PAÍS

COVID-19
Não é com discursos encantatórios que se combate a pandemia!

Mais de um mês após as declarações de Marta Temido e Graça Freitas, respectivamente Ministra da Saúde e Directora-Geral da Saúde, de que era despiciente e inútil o uso de máscaras, eis que, num aparente volte face “técnico”, as duas instituições governamentais vêm, numa das suas famigeradas “conferências de imprensa” diárias afirmar que, afinal, existem razões fundadas para o seu uso.

Porém, esse uso, que como sempre deve ser obrigatório, é-o apenas para espaços fechados. O que esta gente escamoteia é precisamente aquilo que denunciamos desde o início da pandemia do COVID-19.

Devido à sistemática liquidação do Serviço Nacional de Saúde, que toda a canalha do PSD ao PS, com a prestimosa colaboração das suas muletas – CDS/PP, PCP, BE, Verdes, PAN, etc. – tenta há muito tempo liquidar para favorecer a “saúde privada”, o país foi apanhado numa situação de total inoperacionalidade.

Isto é, sem armazenamento de máscaras, gel desinfectante, viseiras, testes de despistagem, ventiladores e outros materiais fundamentais para um primeiro ataque à pandemia. Privado desses instrumentos que permitiriam, numa primeira fase, proceder à despistagem dos infectados para, numa segunda fase, se proceder ao seu tratamento, preferiu-se o confinamento geral da população.

Claro que, numa situação como aquela que denunciamos, não havendo vontade política de preparar o sistema de saúde para fazer frente à pandemia COVID-19, a solução, apresentada como facto consumado, só poderia ser a do confinamento. Contudo, não foi, como agora se comprova, a boa ou sequer, a melhor, solução.

Logo que a experiência da progressão e extensão da crise pandémica ocorreu nos países asiáticos – China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, India, etc. – e mesmo na Europa, com o caso de Itália, se este fosse um governo apostado em assegurar um serviço de saúde para os operários e os trabalhadores, teria de imediato tomado uma série de medidas, entre as quais se destacam:

•    Constituição de uma rede hospitalar que integrasse hospitais, clínicas e laboratórios de análises públicos e privados que colmatasse as necessidades que a pressão sanitária iria, obviamente, operar;
•    Plano de armazenamento de todo o tipo de materiais necessários a fazer face à pandemia . Vejam-se as sistemáticas denúncias das Ordens dos Médicos, dos Farmacêuticos e dos Enfermeiros sobre a ausência dos mesmos;
•    Levantamento da capacidade produtiva do país de forma a identificar que indústrias poderiam ser de imediato contactadas para ajudarem na produção de muitos dos materiais necessários. Face à paralisia governamental, assisitimos à iniciativa de várias empresas e centros universitários em dar uma resposta que, se tivesse sido organizada pelo governo e pela DGS, evitaria muitos dos custos que a pandemia COVID-19 reclama.
•    Plano de triagem da população, sobretudo daqueles que representam os maiores “grupos de risco”, como é o caso de centenas de milhar de trabalhadores que ainda asseguram actividades produtivas – desde logo médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, etc. – como supermercados, transportes públicos, distribuição de correio, construcção cívil, trabalhadores dos lares de idosos e respectivos utentes, etc.

Bem pode agora Marta Temido e Graça Freitas virem afirmar que têm seguido caninamente as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o benefício do usos de máscaras pela generalidade dos trabalhadores. Mesmo que aquela organização que representa, no fundo, os interesses da burguesia capitalista e imperialista – apostada em destruir, em todo o mundo, um Serviço Nacional de Saúde público –, a favor da saúde privada –, se mostrasse, como se mostrou pelo menos atá à pouco tempo, desfavorável ao uso de máscara, deveria ter seguido o exemplo de outros países que, sendo embora capitalistas e imperialistas, viraram as costas aos técnicos e recomendações da OMS.

São vários os exemplos, como são distintos os resultados. Veja-se o caso da Coreia do Sul, de Singapura, da República Checa, entre muitos outros. Apostaram fortemente na vertente preventiva e não sofrem, tal como se assiste noutros países que se decidiram por outro caminho, como foi o caso de Portugal, a pressão sobre os serviços, sobretudo os hospitalres e, dentro destes, os cuidados intensivos.

Ou seja, Marta Temido e Graça Freitas, em vez de organizarem um exército sanitário para proteger os trabalhadores contra o inimigo viral, convidaram-nos a fechar-se em casa. Faltando recursos médicos, como amplamente denunciado pelas Ordens dos Médicos, Enfermeiros e Farmacêuticos, para impedir a disseminação do COVID-19, o governo português decidiu, tal como outros Estados, colocar a resposta no terreno militar, defendendo que a pandemia deveria ser tratada como uma guerra a ser travada. Uma guerra à partida perdida porque a humanidade jamais poderá derrotar ou erradicar uma criatura microscópica como o coronavirus.

Um combate que só poderá ser ganho com a inteligência, com a ciência, o equipamento – sanitário e médico – a previsão e o planeamento do armazenamento de materiais médicos e sanitários. E não certamente com os discursos de embalar que têm sido promovidos, afundando o telespectador em números que respondem à questão do quanto, mas nunca às questões, muito mais ponderosas, do porquê e, sobretudo, do como erradicar a pandemia e tratar dos doentes infectados.

Esta inépcia governamental, esta política criminosa, estão a suscitar mais psicose do que segurança. Do que os trabalhadores necessitam é de mais protecção médica ou vacinal, essenciais para a sua saúde mental individual e para a sua resiliência colectiva, e não do prolongar  desta política de confinamento debilitante.

Os marxistas revolucionários são bem claros quanto às suas intenções. Não pretendemos governar o Estado burguês, devendo o capital desenvencilhar-se dos seus falaciosos discursos. Apoiamos todas as medidas ou programas que reduzam, mesmo que temporariamente, as consequências desta pandemia para a classe operária e para os trabalhadores.  Estamos convictos que a solução deste ou de qualquer outro quadro de pandemia, nunca poderá ser resolvido no contexto do sistema capitalista e imperialista, no contexto de um modo de produção que visa o lucro e não a saúde e o bem estar de quem trabalha.
Entretanto, dizemos ao proletariado de todos os países e, no caso em particular, de Portugal: não se deixem ludribiar, com ou sem confianmento, com esmolas ou sem esmolas de compensação salarial, através desta gigantesca crise económica sistémica, os sobreviventes do grande capital internacional entregar-vos-ão, no final, a factura, após o colapso do sistema. Será neste preciso momento que a classe operária se verá obrigada, pelo destino, a tomar o poder económico da sociedade humana.

16Abr2020

LJ

pctp

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