INTERNACIONAL

A alteração geopolítica no Golfo

Irão: um assassinato prenunciador da guerra inter-imperialista!

MedioOrienteO assassinato levado a cabo pelos serviços secretos de Israel, a famigerada Mossad, de Mohsen Fakhizadeh, considerado como responsável pelo programa nuclear iraniano, tem de ser contextualizada no quadro da corrida que, neste momento, se trava entre os blocos imperialistas – o dirigido pela China e o dirigido pelos EUA – no Médio Oriente.

O mundo árabe e o Irão estão cercados por quatro potências nucleares (Rússia, Índia, Paquistão e Israel), mas a estratégia imperialista atlântica tem constantemente procurado construir um Médio Oriente “sem armas nucleares”, com baixa capacidade balística, colocado sob o controle atómico de Israel, um país que, no entanto, possui um arsenal de quase duzentas ogivas com carga nuclear, protegidas de todo o controle internacional.

A posição de desdenho dos americanos em relação à Jordânia enquadra-se neste plano, assim como o projecto nado morto de Nicolas Sarkozy da União para o MediterrâneoUnion Pour la Méditerranée (UPM) – que visava substituir o Irão por Israel, como principal inimigo do mundo árabe. Numa reversão de tendência sem paralelo na história, o Irão, vizinho milenar dos árabes foi elevado à categoria de inimigo hereditário e Israel, considerado, no entanto, pelos palestinos e pela maioria dos países do Terceiro Mundo como o usurpador da Palestina, alcandorado a seu mais antigo aliado tradicional.

Tanto assim é que temos vindo a assistir a um movimento de aproximação e estabelecimento de relações “normais” entre os países do Golfo e Israel, a chamada normalização, engendrada e apoiada pelos Estados Unidos ao reconhecer e designar Israel como o seu aliado na zona, ao mesmo tempo que ataca e desafia o Irão para o desencadear de uma guerra inter-imperialista.

O papel de Israel neste novo xadrez político está demonstrado no facto de, em Outubro deste ano, depois dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, o Sudão ter estabelecido relações diplomáticas com Israel, pondo, desta forma, termo ao boicote a Israel decretado há 53 anos, em 1967, em defesa da causa palestiniana, por nove países árabes – Marrocos, Argélia, Egipto, Sudão, Líbano, Jordânia, Koweit, Iraque e Síria – e que tem vindo, paulatinamente, a ser posto em causa, nomeadamente no interior da Liga Árabe, embora aparentemente se continue a afirmar que esta aproximação acontece, mantendo-se a exigência da retirada de Israel dos Territórios ocupados desde 1967.

Sentindo-se ameaçados pelo Irão e convictos de que a região do golfo deixara de ser estratégica para os Estados Unidos, o que já não lhe dava garantias de uma protecção directa, a maioria destes países viram-se para os imperialistas regionais israelitas, ainda que essa posição vá inevitavelmente desencadear movimentos de contestação internos como tem vindo a acontecer. Neste ponto, note-se a posição ambígua da Arábia Saudita, ciente de que uma posição de apoio inequívoca a Israel irá agravar a sua situação interna.

Cedo nos apercebemos que o imperialismo ocidental queria isolar, ainda que de formas diferentes, e por interesses diferenciados, o Irão e, sobretudo, a sua capacidade de desenvolver energia nuclear e de transformá-la em armas de destruição maciça. O acordo nuclear que todas as “potências mundiais”, incluindo as ocidentais, assinaram com o Irão é disso prova. Mas Trump, recusando-se a aceitar o que todos vêem para servir interesses inconfessados – usando a mesma táctica no Irão que Bush usou no Iraque de recusar os relatórios dos inspectores da AEA onde é negada a existência de desenvolvimento de armas nucleares no Irão –, fez com que os EUA abandonassem o acordo nuclear.

Ora o Irão, rodeado de potências nucleares, e que não é tolo, decidiu avançar com o seu programa autónomo, muito recentemente, testou o lançamento de alguns mísseis de longo alcance e levou a cabo vários exercícios militares destinados a verificar a capacidade de resposta do país face a uma eventual agressão dos seus vizinhos, leia-se, do seu arqui-inimigo, o Estado sionista de Israel, e do seu patrono EUA.

