Ensaio

A Importância de uma Análise Materialista Dialética da Extrema-Direita 
Parto de um excerto do artigo do camarada LJ ‘O Populismo é um produto da decomposição do capitalismo’: 
os verdadeiros responsáveis pelo surgimento do populismo – de direita ou de “esquerda” – […] são os partidos tradicionais burgueses que, tendo criado as condições para a deliquescência económica do modo de produção capitalista, acabaram por criar as condições para a decomposição política a que actualmente assistimos” 
A ‘responsabilidade’ pela tal ‘deliquescência económica’ de que nos fala o camarada LJ, não cabe a partidos nenhuns, sejam burgueses, pequeno-burgueses ou outros, mas às próprias leis tendenciais de desenvolvimento do capitalismo, enunciadas por Marx, nomeadamente na sua Magnum opus ‘O Capital’. O texto do camarada inicia com um rasgo de idealismo, de anti-materialismo, portanto, atribuindo à superestrutura (política, no caso) o primado sobre os fenómenos da dialética económica, infraestrutural. 
Assim, a avisada proposta que o camarada nos faz, a saber, tentarmos perceber os fundamentos do fenómeno do populismo, logo começa transviada. 
Esta toada continua quando se afirma que o “conservadorismo neoliberal [é] (responsável pela crise de 2007-2008)”. A crise de 2008 tem lugar em consequência da incapacidade do ‘neo’liberalismo retardar a inevitável sobreprodução ou subconsumo económicos, momentos constitutivos do processo de acumulação capitalista e não por causa do ‘neo’liberalismo. 
O camarada LJ identifica o “populismo de esquerda (Podemos, Syriza, Partido Trabalhista de Corbyn, "socialismo" de Sanders, La France insoumise, Itália, etc.)”, como sendo “resultante do desmembramento dos velhos partidos de esquerda, da deliquescência dos partidos revisionistas e neo-revisionistas.” Efetivamente estas forças políticas têm projectos em torno de uma gestão do capitalismo de viés ‘social’, ou seja, mais não são do que partidos que ocupam o espaço social-democrata, representando sectores sociais progressistas nos costumes, mas sociais-chauvinistas, ou seja, objectivamente imperialistas, pequeno-burgueses. Estas forças políticas têm em comum com a extrema-direita o facto, nada despiciendo, de a sua base social e eleitoral ser igualmente pequeno-burguesa. 
É certo que o camarada LJ nos esclarece acerca da natureza subjectiva da extrema-direita - “racismo, xenofobia, autoritarismo, conservadorismo cultural e religioso” – mas, acerca do seu projecto económico, infraestrutural, dos objectivos infraestruturais, no quadro das relações de produção, das citadas manifestações no campo da subjectividade, nada nos diz. Ficamos assim, sem perceber, à luz do texto do camarada, para que serve a extrema-direita. Se esta não apresenta um projecto infraestrutural de valorização do capital e retoma da acumulação, qualitativamente diverso do projecto dos partidos clássicos, mais ou menos ‘neo’liberais ou mais ou menos keynesianos, então, a sua existência não se justificaria no plano material. Já tive oportunidade de esboçar as características e determinações desse projecto no artigo ‘A Nova Direita e a Subjectividade Reacionária’, que passam pelo acirramento da agressão imperialista aos povos do terceiro mundo, pelo agravamento dos mecanismos de exclusão e isolamento social dos trabalhadores pobres, imigrantes e afrodescendentes, pela completa implementação de um modelo social meritocrata-liberal, em abono da burguesia e dos sectores intermédios da sociedade. 
Ora, quando o camarada afirma que o populismo “expressa a incapacidade das duas classes fundamentais e antagónicas – a burguesia e o proletariado –, implementarem as suas próprias perspectivas (Guerra Mundial ou Revolução), gerando uma situação de ‘bloqueio momentâneo’”, isto nada esclarece acerca da efectiva natureza de classe do fenómeno, que, como é sabido, é apoiado por amplas camadas sociais, num espectro que abarca desde fracções grande-burguesas, até à pequena burguesia empobrecida. 
