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Os fura greves

 

Fenómeno recente, com apenas dois anos, são as lutas dos trabalhadores dirigidas e protagonizadas por novas estruturas sindicais, em manifesta ruptura com as centrais sindicais da “concertação social” e da mais miserável pactuação com os interesses do patronato e do estado que o representa. 

Vale a pena uma breve síntese a explicar uma situação relativamente simples de desmontar. Antes da fundação dos sindicatos que actualmente protagonizam e dirigem a greve - SNMMP e Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM)-  , a FECTRANS, que está afecta à CGTP, havia conseguido a "magnífica benesse" de um vencimento de 650€ base para os motoristas de matérias perigosas, sendo que o restante, para perfazer os 1.150 a 1.200 euros mensais que actualmente auferem, seria realizado à custa de subsídios e "bónus" diversos.

Os trabalhadores começaram a aperceber-se de que, o "presente" que a FECTRANS havia cozinhado com a ANTRAM estava envenenado. Isto porque, quando fossem obrigados a estar de baixa por doença ou atingissem a idade da reforma, o valor de referência, para uma e outra situação, seria o do ordenado base, isto é, os 650 euros!!!

Agora, para além da exigência de um ordenado base maior e progressivo até 2025, exigem melhores condições de segurança, maior respeito pela carga horária a que estão sujeitos, melhor remuneração pelo facto de, além de assegurarem o transporte de matérias perigosas, ter de ser o próprio motorista a proceder à sua descarga.

Foi a sucessiva traição da FECTRANS que criou as condições para o surgimento de novas e mais combativas estruturas sindicais. E vai ser essa traição que levará os trabalhadores a "extinguirem" a FECTRANS e a central sindical onde se integram - a CGTP - bem como todos os sindicatos que tenham alinhado nesse tipo de praxis contrária à defesa dos interesses de quem trabalha e nada mais tem do que a sua força de trabalho para vender.
 

Sufocado e refém de um sindicalismo reformista, amarelo e de traição há muitas décadas, um sindicalismo herdeiro do cancro do corporativismo herdado do regime fascista, o movimento operário e popular começa, ainda que timidamente, a sacudir a canga da manipulação que lhe foi imposta por toda a sorte de oportunistas. 

Desde a luta operária na Auto-Europa contra a imposição de uma carga horária castradora do convívio familiar, da actividade lúdica e da cultura, até ao levantamento dos estivadores em greve pelos seus direitos mais básicos, passando pela luta dos enfermeiros e médicos contra o roubo dos salários e do trabalho e a negação da progressão das carreiras, e dos camionistas de materiais perigosos – a que se juntam agora outros camionistas -, assiste-se a um novo paradigma de sindicalismo, mais consciente do seu papel na luta pela defesa dos interesses dos seus associados, mais robusto e coerente, mais combativo. 

Esta combatividade está a deixar aterrorizados patrões e governos que representam os seus interesses, habituados ao espectáculo que as centrais sindicais traidoras – CGTP e UGT – lhes têm proporcionado até à data, e que consiste em fazer voz grossa para, logo de seguida, terem saídas mansas! 

Centrais que têm aceite e alimentado uma aberração chamada “concertação social”, como se fosse possível concertar ou conciliar interesses tão antagónicos como aqueles que opõem quem é explorado a quem os explora. 

Face ao endurecer da luta e à firmeza com que se batem para levar a central patronal – a ANTRANS– a aceitar e cumprir os termos da negociação que levaram a cabo com os sindicatos rebeldes- o SNMMP e o Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) - governo e patrões mobilizam a FECTRANS – dirigida pela CGTP social-fascista  - para o serviço habitual de divisão e desmobilização dos trabalhadores. 

Num exercício de pura demagogia e abjecta traição, a FECTRANS aparece como estrutura sindical responsável que defende que as negociações entre aquela federação e a estrutura patronal da ANTRAM ainda não estão esgotadas, não se justificando, portanto, a convocação de uma greve. 

Escamoteiam, porém, que há mais de duas décadas que negoceiam com os patrões, sem de que daí tenha resultado qualquer alteração significativa para as condições de exploração, de segurança e dignidade, para os trabalhadores cujos interesses era suposto representarem, antes pelo contrário, só se tem vindo a agravar. 

É pelo facto de constatarem que a FECTRANS já não consegue enganar por mais tempo quem até agora se deixou capturar pelas suas falsas promessas, que assistimos à unidade de todos os sectores da burguesia para tentar desarticular as lutas protagonizadas por este novo modelo sindical. O caso dos motoristas de matérias perigosas e motoristas de outros sectores que à sua luta decidiram juntar-se, é disso um exemplo claríssimo. 

Primeiro foi o governo a arvorar-se em mediador, ao mesmo tempo que vociferava ameaças de recorrer à requisição cívil, anunciando que está a dar formação a motoristas do estado para desempenharem o papel de fura-greves, ao arrepio do que determina a Constituição. 

 Acabando, no final desta tarde por, em conferência de imprensa na qual esteve o “núcleo duro” – os trauliteiros do costume – do governo, os ministros Matos Fernandes e Vieira da Silva, anunciar que o conselho de ministros tinha decidido declarar o “estado de emergência energética”  preventiva (!!!)– um eufemismo para escamotear que esta medida visa furar a greve dos motoristas -, identificando uma rede de 374 postos de abastecimento que devem estar permanentemente operacionais, 54 para servir  veículos prioritários ou equiparados e 320 para assegurar o abastecimento de viaturas do público em geral. 

Hoje mesmo, o homem das selfies, o tal que no ano transacto se andou a pavonear pelo país inteiro a bordo de transportes pesados de longo curso e a afirmar sentir grande compaixão e solidariedade para com os motoristas, a avisar que, mesmo que os objectivos da sua luta fossem justos, os meios utilizados – a greve – teriam o condão de colocar toda a população contra eles. 

E claro, para que a banda ficasse completa e a música não desafinasse, lá estão os bufarinheiros traidores da  FECTRANS e os silêncios cúmplices da CGTP e das muletas do PCP, BE e Verdes, a fechar o ciclo e o circo da traição e do ataque soez e fascista à luta dos trabalhadores. 

A greve dos motoristas de matérias perigosas e outros profissionais do sector é justa e deve prosseguir sem desfalecimento, hesitação ou deserção. Todos os trabalhadores estão de olhos postos nesta luta, pois ela tornou-se num farol de esperança que indica o caminho que as lutas devem prosseguir para a esmagadora maioria de quem nada mais tem do que a sua força de trabalho para vender. 

Nunca os campos estiveram tão claros. Ou bem que a luta dos motoristas de matérias perigosas avança, não desmobiliza nem pactua, ou bem que a burguesia consegue desferir um golpe mortal sobre a sua luta, fazendo da sua derrota um exemplo e uma ameaça para a luta operária e popular em geral.

 

07/AGO2019                                                LJ

 

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