PAÍS

Um país sem cultura não é um país!

No passado dia 2 de Dezembro, em frente ao teatro Rivoli, no Porto, decorreu uma iniciativa que reuniu cerca de 100 universitários da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) e Escola Superior de Artes e Design (ESAD).

Os principais intervenientes do movimento denunciaram que o ensino artístico tem sido esquecido ao longo das últimas décadas, defendendo também que o futuro da cultura está nos estudantes, e, se estes são abandonados, afunda-se também a cultura no nosso país.

Denunciaram o desinvestimento no ensino artístico de uma forma geral: falta de salas, salas em condições lamentáveis, desde os estudantes de música aos de belas-artes.

“Sem educação, não há cultura” e “Ensino artístico, gratuito para todos” eram alguns dos apelos que os jovens iam fazendo.

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Aulas em contentores, alunos a pintar nas cantinas, estudo do instrumento nos corredores, salas frias que danificam os materiais de pintura e os instrumentos musicais, são algumas das queixas apresentadas.

A falta de investimento no Ensino Superior foi sempre uma evidência, mas as artes foram sempre as mais prejudicadas.

O ministério da cultura não existe, não serve para nada. Serve para “inglês ver”.

Mas nem sequer os cursos mais bem vistos são sempre mais apoiados, há casos em que são as próprias elites das profissões como a dos médicos e outras que, ciosas da sua posição de privilégio e em conluio corrupto com os ministros, "justificam" e preferem essa falta de apoio.

Em termos de investimento, vejamos alguns dos milhões e para onde vão..

•    15 milhões para os media (75% nacional 25% regional)
•    1 milhão para os artistas (chega para pagar o salário mínimo a 1500 artistas aprox.)
•    600 mil para os livreiros

É só fazermos as contas e sabemos quais são as prioridades…


Cultura? Só existirá numa sociedade comunista!

Os problemas que o ensino artístico e os respectivos estudantes vivem são reflexo de uma situação de subfinanciamento, na qual um curso é cada vez mais um luxo que a maioria não pode pagar. A situação excepcional em que os estudantes se encontram veio agravar e dar maior visibilidade aos problemas já existentes e que a pandemia veio piorar. E nisto se apoiam os governantes e também os manifestantes, estudantes e pessoas em geral.

A lógica do dinheiro no cerne de tudo. Se tiver fins lucrativos, se comercializar facilmente e abranger as massas, haverá esse investimento do poder político e da indústria em si – promotores, agentes, galerias, entidades etc. É uma espiral, e, por isso, compete a muita gente essa revolução de mentalidades. Depois existem os mecenas que incentivam e patrocinam os artistas, ou seja, associados aos bancos, às fundações, em suma: pessoas com dinheiro.

Promovem atividades culturais, como exposições de arte, feiras de livros, peças de teatro, produções cinematográficas, restauro de obras de arte e monumentos e orquestras.

Esse tipo de incentivo à arte tornou-se prática comum no período renascentista, que buscava inspiração na Antiguidade grega e romana, e vivenciava um momento de pujança económica com o surgimento da burguesia. Continua tudo igual, não estivéssemos nós no modo de produção capitalista.

Em Portugal, assim como em todo o mundo do capitalismo globalizado, a cultura que predomina é a da classe dominante – a burguesia capitalista –, que com o objectivo de perpetuar a sua dominação e domínio, utiliza todos os meios para impor uma cultura tutelada pelo capital, uma concepção metafísica do mundo, no intuito de justificar a ordem estabelecida e proteger os que são oferendas para o deus dinheiro, afastar as massas populares da luta pela sua própria emancipação, e apagar o ímpeto para a revolução comunista.

Eu também já fui aluno (há quinze anos), músico, e agora sou professor. E nada mudou, mas nada mesmo! Já se estudava em salas frias, e em condições parcas. Já sentíamos falta de apoio, e a maior parte dos problemas e carências era incapacidade na aquisição dos materiais de trabalho. E na geração anterior à minha, dos meus professores, era bem pior. E não foi pela falta de investimento propriamente dito.

Nós, estudantes de uma arte, e assim deveria ser e é a maior parte das vezes também noutras áreas, temos uma paixão que supera a questão financeira e as chamadas boas condições de trabalho. Claro que são importantes, mas não precisamos disso. Temos algo que relega esse “palco produzido“ para segundo plano. Raros sentem isso, poucos percebem isso.

Mas alguma vez o desinvestimento proporcionou ou impediu a formação de bons artistas? Alguma vez deixou de se fazer arte com qualidade? As coisas estão mal vistas e encaradas. Ou seja, o problema reside em duas coisas essenciais, visíveis a olho nu, sem exigir grande esforço para o pensamento: na canalização e importância do dinheiro e na forma como a cultura é alavancada na sociedade, sob a forma de negócio e de compra e venda.

O investimento até pode existir em determinadas fases, mas além de favorecer os já favorecidos, está a ser substancialmente usado para algo que, em termos práticos, efectivamente não contribui absolutamente nada para a renovação cultural e intelectual de um povo. Não permite a qualquer pessoa o seu estudo, e não deixa de ser uma área de elite como se comprova depois no pós-estudo, aquando da chegada no mercado de trabalho.

