ROSA LUXEMBURGO - GREVE DE MASSAS PARTIDO E SINDICATOS (5 e 6)

Capítulos 1 e 2

Capítulos 3 e 4

Rosa Luxemburgo
GREVE DE MASSAS  PARTIDO E SINDICATOS

5

Põe-se agora a seguinte questão: em que medida as lições tiradas da greve geral na Rússia se aplicam à Alemanha? As condições sócio-políticas, a história e a situação do movimento operário diferem profundamente na Alemanha e na Rússia. À primeira vista poder-se-á pensar que as leis internas das greves de massa na Rússia, tal como as expusemos, resultam de condições especificamente russas, que de nenhum modo são válidas para o proletariado alemão. Na revolução as lutas política e económica estão unidas pelas mais estreitas relações internas; a sua unidade revela-se no período grevista. Mas não é isso uma simples consequência do absolutismo russo? Num Estado em que todas as formas e todas as manifestações do movimento operário são proibidas em que a mais simples greve é um crime, qualquer luta económica se transforma necessariamente em luta política.

Por outro lado, se inversamente, a primeira explosão da revolução conduziu a um ajuste de contas entre a classe operária e o patronato, foi pelo facto do operariado russo ter até então o mais baixo nível de vida, e de jamais ter travado a mais pequena batalha económica para melhorar a sua sorte, “O proletariado russo tinha de começar por se libertar da mais ignóbil condição: o que há de espantoso em ter tomado um ardor juvenil quando a revolução trouxe o primeiro sopro vivificador à atmosfera sufocante do absolutismo? Finalmente, o decorrer tumultuoso da greve de massas assim como o seu carácter elementar e espontâneo explicam-se, por um lado, devido à atrasada situação política da Rússia, por outro lado, devido à falta de organização e educação do proletariado russo. Num país em que a classe operária tem atrás de si trinta anos de experiência da vida política, com um poderoso partido socialista com três milhões de votos e com um grupo sindicalmente organizado que atinge um milhão e um quarto, é impossível que a luta política, que as greves de massa se revistam do mesmo carácter tempestuoso e elementar que num Estado semi-bárbaro acabado de transitar da Idade Média para a ordem burguesa moderna. Tal é a ideia que geralmente têm os que querem medir o grau de maturidade da situação económica dum país a partir da interpretação das suas leis escritas.

Examinemos os problemas um a um. Primeiro, é inexacto querer fazer remontar o início da luta económica à explosão da revolução. De facto, as greves e os conflitos salariais estavam cada vez mais na ordem do dia, desde o início dos anos 90 na Rússia propriamente dita, e na Polónia russa mesmo a partir do fim dos anos 80, tendo praticamente adquirido

o direito de cidadania. É verdade que ocasionavam frequentes e brutais repressões da polícia, contudo faziam parte dos acontecimentos quotidianos. É assim que em Varsóvia e Lodz, a partir de 1891, existia uma importante Caixa Sindical colectiva; o entusiasmo pelos sindicatos fez até nascer por algum tempo na Polónia as ilusões «economistas» que, anos mais tarde, reinaram em S. Petersburgo e no resto da Rússia. Também existem muitos exageros na ideia que se fazia da miséria do proletariado no Império czarista antes da revolução. A categoria dos operários actualmente mais activa e mais ardente na luta económica e política, a dos trabalhadores da grande indústria nas grandes cidades, tinha um nível de vida só levemente inferior ao das categorias correspondentes do proletariado alemão; num certo número de profissões encontram-se salários iguais e por vezes superiores aos adoptados na Alemanha. Também, no que respeita à duração do trabalho, a diferença entre as grandes empresas industriais dos dois países é insignificante. Assim, a ideia de um pretenso ilotismo material e cultural da classe operária russa não tem fundamento. Se reflectirmos um pouco nesses factos, a ideia é refutada pela própria revolução e pelo eminente papel que o proletariado desempenhou. Não é com um sub-proletariado miserável que se fazem revoluções com esta maturidade e esta lucidez políticas. Os operários da grande indústria de S. Petersburgo, Varsóvia, Moscovo e Odessa, que ocupavam a primeira fila do combate, estão, no plano cultural e intelectual, muito mais próximo do tipo ocidental do que imagina quem considera o parlamentarismo burguês e a prática sindical regular a única, a indispensável escola do proletariado. O moderno desenvolvimento industrial na Rússia e a influência de 15 anos de social-democracia, dirigindo e encorajando a luta económica, realizaram um importante trabalho civilizador, mesmo sem as garantias exteriores da ordem legal burguesa.

