos Estados Unidos da América, países estes que dispõem de meios e de planos de contingência que nós não temos e que, com George na direcção-geral da Saúde, nunca haveríamos de ter, mesmo que pudéssemos.

O vírus do Ébola já mora aqui ao lado. O risco de entrar em Portugal é altíssimo, e não apenas por isso. Na verdade, o parecer do Colégio da Ordem chama a atenção para o especial posicionamento de Portugal como país integrante dos PALOP, países lusófonos africanos com permanente ligação a Portugal e, por outro lado, com permanente ligação aos países africanos onde grassa a epidemia viral do Ébola.

Ora, não há nenhuma espécie de controlo nos aeroportos nacionais relativamente aos viajantes, incluindo viajantes portugueses, provenientes daquelas paragens. Nem foram criadas áreas de recepção a essa classe de viajantes nos aeroportos, nem instruídos os médicos e funcionários aeroportuários que terão de lidar com os recém-chegados.

Qualquer cidadão doente ou infectado que chegue a Lisboa – e não falamos sequer de chegadas ao Funchal ou a Ponta Delgada – poderá infectar toda a gente com quem se cruzar, incluindo a família e o pessoal de saúde a quem recorrer, bem como todos quantos com ele viajaram e os que encontrar por onde for passando.

Como relata o parecer da Ordem – e muito bem! – “nenhum outro país europeu está tão em risco de ser contaminado do exterior, a partir dos grandes centros de foco da doença em África, como Portugal.”.

A maneira como George tem vindo a lidar com o problema do Ébola, tanto nas mensagens de enganosa tranquilidade que tem feito passar à população, como ao nível do planeamento, concentrando todos os cuidados com a doença apenas em três hospitais (São João, no Porto, e Curry Cabral e D. Estefânia, em Lisboa), e abandonando à sua sorte os médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da saúde, comprova que o actual director-geral não está preparado para lidar com a contingência do Ébola e deve ser imediatamente substituído.

Antes que uma pavorosa desgraça nos caia em cima!

Ora, este governo, os seus ministros e até os altos funcionários do Estado, como é o caso de George, têm mostrado uma total e completa incompetência e irresponsabilidade no exercício das suas funções e, tal como a ministra da justiça e o ministro da educação não se irão embora senão a pontapé.

Pois é isso que é preciso fazer desde já a George: um bom pontapé, e por baixo…

 

Espártaco