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Traição dos dirigentes sindicais anuncia-se de novo aos trabalhadores da TAP

No preciso momento em que é anunciada, com pompa e circunstância, a injecção de ATÉ 1.200 milhões de euros da UE na TAP – resultante das consequências da crise pandémica que afectou a actividade aeronáutica em todo o mundo –, quatro dos mais representativos sindicatos dos trabalhadores daquela Companhia aérea emitiram um comunicado a “garantir” que o Conselho de Administração que com eles esteve reunido “tudo terá feito para viabilizar a empresa e a manutenção dos postos de trabalho”!!!

A mesmíssima lenga-lenga dos traidores que há mais de 26 anos, durante um dos governos de Cavaco Silva, aceitaram sem reservas o seu Plano de Reestruturação da TAP. A 6 de Julho de 1994, a UE aprovou os “auxílios” à Companhia Aérea portuguesa, aceitando as “justificações” do palermóide de Boliqueime. O seu governo recebeu, na época, a valores correntes actuais, qualquer coisa como 1.450 milhões de euros (bastante mais do que a verba agora “concedida”).

Como não existem almoços grátis, e o directório europeu queria privilegiar a concorrência alemã e do norte da Europa, o supracitado Plano – que levou 4 anos a ser executado – conduziu, na altura, ao despedimento de cerca de 40% dos trabalhadores da TAP – cerca de 2.600 –, ao congelamento de salários, supressão de rotas, encerramento de delegações e a menos 6 aeronaves.

Prova de que PS e PSD andam sempre de mãos dadas quando se trata de atacar os trabalhadores e os seus interesses, é o facto de que o Plano, apesar de ter sido aprovado – e a sua execução iniciada – num governo de Cavaco, foi prosseguido sem qualquer ajuste ou modificação, por um governo encabeçado pelo PS, sendo a TAP tutelada pelo então Ministro João Cravinho.

Sobre tudo isto, os 4 sindicatos que esta segunda-feira, dia 15 de Junho, reuniram com o Conselho de Administração da TAP, fazem vista grossa. É importante dar rosto e nome à traição e aos traidores. Os sindicatos em questão são os seguinte:

•    SITAVA (Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos)
•    SNPVAC (Sindicatos Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Cívil)
•    SITEMA (Sindicato dos Técnicos de Manutenção de Aeronaves)
•    SNEET (Sindicato Nacional dos Engenheiros e Engenheiros Técnicos)

Sempre preocupados com a premissa reformista e revisionista – que trai os interesses e a autonomia dos trabalhadores – de que “sem rentabilidade não existe emprego” (como se a responsabilidade pela rentabilidade da empresa seja dos trabalhadores), os dirigentes sindicais destes quatro sindicatos limitaram-se a questionar “...o Conselho de Administração sobre a continuação do regime de lay off”, por entenderem que esta medida “está a penalizar fortemente os trabalhadores”. Em nenhum momento denunciaram que as medidas de lay off não foram da responsabilidade de quem trabalha e que, ademais, está a servir para o grande capital “reconfigurar” o seu modo de produção, como sempre à custa dos trabalhadores.

Nem uma palavra para exigir que, quando a TAP receber os fundos agora anunciados, devem ser repostas, imediatamente, as verbas que foram roubadas aos salários dos trabalhadores, no âmbito do lay off. Os trabalhadores da TAP têm o direito de saber que, se tal não acontecer, o que se segue vai ser um alinhamento dos salários por baixo. O sonho de qualquer capitalista: reduzir uma parte dos chamados “custos de contexto”, com a “justificação” de que, afinal, os trabalhadores conseguem sobreviver com 70% dos seus salários!

Claro que sindicatos desta natureza não servem os trabalhadores porque é impossível servir a dois senhores e eles já servem, há muito tempo, um deles – o grande capital e o governo que gere os seus interesses de classe.  Como podem sair satisfeitos de uma reunião com o Conselho de Administração, quando já se dá como certa uma reestruturação da TAP, com o corolário de despedimentos que lhe é habitual, que imporá a perda de emprego a um quinto da massa trabalhadora, isto é, cerca de 2 mil assalariados?

Como podem os trabalhadores da TAP ficar satisfeitos com estes auto-proclamados representantes e dirigentes quando, uma vez mais, se preparam para “negociar” despedimentos e redução de salários e outras regalias?

E o que dizer da Comissão de Trabalhadores. Que devia estar já a empenhar-se na unidade e na luta de todos os trabalhadores da TAP. Está a dormir?!

Só sindicatos traidores e uma Comissão de Trabalhadores a fazer o papel de “bela adormecida”, poderão fazer crer aos trabalhadores que “esperam que da parte do accionista maioritário (o Estado) tudo seja feito no sentido de garantir a continuidade de todas as empresas do Grupo TAP (vejam como eles têm o cuidado de referir “todas as empresas”, mas não “todos os trabalhadores”), mantendo a sua capacidade de modo a poder servir o país e a diáspora, alimentando o importante sector do turismo e assim cumprir o seu desígnio nacional de contribuir para a melhoria das condições económicas do país

Mas, por onde tem andado esta gente? Na Lua? Em Marte? Confiar num governo que abandonou criminosamente a estratégia de construir um grande aeroporto internacional de Lisboa – que tudo indicava poder vir a ser construído em Alcochete – em vez de manter o apeadeiro aeroportuário que é a fórmula Portela + 1 (Montijo)? Confiar num governo que “ameaça” uma alteração no quadro accionista da TAP pelo facto de, eventualmente, investir 1.200 milhões de euros, ao mesmo tempo que “abdica” de ter um papel executivo de relevo e preponderância na empresa?

Confiar num governo que mantém a privatização da ANA e de outras companhias essenciais a um adequado planeamento da gestão aeroportuária ao serviço dos trabalhadores e sob o seu controlo, impedindo uma sinergia mais adequada dos recursos para poder transformar a capital do país, Lisboa, e o seu aeroporto internacional, como uma das principais portas de entrada e de saída do essencial dos passageiros, correio e mercadorias, que cruzam o nosso espaço aéreo para se dirigirem a uma grande parte dos destinos internacionais?

Confiar num governo que se prepara para repetir a “solução” que foi implementada em 1994, isto é, despedimentos, miséria, mais precariedade, destruição de meios de produção, supressão de rotas, que favorecerão certamente, e uma vez mais, as companhias aéreas do norte da Europa – também elas a passar por sérias dificuldades –, mas que remeterão a TAP e os aeroportos para uma condição sem relevância e o aeroporto internacional de Lisboa para mero apeadeiro regional, deixando, na Península Ibérica, esse atributo de “centralidade” a Madrid? Do ponto de vista dos interesses dos trabalhadores da TAP, que outro nome se pode dar a este comportamento se não de TRAIÇÃO!

Os trabalhadores da TAP têm de recorrer à sua memória de luta. E concluir muito rapidamente que não podem confiar nestes sindicatos. Se quiserem vencer as batalhas e os desafios que se lhes apresentam pela frente, têm de correr com quem os trai. E devem fazer um ultimato à sua Comissão de Trabalhadores. Ou bem que arrepia caminho e se dispõe a preparar e a conduzir as lutas dos trabalhadores, ou bem que, convocam uma Assembleia Geral de Trabalhadores para remover os actuais dirigentes e eleger quem defenda os seus interesses e se empenhe em unir todos os sectores e empresas do Grupo TAP e do polígono industrial onde esta se insere.

16Jun2020

LJ

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