Mas as diferenças atenuam-se ainda mais se considerarmos outro aspecto da questão e examinarmos mais de perto o verdadeiro nível de vida da classe operária alemã. As grandes greves políticas de massas sacudiram, logo no primeiro instante, as mais largas camadas do proletariado russo, que se lançou febrilmente na batalha económica. Mas não existem na Alemanha, no seio da classe operária, categorias vivendo numa obscuridade que a benfazeja luz sindical mal aqueceu, categorias que mal, tentaram ou tentaram sem sucesso, sair do seu ilotismo social, travando diariamente lutas pelos salários? Tomemos como exemplo a miséria dos mineiros: mesmo no mais calmo rame-rame quotidiano, na fria atmosfera da rotina parlamentar alemã — aliás como noutros países, mesmo na Inglaterra, paraíso dos sindicatos — a luta dos mineiros só se manifesta por golpes, por fortes erupções, por greves de massas com características de forças elementares. Esta é a prova de que a oposição entre o capital e o trabalho está demasiado exacerbada, é demasiado violenta para permitir a divisão em lutas sindicais parciais calmas e metódicas. Mas esta miséria operária de carácter eruptivo que, mesmo em tempo normal, constitui um foco de tempestade donde provêm abalos violentos, deveria desencadear de repente e inevitavelmente um conflito político e económico brutal, por ocasião de qualquer acção política de massas na Alemanha, de qualquer choque relativamente violento. Tomemos agora como exemplo a miséria dos operários têxteis: também aqui a luta económica se manifesta por exasperadas explosões, inúteis na sua maioria, que, sacudindo o país todos os dois ou três anos, dão somente uma débil ideia da violência eruptiva pela qual reagiria a enorme massa aglomerada dos escravos da grande indústria têxtil associada no momento de uma explosão política por ocasião de uma poderosa acção das massas proletárias alemãs. Vejamos ainda a miséria dos trabalhadores ao domicílio, dos operários da confecção, da electricidade — focos eruptivos onde, ao menor abalo político, rebentariam tanto mais certamente conflitos políticos violentos, quanto o proletariado se empenha aqui mais raramente na luta em tempo de paz social, quanto a sua luta é cada vez mais em vão, e quanto o capital lhe impõe de novo com mais brutalidade o seu detestável jugo.

Consideremos agora as grandes categorias do proletariado que, no geral, em «situação normal» não podem travar uma luta económica pacífica para melhorar a sua condição, e que são privados do direito de associação. Citemos, como exemplo, a miséria chocante dos empregados dos caminhos de ferro e dos correios. Estes funcionários de Estado da Alemanha, em pleno país de legalidades parlamentar, estão na mesma situação que os funcionários russos — mesmo antes da revolução, quando reinava um absolutismo sem peias. A partir da grande greve em Outubro de 1905 a situação do ferroviário russo, num país onde reinava formalmente o absolutismo, no que se refere à sua liberdade de movimento económico-social, era bastante superior à situação do ferroviário alemão. Os ferroviários e os empregados dos correios conquistaram, efectivamente, o direito de associação, por assim dizer, em plena tormenta revolucionária e, mesmo que chovam processos sobre processos, despedimentos sobre despedimentos, nada pode tirar-lhes a solidariedade interna. Portanto, seria fazer um cálculo psicológico inteiramente falso, se se pensasse, como o fez toda a reacção alemã, que a obediência incondicional dos ferroviários e dos empregados dos correios duraria eternamente, qual fortaleza inabalável. De facto os dirigentes sindicais alemães estão de tal modo acostumados à situação vigente que, descontentes por sofrerem sem perturbação esta vergonha sem exemplo na Europa, podem contemplar com alguma prazer os progressos da luta sindical no seu país; mas se houver um levantamento geral do proletariado industrial, a cólera surda e acumulada por muito tempo no coração destes uniformizados escravos do Estado explodirá inevitavelmente. Mas, quando a vanguarda do proletariado, os operários industriais, quer conquistar novos direitos políticos ou defender os antigos, o grande exército de ferroviários e de empregados dos correios tomará necessariamente consciência da sua vergonhosa situação e acabará por se revoltar para se libertar desta porção de absolutismo russo que foi criada especialmente para ele na Alemanha. A pretensiosa teoria que pretende fazer desenrolar os grandes movimentos populares segundo um esquema e receitas vê na conquista do direito de associação pelos ferroviários condição prévia sem a qual é inútil pensar-se em greve de massas. O curso verdadeiro e natural dos acontecimentos só pode ser inverso: somente por uma acção de massas vigorosa e espontânea, o direito de associaçãoserá conquistado pelos funcionários dos correios e pelos ferroviários alemães, e este problema insolúvel na actual situação alemã encontrará bruscamente a sua solução e a sua realização sob a pressão e a impressão de uma acção geral do proletariado. E, por fim, a maior e a mais importante das misérias: a dos operários agrícolas. Dado o carácter específic da ecoonomia inglesa, e o papel mínimo desempenhado pela agricultura no conjunto da economia nacional, pode compreender-se que os sindicatos sejam organizados para uso exclusivo dos operários industriais. Na Alemanha, uma organização sindical por mais maravilhosamente organizada que seja, que só compreenda operários industriais, seria inacessível ao imenso exército dos operários agrícolas e não daria mais que uma pálida e parcial imagem da condição proletária no seu conjunto. Mas, por outro lado, seria também uma ilusão perigosa crer que as condições no campo são imutáveis e eternas, e ignorar que o infatigável trabalho de educação levado a cabo pela social-democracia, e mais ainda toda a política da Alemanha, não acabassem por minar a aparente passividade do operário agrícola; não seria razoável pensar que no caso do proletariado industrial empreender uma grande acção de classe, fosse qual fosse o objectivo fixado, o operariado agrícola permaneceria de fora. Ora a participação dos operários não pode manifestar-se de início, senão por meio de uma luta económica tempestuosa, por meio de poderosas greves de massa.

