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paulinoFaleceu o meu grande amigo, mestre, camarada, professor, e pianista de excelência, Paulino Garcia.
Durante toda a vida foi um homem de coragem e determinação. Emanava simpatia e compreensão com todos os que conhecia, desde os seus alunos aos seus amigos, dos mais novos aos mais velhos. Tinha a capacidade única de transmitir com entusiasmo e alegria as suas histórias/estórias e os seus ensinamentos musicais. Tudo era motivo de aprendizagem, desde o mais simples conto de um acontecimento passado, ao mais complexo conselho de como construir uma melodia. Aprendi muito com ele a vários níveis. Cada gesto seu brotava bondade e cada reencontro era preenchido pela sua vivacidade. O professor respirava humildade, transparência, e trazia consigo uma constante indignação, crescente e imanente, contra este sistema cujo os mais ricos exploram os mais pobres. A sua arma era a crítica através da denúncia, e era também a música. Os seus arranjos, demonstrados desde as flautas às trompas, passando pelos violinos e violoncelos são exemplo disso, e da sua beleza interior. E que prazer era ouvi lo tocar piano, subtileza, bom gosto, uma expressão tão característica e repleta de carácter. Os seus arranjos contêm o grito contra as desigualdades sociais, da mesma forma que retratam o seu jeito delicado e ímpar, simples e recheado de ternura e bom humor. Um homem destes nunca morrerá, ficará para sempre nas nossas vidas e nas nossas memórias. Compete nos a todos, quer conhecêssemos o professor ou nunca tivéssemos convivido com ele, sermos pujantes no quotidiano, sermos firmes e imparciais nas relações interpessoais, sermos implacáveis no que concerne à equidade social, sermos dóceis com quem merece, sermos compreensivos com os alunos, seja na questão académica ou do dia-a-dia, sermos comunistas por um mundo melhor. A sociedade não reconheceu devidamente o trabalho musical realizado pelo professor. Mais um motivo para todos nós continuarmos a combater contra o sistema vigente, com manifestações culturais, e reivindicações sem cessar, mas nunca descaracterizando o que nos impele  ao desabamento da corrupção e do logro, a luta. Sejamos como o maestro, professor e pianista Paulino Garcia, revolucionários em tudo e com tudo o que pudermos. 

   E foi a lutar que o professor passou os últimos dias, lutando contra a doença, mas sem nunca perder a razão, a emoção, a preocupação pelos seus, e os seus gestos de delicadeza ainda hoje murmuram nas nossas lembranças. Quando o professor decidiu colaborar comigo, ajudar-me no meu trabalho, e sem desejar nada em troca, eu senti o que sinto hoje.

   Esta é a maior alegria musical que eu posso ter, o mais lindo objectivo que eu posso desejar, o mais forte reconhecimento de apreciação à minha música. E digo sem medos, e com toda a certeza como sempre disse. Nunca nada, a nível de arranjos, foi tão bem feito em Portugal. E como elevou as minhas canções. Devo tanto ao professor, sinto uma honra e gratidão infinitas. Ele sabe disso. Sabe das saudades que deixou em todos nós, especialmente à família, a quem eu quero apresentar as minhas profundas condolências, amizade e apoio. Ao seu filho,  meu bom amigo e à sua mulher, querida. Continuaremos a honrar o seu nome, a exultar a sua atitude na vida, a bradar a sua música. O professor viveu, vive e viverá sempre. Porque há homens raros. E o meu professor e grande amigo é único! 

05JUN18               

                                                                  João Morais

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