Nós, comunistas, não temos qualquer perspectiva e postura de carácter serventuário nem de submissão, como os partidos da burguesia que são bengalas e reboque do dinheiro e, como tal, defenderemos sempre e acima de tudo os direitos das massas populares, contribuindo para uma autêntica afirmação e valorização de uma autêntica verdadeira cultura popular. E não negociamos nada! Sabemos que no capitalismo vence quem tem mais.


O investimento é tão irrisório que há um fosso evidente nas diferentes classes sociais que têm acesso à cultura. Aliás o que é cultura? A indústria define isso conforme os ventos do capital, ao sabor da carruagem monetária, de acordo com as pinceladas da mais-valia, e ao som da extração de notas de papel sem pauta. Se der dinheiro e vender é que é importante, nada mais importa ao capitalismo. Para quê melhorar umas salas, e dar umas migalhas ao ensino artístico quando ele é uma fatia minúscula daquilo que é o aparelho do Estado?

Para o PCTP/MRPP a cultura tem uma importância determinante no processo civilizacional. A cultura é uma forma superior de comunicação e relacionamento humano. É através dela que é possível identificar as relações sociais de uma determinada época. As ideias procedem do movimento! O movimento tem por base as relações de produção estabelecidas entre as classes num determinado sistema de organização social. Daí assistirmos a uma cultura fenómeno, enraizada nas elites, através das televisões e da publicidade paga, com uma imagem e uma marca, e uma onda passageira sugada até ao delapidar de um artista levando à ruína quando não é possível retirar mais dividendos do malfadado artista.

Aqueles ditos artistas da alcatifa da fama que andam à boleia, que dominam as ditas rádios, as ditas televisões, e os ditos festivais, mas não dominam de música ironicamente. Monopolizam a indústria de tal forma que só não vê quem não quer o saque, os interesses e os empurrões. Talvez, se as pessoas soubessem dessas ascensões duvidosas, os mandassem bugiar, ou talvez até gostassem mais.

E um sistema político que é complacente com isto é tão ou mais culpado. Um serviço público que não tem um sistema de candidatura para as diversas áreas do meio artístico, e insere quem se chega à frente ou quem tem padrinhos, é um serviço podre. Que não existe. Tal e qual aquele festival daquele partido revisionista, que se diz (meramente à toa) defensor de um ideal onde a igualdade e a justiça são critérios prioritários, – e isso é tudo falso – e prestam a mesma vassalagem. Como se vê, aliás, na acção que têm no (des)governo.

...Assim vai o país na área da música. A diferença existe naqueles que não compactuam, que não andam à boleia e sabem um pouquinho mais de música. Sendo que ler livros vai no Batalha, curiosamente é quem mais falha na hora da batalha. Quem é farinha deste saco a seco engolirá, quem não é um sorriso bradará.

E aqueles que têm a lata e desonra de fazer/pedir crowdfunding para gravar álbuns? Pedir para um luxo…! Tenham vergonha também! Trabalhem! Claro está que a culpa é de quem dá, mas vão enganados na carroça.

E aqueles que têm amiguinhos com dinheiro e Dick Tracys? Tocam nos bares da vizinhança e enchem a pança com o mesmo consumo rápido dos enchidos sem fome de renome.

Estudantes, artistas e professores são bem intencionados certamente. Seguem a sua dedicação à cátedra, o seu empenho ao mundo académico, formam seres sociais na tentativa de repor a civilização. Mas, as suas boas intenções, educação e noção de democratas, não passa de algo risível. Foram formados, antes de tudo, à imagem e semelhança na mesma senda e verosimilhança, também alinhados e ordenados à reposição da dita democracia, e à constituição – do capital.

A constituição que veneram forja um tipo de homem alienado, deformado estranhado e ceifado pelo capital, pelo capitalismo, portanto burguês. Formam um tipo específico de cidadão, ideal e exemplar, um cidadão assalariado e conformado ao jocoso e ardiloso conto de fadas do contrato social impregnado de pregas para a morte em vida até ao tutano da sua alienação.

O ofício do educador, do propagador de arte é essencialmente para propagar o capital; ele é gerador da hegemonia e do despotismo, ele plasma um ser social desumanizado e reificado, espoliado da essência do essencial para a concretização do materialismo, adequando-o ao aprofundamento egoísta e claramente burguês.

A paideia do homem comunista, é a paideia do homem que filosofa, cria, faz arte, e que entende as raízes imanentes do quotidiano, do homem emancipado ao trabalho livre e associado. O renascimento do homem numa sociedade comunista torná-lo-á apto às faculdades omnilaterais do espírito humano. À Filosofia, às Esculturas, à Pintura, à Música e a todos os ofícios efectivantes que recompõem e regeneram seu espírito-livre. No comunismo, os homens não produzirão em série bens inúteis nem existirá a barganha, escreverão tratados científicos sobre todas e cada uma das coisas, ao ponto que as máquinas o servirão ao seu bel-prazer para efetivarem todos os trabalhos indignos, ao invés de os escravizar, como o fazem no capitalismo! A cultura fará parte integrante, incorporada no ser individual e no ser social, estimulando à interacção livre e aproximando a sociedade num só lugar, comunitário, livre e sem classes.

A educação e a cultura, tal como existem, precisam ser obliteradas/aniquiladas e suprassumidas numa revolução operária. Precisamos sem mais delongas de uma educação cultural contra o capital!

14Dez2020

Benjamin

pctpmrpp

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