Temos assim uma imagem completamente diferente da pretensa superioridade económica do proletariado alemão em relação ao proletariado russo se, pondo de parte a lista das profissões industriais ou artesanais sindicalmente organizadas, nos voltarmos para a grande quantidade de operários que estão à margem da luta sindical, ou cuja particular situação económica não tem lugar no estreito quadro da pequena luta sindical quotidiana. Mas mesmo que nos voltemos de novo para a vanguarda organizada do proletariado alemão e, por outro lado, retivermos no espírito os objectivos económicos actualmente prosseguidos pelo operariado russo, constatamos que de modo nenhum se trata de combates que os mais antigos sindicatos alemães tenham razões para desprezar como sendo anacrónicos. Assim, a principal reivindicação geral das greves russas a partir do 22 de Janeiro de 1905: dia de trabalho de 8 h, não é um objectivo ultrapassado para o proletariado alemão, pelo contrário, na maior parte dos casos, ele surge como um belo e longínquo ideal. Pode dizer-se o mesmo da luta contra «situação do patrão senhor em sua casa», da luta pela criação de Comités operários em todas as fábricas da luta pela extinção do trabalho sem contrato, pelo repouso dominical, pelo reconhecimento do direito de associação. Mas vendo-os mais de perto, todos os objectivos económicos que o proletariado russo hoje põe na ordem do dia da revolução são também da maior actualidade para o proletariado alemão e atingem aspectos dolorosos da existência operária. Destas reflexões resulta, em primeiro lugar, que a greve de massas puramente política, tema preferido em todas as discussões, também para a Alemanha, é um simples esquema teórico e sem vida. Se as greves de massas nascessem duma grande fermentação revolucionária, e se transformassem naturalmente em lutas políticas resolutas do proletariado urbano, dariam com certeza lugar, como na Rússia, a todo um período de lutas económicas elementares. Os receios dos dirigentes sindicais assentam numa concepção escolástica e gratuita do desenrolar dos acontecimentos ao temerem que, num período de greve de massas, a batalha pelos objectivos económicos seja desviada ou sufocada. Um período revolucionário transformaria antes, mesmo na Alemanha, o carácter da batalha económica e intensificá-la-ia a tal ponto que a actual pequena guerrilha sindical surgiria em comparação como um jogo de crianças. E, por outro lado, esta explosão elementar de greves económicas de massas daria um novo impulso e novas forças à luta económica. A interacção entre a luta económica e a luta política, que hoje constitui o motor interno das greves de massas na Rússia e ao mesmo tempo o mecanismo regulador da acção revolucionária do proletariado, produzir-se-ia igualmente na Alemanha como consequência natural da situação.