Já a França, um dos grandes poluidores atómicos do planeta, fornecedora do centro atómico de Dimona (Israel), da África do Sul na época do Apartheid e do Irão imperial através do consórcio Eurodif, também co-beligerante de Israel contra o Egipto (Suez 1956), do Iraque contra o Irão (1979-1989) e dos Estados Unidos e Reino Unido contra a Síria (2018), está fortemente relutante em entrar numa parceria atómica com os países Árabes, por causa da sua posição na fronteira com Israel, o que a prejudica devido ao pesado passivo de Vichy e da colaboração nazi anti-judaica.

Apesar de acusado de se afastar de uma política de “multilateralismo” há muito prosseguida pelos EUA, fazendo o país do Tio Sam rasgar, de forma arrogante e unilateral, vários acordos internacionais – entre os quais o acordo nuclear com o Irão – aquela superpotência não está só. Reflectindo a hipocrisia de várias outras potências imperialistas, sobretudo as do continente europeu, surge Emmanuel Macron que, aliás, estará no mesmo comprimento de onda do seu ex-colega “socialista”, François Hollande. No seu discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, a 24 de Abril de 2018, propôs desenvolver um Médio Oriente sob o controle atómico de Israel.

Temos presente as suas afirmações nesse evento: “O Irão nunca terá uma arma nuclear. Não agora, nem em cinco anos, nem em dez anos”, declarou o presidente francês, comprometendo-se a reduzir ainda mais a capacidade balística da República Islâmica do Irão, bem como a sua influência regional no Iémen, no Iraque e no Líbano, sem acompanhar este compromisso com uma medida de reciprocidade no que diz respeito ao desarmamento nuclear de Israel.

A deserção da Areva (um grupo multinacional francês especializado em energia nuclear e energias renováveis) da Jordânia pode, portanto, ser melhor explicada. Seja qual for o caso, vai oferecer à Rússia a oportunidade de se envolver num projecto de segurança regional ultra-sensível (nuclear) com um país, a Jordânia, que há muito tem servido como um eixo da estratégia atlântica na zona e guarda de fronteira do estado hebraico, como atesta a sequência conhecida como “Setembro Negro” jordaniano, em 1970, e o massacre dos Feddayins pelas tropas beduínas da Legião Árabe Hachemita.

A Rússia, sem o menor complexo em relação a Israel, e de forma alguma paralisada pelo lobby judeu americano, tendo sido um dos primeiros países a reconhecer o Estado hebraico, dispõe de uma margem de manobra mais elevada sobre o dossier ultra-sensível do nuclear.

A China, na sua posição de superpotência emergente, face à cada vez maior perda de influência do seu contendor mais importante, os EUA, pura e simplesmente não se deixou atemorizar pela política de sanções que Trump impôs a todos os que se “atreverem” a apoiar o esforço nuclear energético do Irão. E prossegue na sua protecção das “Rotas da Seda”, estratégia em que o Irão assume, cada vez mais, um papel chave.

É, pois, no contexto deste “desespero” vivenciado pelos EUA e seus aliados que se tem de analisar o alcance político deste assassinato. Ele é mais um episódio na guerra inter-imperialista iminente, em que cada um dos blocos imperialistas move as peças do xadrez geo-político e geo-estratégico da forma que entende melhor servir os seus interesses e possibilitar o xeque-mate sobre o seu oponente.

Quanto a nós, o proletariado não tem pátria, os seus inimigos não são os outros países, como a campanha tóxica pró-guerra inter-imperialista e os falsos amigos o querem fazer crer, é a burguesia imperialista que o explora não só no seu próprio país como no resto do mundo. É esse o inimigo a quem se tem que opor, começando por se opor a este cada vez mais iminente desfecho bélico da rivalidade inter-imperialista, organizando-se, limpando o seu caminho dos escolhos oportunistas que o tentam paralisar e preparando-se, activamente, para o transformar na guerra civil revolucionária que vai permitir a destruição do modo de produção capitalista, em Portugal e em todo o mundo.

11Dez2020

LJ/GO/JP

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