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Quem vai pagar a Neutralidade carbónica?

No passado dia 12 de Dezembro, com o título “Quem vai pagar a factura da reconversão do aparelho produtivo capitalista?” denunciávamos de forma clara o programa político e financeiro do imperialismo europeu para transformar a Europa no primeiro continente verde do planeta, anunciado com pompa e circunstância pela nova Presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen.

O imperialismo germânico dava assim o mote para o que pretendia que fosse seguido pelos restantes países capitalistas da União Europeia, dos quais não esperava senão uma cega vassalagem.

Depois de algum tempo de preparação da opinião publica e publicada – sempre com a prestimosa ajuda dos movimentos “eco-histéricos” – veio na passada 2ª feira Mourinho Félix, Secretário de Estado Adjunto e das Finanças, homem de mão – de pé e de corpo inteiro – do Ronaldo das cativações, o famigerado ministro das finanças Mário Centeno, anunciar que Portugal necessitará de um investimento adicional de 86 mil milhões de euros para assegurar o cumprimento do objectivo de “neutralidade carbónica” a que se comprometeu até 2050.

Afirma Mourinho Félix que este investimento adicional engrossará o bolo de mil milhares de milhões de euros que estão previstos alocar à redução das emissões de CO2, o que inclui a “aposta” em infraestruturas, equipamentos e edifícios eficientes, investimento com o qual Portugal se comprometeu, gabando-se, inclusive, de “termos sido um dos primeiros” a fazê-lo!

A alegada “transição para uma sociedade sustentável”, tal como já o havíamos denunciado, não passa da satisfação de uma necessidade da burguesia e do grande capital industrial e financeiro europeu ajustar o seu modo de produção capitalista face à concorrência das outras potências imperialistas – EUA, China, Rússia, etc. – , pelo que são forçadas a modernizarem a sua infraestrutura produtiva e económica a fim de fazer face aos imperativos da “globalidade”.

Reconhecendo que as finanças sustentáveis hoje já são mais do que o sonho... e que “...estão já hoje a mudar a face dos mercados financeiros, as prioridades dos investidores, a forma como se avaliam os riscos...”, Mourinho Félix mais não faz do que confirmar aquilo que o nosso Partido denunciou desde a primeira hora. Que esta modernização iria ser feita à custa da classe operária e dos trabalhadores já que, é fundamentalmente dos impostos sobre os rendimentos do trabalho que os orçamentos dos diferentes Estados assentam.

Admitindo, do mesmo passo, o papel de lambe-botas e “bom aluno” do imperialismo germânico quando realça, no encerramento da Conferência Anual Via Bolsa Euronext Lisbon Awards, que os prémios da entidade que gere a bolsa nacional foram atribuídos a destacados emitentes – intermediários financeiros -, jornalistas e outras pessoas ou instituições que desempenharam um papel relevante no mercado de capitais durante o ano de 2019.

Recordando que no primeiro semestre de 2021 Portugal irá assumir a presidência rotativa da União Europeia, defende que o país “terá aí  uma oportunidade única para contribuir para a implementação desta estratégia”, e teve o cuidado de sublinhar uma tendência quanto à emissão de “obrigações verdes”, que em 2019 atingiu em os 250 mil milhões de euros, contra os 200 mil milhões que havia alcançado em 2008, um processo que, segundo o mesmo, deve ser acelerado, devendo para tal o governo Costa/Centeno promover de forma mais ampla as alegadas acções obrigacionistas.

Compreende-se cada vez melhor que, desde o início desta “cruzada verde”, protagonizada por um país que se caracteriza por ser campeão da poluição no continente europeu, a Alemanha – veja-se o caso da corrupção com os testes de poluição dos veículos VW – que o que o grande capital visa é fazer os operários e os trabalhadores pagarem os custos da reconversão capitalista, ao mesmo tempo que matam dois coelhos de uma só cajadada – por um lado, tornando a sua indústria mais moderna e competitiva e, por outro, sacudindo as acusações de poluente e criminoso, afivelando a máscara de verde e de amigo do ambiente.

A poluição continuará a ser, no entanto, e por maior que seja a reconversão do processo produtivo, uma decorrência do modo de produção capitalista, do caos em que assenta a sua “planificação”, da ganância, da guerra, da fome e da morte que o sistema capitalista impõe.

 Até pode parecer de uma generosidade extrema – e extremosa –, quer o pacote de 100 mil milhões de euros anunciado por Ursula, quer os mil milhares de milhões de euros agora divulgados por Mourinho Féliz, destinados a reconverter a indústria e a atingir o tão almejado “Green Deal” . Porém, a classe operária e os trabalhadores nunca se poderão esquecer, quando forem confrontados com as consequências de tamanha bondade, de quem serão os principais beneficiários de tamanha mobilização de recursos financeiros – o grande capital industrial e financeiro europeu.

Quem vai pagar a factura de tamanha generosidade serão seguramente os operários e os trabalhadores europeus, incluindo os que vendem a sua força de trabalho em Portugal, aproveitando o grande capital para, pelo caminho, escamotear que, por maior que seja a reconversão da indústria, sob modo de produção capitalista ela irá continuar a assentar no esgotar de recursos da terra e na impiedosa exploração dos operários e dos trabalhadores.

Não sendo, assim, atingível a resolução do tão propalado problema da poluição, pois esse é endógeno do modo de produção capitalista. Tal como é endógena ao sistema a morte, a guerra e a pilhagem de recursos alheios, que continuarão a ser a panaceia do sistema para assegurar a acumulação capitalista. Assim sendo, nenhum “Green Deal” virá a assegurar a prometida “neutralidade carbónica” e as alegadas “obrigações verdes” não serão mais do que a obrigação dos operários em se submeterem à escravidão assalariada.

28JAN2020

LJ

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