6

Segundo esta perspectiva o problema da organização nas suas relações com o problema da greve de massa na Alemanha adquire uma fisionomia totalmente diferente. A posição adoptada, por numerosos dirigentes sindicais, quanto a este problema limita-se quase sempre à seguinte afirmação: «Não somos ainda bastante poderosos para podermos arriscar-nos a uma prova de força tão temerária como a greve de massas». Ora este ponto de vista é indefensável: com efeito, é um problema insolúvel quando se quer apreciar a frio, por um cálculo aritmético, em que momento o proletariado estaria «bastante forte» para desencadear a luta qualquer que ela fosse. Há trinta anos os sindicatos alemães contavam 30 mil membros: número que, manifestamente, a partir dos mais altos critérios estabelecidos, não permitia sonhar com uma greve de massas. Quinze anos mais tarde os sindicatos eram oito vezes mais poderosos, contando com 237mil membros. Todavia se nesta altura se perguntasse aos dirigentes actuais se a organização do proletariado possuía a maturidade necessária para levar cabo uma greve, eles certamente responderiam que ainda estavam longe, que a organização sindical deveria agrupar milhões de aderentes. Hoje há mais de um milhão de operários sindicalizados, mas a opinião dos dirigentes é sempre a mesma — e isto pode durar indefinidamente. Esta atitude fundamenta-se no postulado implícito de que toda a classe operária alemã até ao seu último homem, até à última mulher, deve entrar na organização para que esta seja «forte o suficiente» para arriscar uma acção de massas: então seria provável que, de acordo com a velha fórmula, ela fosse supérflua. Esta teoria é perfeitamente utópica pela simples razão de que enferma de uma contradição interna e se move num círculo vicioso. Antes de executar uma acção directa de massas os operários devem estar organizados na sua totalidade. Mas as condições, as circunstâncias da evolução capitalista e do Estado burguês fazem com que, numa situação «normal» sem violentas lutas de classes, certas categorias — e de facto trata-se precisamente do grosso das hostes, das categorias mais importantes, das mais miseráveis, das mais esmagadas pelo Estado e pelo capital — não possam organizar-se de maneira nenhuma. Assim constatamos que, mesmo na Inglaterra, um século inteiro de trabalho sindical infatigável, sem «perturbações» — excepto no início do período cartista — sem todos os desvios e tentações do «romantismo revolucionário», conseguiu unicamente organizar uma minoria entre as camadas privilegiadas do proletariado.

