Partido

 O Último dos Andrés

Arnaldo Matos

Nasceu no sítio do Cano, na vila de Santa Cruz, em 1 de Agosto de 1930, numa modestíssima casa de palha que deve estar hoje andresenterrada debaixo da cabeceira da pista do aeroporto da Madeira, e morreu ontem, aos oitenta e oito anos de idade, na cidade de Machico, na mesma Região Autónoma.


Foi o último pescador da família dos Andrés, cujas origens se perdem na noite dos tempos, seiscentos anos atrás, quando os primeiros daquele nome chegaram à ilha. Pai, irmão, filho, neto, bisneto, trineto e tetraneto de pescadores, Luís Rodrigues André, que ontem nos deixou, foi irmão de mais dez irmãos, quase todos pescadores, com excepção das mulheres, desde que nasceram e até que morreram, havendo alguns que emigraram para o Brasil e para a Venezuela.

Com ele e com o irmão Zé Pretinho, aprendi a pescar aos pargos, às chernes e às garoupas, e fiz com ele a última grande pescaria nos mares da Madeira e das Desertas nos anos oitenta do século passado.

Nessa jornada, embarcaram dois (Luís e Sérgio) dos quatro filhos do último dos Andrés, tinha o Sérgio apenas seis anos de idade. Luís, o filho mais velho da série dos Luíses Andrés que nos deixaram, era já nessa altura um pescador notável, com capacidade e competência de comando do João Bosco, a embarcação em que então navegávamos.

Luís, aquele que verdadeiramente o pai destinara a ser realmente o último dos Andrés, morreu no Oceano Pacífico, ao largo do Panamá, perto da Isla de las Perolas , quando comandava um atuneiro colombiano de grande porte, o Caribe Tuna, e caiu o helicóptero em que efectuava um vôo de reconhecimento dos cardumes.

O meu amigo Luís Rodrigues André, marido da nossa admirada camarada Fernanda Calaça, é um daqueles heróis cujas façanhas quase nunca chegam às bocas do mundo, mas que na verdade tecem toda a história do nosso povo.

Quando tinha vinte e cinco anos, o último dos pescadores dos Andrés partiu para Angola e, numa pequena embarcação de convés coberto, percorreu e pescou nos mares de Moçâmedes e da Namíbia, até 1975.

Abandonado pelo governo português, fugiu de Angola para o Brasil apenas com aquilo que tinha no corpo, enquanto os governos posteriores ao 25 de Abril negociavam a independência com a entrega dos portugueses pobres.

Também pescou longamente nos mares do Brasil, e nos de Cabo Verde, aqui durante dois anos.

Voltou finalmente à Madeira, e continuou a pescar, agora no João Bosco, embarcação onde dormi muito curtas noites nos leitos de proa.

O Luís André era uma autêntica enciclopédia dos mares, das correntes, dos ventos, das espécies marinhas em quase todo o Atlântico, desde a África do Sul até à latitude dos Açores.

O Luís era irmão do António, do José, da formosíssima Rosário, do Fernando, da Lurdes, do Manuel e da explosiva Belmira, a única que ainda está viva, no Brasil, e que veio no Verão passado despedir-se do último dos Andrés, aquele irmão que encerra a saga de uma família de pescadores talvez com seicentos anos de história.

Luís Rodrigues André representou o nosso Partido em todas as eleições que realizámos na Região Autónoma da Madeira. Em meu nome, da minha família e do meu Partido abraço a Fernanda e os filhos, a quem expresso as nossas condolências e solidariedade pela perda do último dos Andrés!

19AGO18

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