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Sobre a Praxe

É quase impossível, na actualidade, pensar o Ensino Superior e o contexto académico sem fazer uma análise à praxe e, na esquerda reformista (reaccionária no plano material) existem duas posições distintas a conhecer:

- a posição praxista, que considera a praxe uma ferramenta a instrumentalizar numa tentativa de recrutar estudantes e mobilizá-los para as suas causas tendencialmente eleitoralistas;
- a posição anti-praxista, tão ou mais idealista que a anteriormente referida, que vê a praxe académica como um ritual moralmente degradante e que reproduz uma série de fenómenos negativos da nossa sociedade.

A primeira posição, adoptada maioritariamente por estudantes da Juventude “Comunista” Portuguesa, entende a razão material para a existência da praxe: a ausência de mecanismos por parte das Instituições do Ensino Superior para a integração de alunos do primeiro ano. No entanto, falha em entender o seu carácter de classe e, em última análise, os interesses que serve.

A segunda posição, tomada por alguns grupos trotskistas e anarquistas, faz uma leitura moralista do fenómeno baseada em argumentos idealistas, partindo de uma qualquer superioridade moral e de uma dicotomia anti-comunista entre o bem e o mal, focando-se em tudo menos o que importa compreender que é, como supra-mencionado, o interesse de classe que serve.

A praxe académica nasce numa altura em que o acesso ao Ensino Superior era restringido a uma minoria da população (os filhos da burguesia) e, na actualidade, o acesso está mais generalizado: continua a ser para os filhos da burguesia, mas principalmente para os filhos das classes médias, o que é um indicador de que a praxe, enquanto mecanismo e instituição, detém um viés pequeno-burguês.
Há que entender quais são os três propósitos que a praxe serve no panorama actual:
- Responder à necessidade dos alunos de primeiro ano serem integrados na vida académica, fortalecendo a subjectividade pequeno-burguesa do estudante;
- Reproduzir obediência acrítica a “superiores” sem questionar o porquê da existência e constituição das hierarquias (normalmente com argumentos como “no teu local de trabalho também será assim!”);
- Servir como instrumento de cacique eleitoral para as eleições das Associações de Estudantes e para eventuais lutas reformistas.

No período em que mais impacto causaram as mobilizações estudantis em Portugal (final dos anos 60 e 70) a situação política era muito distinta daquela com que hoje nos deparamos e, apesar de não se entender a existência de uma relação causa-efeito, é de notar que quando em Coimbra deixa de existir praxe (a pretexto da crise académica de 1969) a mesma só reaparece no início dos anos 80, mais organizada e “militarizada”, deixando de ser um fenómeno reduzido e mais limitado, passando a ser um fenómeno “de massas”, que mobiliza quer a nível regional quer a nível nacional (pois a partir do final dos anos 70 e início dos anos 80 passa a haver praxe fora da cidade de Coimbra, o que até à data não ocorria) milhares de estudantes.
Houve, principalmente a partir do início dos anos 90, uma série de alterações importantes para o Ensino Superior, não só com a imposição da nova lei das propinas, mas também com o Processo de Bolonha.

Tendemos a rejeitar a ideia de que a praxe serve apenas para “alienar” os estudantes, mantendo-os ocupados de modo a “não terem tempo” de se organizarem, pois parte do pressuposto (caindo no idealismo) de que estudantes do Ensino Superior têm interesse material em “superar o actual estado das coisas”, em referência à célebre formulação de Karl Marx na Ideologia Alemã. Se os estudantes têm interesse material em ultrapassar o modo de produção capitalista? Talvez, não existem condições de dar uma resposta que se entenda como completa o suficiente. Se têm interesse enquanto grupo social para serem considerados relevantes e, enquanto grupo, mobilizáveis por parte do comunismo? A sua cooptação por lutas reformistas não aponta nesse sentido.

Uma coisa é certa: os comunistas devem analisar cada situação à luz da metodologia marxista e entender concretamente a realidade, independentemente das análises anteriormente realizadas, pois as condições concretas vão-se alterando ao longo do tempo.
Enquanto comunistas, entendemos a praxe como um mecanismo de inclusão da pequena-burguesia, ou seja, não há nada de progressista ou revolucionário a ganhar com uma instrumentalização da praxe e da ideia de “espírito académico”, contrariamente ao que é defendido pelo reformismo.

Apenas a prática concreta demonstrará o potencial existente ou a sua ausência, pois só a prática é o critério da verdade. Mas estamos convictos de que a prática não irá fazer destas palavras letra morta.

06Fev2021

Núcleo de simpatizantes da Universidade de Coimbra

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