Por outro lado, com o tempo, os sindicatos, como as outras organizações de combate do proletariado, só podem manter-se pela luta, e uma luta que não é unicamente uma pequena guerra entre rãs e ratos nas águas paradas do parlamentarismo burguês, mas um período revolucionário de violentas lutas de massas. A concepção rígida e mecânica da burocracia só admite a luta como resultado da organização que atinja um certo grau de força. Pelo contrário, a evolução dialéctica, viva, faz nascer a organização como produto da luta. Vimos já um exemplo magnífico deste fenómeno na Rússia, onde um proletariado quase desorganizado começou a criar uma vasta rede de organizações depois de um ano e meio de lutas revolucionárias tumultuosas. Um outro exemplo é-nos fornecido pela própria história dos sindicatos alemães. Em 1878 os sindicatos contavam 50 mil membros. Segundo a teoria dos actuais dirigentes sindicais, vimo-lo já, esta organização não era «suficientemente forte» para se comprometer numa luta política violenta. Mas os sindicatos alemães, por mais fracos que fossem na época, envolveram-se contudo na luta — referimo-nos à luta contra a lei de excepção — e reveleram-se não só «suficientemente fortes» para obterem a vitória, mas também quintuplicaram o seu poder. Após a supressão da lei de 1891, contavam com 227 659 aderentes. Para dizer a verdade o método utilizado pelos sindicatos, e graças ao qual obtiveram a vitória na luta contra a lei de excepção, não corresponde em nada a um ideal de trabalho de formiga, calmo e paciente; começaram por soçobrar na batalha, para depois subir e renascer na vaga seguinte. Esse é precisamente o método específico de crescimento das organizações proletárias: avaliam as suas forças na batalha e dela saem renovados. Examinando com mais atenção as condições alemãs e a situação das diversas categorias operárias, vemos claramente que o futuro período de violentas lutas políticas traria aos sindicatos não a ameaça do desastre que se teme, mas pelo contrário, a perspectiva nova e inesperada de uma extensão intermitente da sua esfera de influência. Todavia, este problema tem ainda outro aspecto: o plano que consistiria em desencadear uma importante greve de massas a título de acção política de classe com a exclusiva ajuda dos operários organizados é absolutamente ilusório. Para que a greve, ou melhor, as greves de massa, para que a luta seja coroada de êxito, têm de transformar-se num verdadeiro movimento popular, quer dizer, têm de arrastar para a batalha as mais largas camadas do proletariado. Mesmo no plano parlamentar, o poder da luta das classes proletárias não se apoia num pequeno núcleo organizado, mas sim na vasta periferia do proletariado com simpatias revolucionárias. Se a social-democracia quisesse conduzir a batalha eleitoral com o exclusivo apoio de algumas centenas de milhares de organizados, condenar-se-ia a si própria ao fracasso. Se bem que a social-democracia deseje fazer entrar nas suas organizações quase todo o contingente dos seus eleitores, a experiência de 30 anos de eleitorado socialista mostra que o eleitorado socialista não aumenta em função do crescimento do Partido mas, pelo contrário, são as camadas operárias recentemente conquistadas no curso da batalha eleitoral que constituem o terreno que seguidamente será fecundado pela organização. Ainda aqui não é só a organização, que fornece as tropas combatentes, é também a batalha que fornece, numa maior escala, recrutados para a organização. Isto é, evidentemente, muito mais válido para a acção política directa de massas, que para a luta parlamentar. Se bem que a social-democracia, núcleo organizado classe operária, esteja na vanguarda de toda a massa de trabalhadores e o movimento operário busque a sua força, a sua unidade e consciência política nesta mesma organização, o movimento operário nunca deve ser concebido como movimento de uma minoria organizada. Toda a verdadeira e grande luta de classes deve alicerçar-se no apoio e colaboração das mais largas camadas; uma estratégia de luta de classes que não tivesse em conta essa colaboração, e não visse mais que os desfiles bem ordenados da pequena parte do proletariado arregimentada nas suas fileiras, estaria condenada a uma lamentável derrota. Na Alemanha as greves e acções políticas de massas de modo nenhum podem ser conduzidas exclusivamente pelos militantes organizados nem podem ser «comandadas» por um estado-maior saído de um organismo central do Partido. Como na Rússia, num tal caso, há menos necessidade de «disciplina», de «educação política», de uma avaliação tão precisa quanto possível das despesas e subsídios do que de uma acção de classe resoluta e verdadeiramente revolucionária capaz de atingir e arrastar as camadas mais extensas das massas proletárias desorganizadas, mas revolucionárias pela simpatia e pela sua condição. A sobrevalorização ou a falsa apreciação do papel organizativo do proletariado na luta dê classes está ligada geralmente a uma subvalorização da massa proletária desorganizada e da sua maturidade política. Só num período revolucionário, na efervescência das grandes lutas de classe tempestuosas se manifesta o papel educador da rápida evolução do capitalismo e a influência socialista nas grandes camadas populares; em tempo normal, as estatísticas das organizações, ou até as estatísticas eleitorais, não dão mais que uma pálida ideia dessa influência.

