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Greve dos Trabalhadores dos CTT!

Teve início às zero horas do dia 12 de Junho, a Greve dos trabalhadores dos CTT, greve que se prolongará pelo dia todo, contra o pagamento do subsídio de almoço no chamado cartão de refeição que a administração quer impor, pelo aumento de número de trabalhadores e contra o congelamento salarial.

Em duas semanas, esta é a segunda Greve, pelo mesmo motivo, levada a cabo por estes trabalhadores sindicalizados em vários sindicatos. Recordamos que na última Greve, ocorrida no passado dia 29 de Maio do corrente ano, os mesmíssimos sindicatos levaram os trabalhadores a lutar contra o congelamento salarial e o pagamento do subsídio de refeição em cartão. O que aconteceu, então? Nada! E, enquanto esta “estratégia” sindical perdurar, perdurará, inevitavelmente, a derrota dos trabalhadores.

A administração dos CTT – representante dos interesses do patronato −, revelando que acredita que esta será mais uma Greve convocada para que a luta dos trabalhadores volte a “morrer na praia” – tal como aconteceu com as anteriores – emitiu um comunicado absolutamente provocatório onde antecipa que “...de um modo geral no país, os efeitos da greve...” serão “...pouco sentidos, com a eventual ocorrência de constrangimentos localizados em áreas específicas”!

Isto acontece porque os sindicatos têm aceitado o princípio capitalista de que uma empresa só pode gerar emprego se isso lhe permitir aumentar a rentabilidade. O capitalismo – sobretudo quando se trata de grandes empresas como os CTT – depende directamente das condições gerais de exploração dos trabalhadores.

O que os sindicatos ocultam dos trabalhadores é que estes estão perante uma nova forma de a burguesia administrar empresas, como é o caso dos CTT, em que uma parte importante dos trabalhadores deixou de ser “trabalhadores dos CTT” para passar a ser “trabalhadores independentes”, muitas vezes eles próprios proprietários das carrinhas e das motorizadas que utilizam ao serviço ou “gerentes de lojas”. Além de que as administram pelos interesses de macro-fundos e bancos, accionistas “estratégicos” que procuram obter lucros para além dos dividendos distribuídos (o que não obsta a que, sempre que lhes convém, distribuam dividendos superiores aos lucros reflectidos nas contas! como aconteceu em 2018 relativamente aos resultados de 2017 em que o payout foi de 208,8%, ou seja, distribuíram em dividendos mais do dobro dos lucros escriturados!).

Se é certo que o capitalismo se reorganizou dessa maneira, não menos certo é o facto de ter mudado a sua capacidade de responder às greves e às lutas dos trabalhadores. O que nos leva a considerar que a antiga mera “luta sindical” já não serve os interesses de classe dos trabalhadores.

Para que numa empresa como os CTT as exigências dos trabalhadores forcem a empresa a modificar as condições de exploração e, ao mesmo tempo, impeçam os administradores de aconselhar os accionistas a ponderar retirarem-se ou deslocar os seus capitais para empresas ou países que maiores garantias lhes dêem de rentabilidade e, consequentemente, maior acumulação de capital, é preciso que os sindicatos encarem as formas como os capitalistas respondem.

Essa busca de “rentabilidade” pode-se inferir do comunicado distribuído pela administração dos CTT, onde esta sublinha que o cartão de refeição “... representa uma manifesta vantagem para todos...”, como se as vantagens tivessem a mesma natureza, alcance e dimensão, para quem explora e para quem é explorado.
É preciso que com a sua luta os trabalhadores façam o capital sofrer onde mais lhe dói – na bolsa! Estamos, por virtude da evolução e da “reconfiguração” do modo de produção capitalista, noutro patamar – o patamar da luta política de classe. Os trabalhadores dos CTT – ou de outro sector qualquer – não podem ser transformados numa simples ferramenta que permita aos gestores exercer a pressão necessária à sua sobrevivência na competição que levam a cabo para atrair capitais e lucros.

É por isso que, qualquer greve deve, a partir de agora, ocorrer no mesmíssimo terreno em que joga o capital. Em vez de continuar eternamente, deve espalhar-se “horizontalmente”, primeiro abrangendo todos os sectores da empresa nomeadamente os sectores dominados por trabalhadores ditos independentes, depois, de uma empresa para outra sobre o território. A resposta tem de ser uma resposta de classe e não de um grupo específico de trabalhadores, numa empresa específica.

Para que este tipo de luta possa ter sucesso, as greves têm de se espalhar aos bairros, reagrupar todos os trabalhadores dispersos em pequenas empresas, na precariedade, no desemprego ou no “trabalho informal”. E, a organização da luta, mesmo podendo continuar a contar com sindicalistas entre os seus animadores, não poderá mais ser liderada por sindicatos corporativistas.

A base de organização tem de passar pela Comissões de Trabalhadores e por Assembleias territoriais e funcionais, coordenadas por Comités de Delegados eleitos e amovíveis a qualquer momento, precisamente as únicas estruturas que poderão proceder a esse reagrupamento dos trabalhadores, numa direcção comum.

A rentabilidade é a bola que os sindicatos têm apanhado e colocam à frente dos trabalhadores, de modo a que estes apoiem os interesses particulares dos gestores do capital nesta ou naquela empresa.
Vamos ver aonde nos leva a extensão da greve sobre o território: o capital não terá para onde ir, terá medo de que o exemplo se desenvolva atravessando fronteiras; as condições gerais de exploração são doravante um problema deles e do Estado, a sua agência central. A greve tem de afectar o capital como um todo.

Mas, as consequências não se ficam por aqui. Se às reivindicações salariais se associarem exigências políticas, tal como a reversão da privatização dos CTT, os trabalhadores conseguirão impor a única forma de melhor servir os utentes e, ao mesmo tempo,  permitir que o controlo operário sobre a empresa se realize de forma mais eficaz, efectiva e eficiente.

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As vidas e o futuro das famílias dos trabalhadores em geral, e dos trabalhadores dos CTT em particular,  dependem disso. Basta a memória das gerações que trabalham há dezenas de anos naquela empresa para perceber que a luta isolada na empresa, paralisações sectoriais, "diálogo social" ... apenas levaram a uma espiral de precariedade e impotência face à decisão de encerramento de postos de correios por parte dos administradores, com o corolário de desemprego e precariedade que todos conhecem e sofrem na pele.

Para encontrarem as formas alternativas de luta que lhes servem hoje para enfrentar o que está para vir, devemos pelo menos compreender fundamentalmente o que é capital e como é que ele funciona. E quando o fizermos, não haverá fantasma histórico para o apoiar. Temos que lutar de uma maneira diferente daquela que nos é  proposta pelos sindicatos. E de agora em diante, combater para estender as lutas por todo o território nacional e internacional.

12Jun2020

LJ

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