Vimos que na Rússia, há mais ou menos dois anos, o mais pequeno conflito, a mais pequena brutalidade, por parte das autoridades governamentais locais, podem ocasionar imediatamente uma acção geral do proletariado. Toda a gente se apercebe desse facto e acham-no natural, porque precisamente na Rússia existe a «revolução»; mas, que quer isso dizer? Quer dizer que o sentimento, o instinto de classe está de tal maneira vivo no proletariado que qualquer assunto parcial, interessando um grupo restrito de operários lhe diz directamente respeito como se fosse um assunto geral, um assunto de classe, e imediatamente reage na sua totalidade. Enquanto que na Alemanha, França, Itália, Holanda, os conflitos sindicais do proletariado não ocasionam uma acção geral do proletariado — nem mesmo do seu grupo organizado — na Rússia, o menor incidente desencadeia uma violenta tempestade. Isso significa o seguinte: por mais paradoxal que possa parecer, o instinto de classe no jovem proletariado russo, deseducado, pouco esclarecido e ainda menos organizado, é infinitamente mais vigoroso que na classe operária organizada, educada e esclarecida, da Alemanha ou de outro país da Europa Ocidental. Isto não se explica por qualquer virtude do «Oriente, jovem e virgem» em oposição ao «Ocidente apodrecido»; muito simplesmente é o resultado da acção revolucionária directa das massas. No operário alemão esclarecido, a consciência de classe incutida pela social-democracia é uma consciência teórica latente: no período do domínio parlamentar burguês, geralmente não tem ocasião para se manifestar por uma acção directa de massas; é o resultado ideal das 400 acções paralelas das circunscrições durante a luta eleitoral, dos numerosos conflitos económicos parciais, etc. Na revolução em que a própria massa aparece na cena política, a consciência de classe torna-se concreta e activa. Assim, um ano de revolução deu ao proletariado russo essa «educação» que trinta anos de lutas parlamentares e sindicais não podem artificialmente dar ao proletariado alemão. Por certo, esse vivo e activo instinto de classe que anima o proletariado decrescerá sensivelmente, mesmo na Rússia, uma vez acabado o período revolucionário e uma vez instituído o regime parlamentar legal burguês, ou pelo menos transformar-se-á numa consciência escondida e latente. Mas inversamente, não é menos certo que, na Alemanha, um período de acções políticas enérgicas, um instinto de classe revolucionário, vivo, ávido de agir, apoderar-se-á das camadas mais vastas e mais profundas do proletariado; isso far-se-á tanto mais rápida e energicamente, quanto mais poderosa for a influência educadora da social-democracia. Esta obra educadora, assim como a estimulante acção revolucionária da actual política alemã manifesta-se no seguinte: num autêntico período revolucionário, a massa dos que actualmente se encontram num estado de aparente apatia política e são insensíveis a todos os esforços dos sindicatos e do Partido no sentido de os organizar, enfíleirar-se-á atrás da bandeira da social-democracia. Seis meses de revolução contribuirão mais para a educação dessas massas actualmente desorganizadas do que dez anos de comícios públicos e de distribuições de panfletos. E quando a situação na Alemanha tiver atingido o grau de maturidade necessário a um tal período, as categorias hoje mais atrasadas e mais desorganizadas constituirão, naturalmente, o elemento mais radical, mais fogoso e mais activo da luta. Se se produzirem greves de massa na Alemanha não serão seguramente os trabalhadores melhor organizados — por certo não serão os trabalhadores da imprensa — mas os operários pior organizados ou completamente desorganizados — tal como os mineiros, os operários têxteis, ou ainda os camponeses — que manifestarão maior capacidade de acção.

Assim, no que se refere ao papel de «direcção» da social-democracia nas greves de massas na Alemanha, chegamos à mesma conclusão que na análise dos acontecimentos na Rússia. Assim, púnhamos de parte a teoria pedante de uma greve de demonstração artificialmente encenada pelo Partido e sindicatos e executada por uma minoria organizada, e atentemos no vivo quadro de um verdadeiro movimento popular originado pelo desespero dos conflitos de classe e da situação política, explodindo, com a violência de uma força elementar, em conflitos, quer económicos, quer políticos, e em greve de massas: a tarefa da social-democracia consistirá então não na preparação ou direcção técnica da greve mas na direcção política do conjunto do movimento.

A social-democracia é a vanguarda mais esclarecida e mais consciente do proletariado. Ela não pode nem deve esperar com fatalismo, de braços cruzados, que se produza uma «situação revolucionária» nem que o movimento popular espontâneo caia do céu. Pelo contrário, tem o dever como sempre de preceder o curso dos acontecimentos, de procurar precipitá-los. Não o conseguirá, se entregar a palavra de ordem de greve ao acaso de qualquer momento, oportuno ou não, mas deve fazer compreender às camadas mais largas do proletariado que a chegada de um tal período é inevitável, explicando-lhes as condições sociais internas que a isso conduzem, assim como as suas consequências políticas. Para arrastar as camadas mais largas do proletariado para uma acção política da social-democracia e, inversamente, para que a social-democracia possa tomar e manter a verdadeira direcção do movimento de massas, e possa estar à cabeça de todo o movimento no sentido político do termo, precisa saber fornecer com toda a clareza e com resolução, uma táctica e objectivos ao proletariado alemão para futuros períodos de luta.

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