Depois disto, a deriva idealista, como seria inevitável, em virtude da vereda ideológica que o camarada decidiu percorrer no seu artigo, intensifica-se. 
A única explicação que nos fornece para “a ideia de que não existe nenhuma alternativa para opor ao capitalismo.” é “o apagamento da classe operária da cena política, a desintegração dos partidos ditos socialistas e comunistas, o desmoronamento da cultura operária, o declínio da "moralidade" operária, deixaram o caminho livre à burguesia decadente e à sua ideologia mortífera.”, ou seja, para fenómenos do campo superestrutural, a explicação é… subjectiva. Esboça ainda a ideia de que “a falência dos regimes revisionistas e social-fascistas incentivou amplamente o refluxo da consciência de classe e do movimento operário. Permitiu que a burguesia mundial reforçasse a maior mentira do século XX, a saber, a identificação do capitalismo de Estado com o comunismo.” Sucede que o ascenso dos movimentos nacionalistas, fascistas e nazi-fascistas, amplamente apoiados pelo operariado industrial, na Alemanha e em Itália, surgem precisamente nos anos 20 e 30 do século passado, quando a revolução bolchevique se encontrava em marcha, a todo o vapor. Assim a degenerescência e fim da URSS, a ter algum papel no que concerne o crescimento da extrema-direita, esse não será, nem poderia ser, fundamental. Não saímos, portanto, do terreno Ideal e não descortinamos a raiz infraestrutural do fenómeno. Mais uma vez, no artigo ‘A Nova Direita e a Subjectividade Reacionária’, procurei escapar à mera análise superficial, positivista, e traçar a conexão interna e relação dialética entre estes fenómenos e os interesses de determinadas classes sociais, cuja origem e reprodução é indissociável da divisão internacional do trabalho e das dinâmicas sociais geradas pelo imperialismo, cujos interesses são objectivamente reacionários – “Em suma, o surgimento duma subjectividade reaccionária entre as massas populares é uma evidência absolutamente compatível com o modelo económico vigente. É reflexo de uma série de fenómenos estruturais, tais como a redistribuição de superlucros imperialistas, o aumento global da produtividade industrial, e a democratização do crédito particular, entre outros ‘subornos’ que facilitam o acesso popular ao consumo e levam ao aburguesamento de sectores consideráveis da população.” 
Este apagamento da raiz estrutural da nova direita, transversal ao artigo do camarada LJ, apresenta o sério risco de culminar, por conta de uma incompleta análise das classes em presença no nosso contexto e das suas relações, no apoio tácito a sectores sociais reacionários, como forma de tentar evitar a própria deriva reacionária. 
Para não corrermos tal risco devemos, antes de mais, esclarecer que à lei que dirige o capitalismo no sentido de uma tendencial polarização da sociedade em duas classes antagónicas – burguesia e proletariado – não pode ser subtraído o seu carácter histórico, sendo que, portanto, esta lei tendencial não nos dá conta de nenhum horizonte social já, entretanto, alcançado, mas de um processo em devir histórico. Assim, olhar para a complexa sociedade burguesa actual, no nosso contexto imperialista semiperiférico, para a sua miríade de classes e fracções de classe, em constantes alianças e lutas, influenciadas, como já explicitado, pelas dinâmicas imperialistas da divisão internacional do trabalho, e imaginar o panorama de duas classes monolíticas, é uma clássica inversão idealista do método materialista dialético. Ao invés de partirmos do objecto concreto – a sociedade burguesa – para as suas determinações e para as suas conexões internas, abstratas, retornando depois ao concreto, para confirmarmos a validade científica das nossas representações ideais, procuramos, à força de marreta, encaixar a nossa imaginada e apriorística sociedade de monólitos, abstrata, no concreto da sociedade real, obtendo, em consequência, uma análise pobre, incompleta, fundamentalmente errada, que não nos permite delinear uma táctica política em torno dos interesses do sujeito social revolucionário. 
Desta forma, quando no seu artigo ‘Contributo para o Debate "A nova direita e a subjectividade reaccionária"’ o camarada Pedro nos diz que “Por outro lado mesmo a servil assunção de lacaios cada vez menos tem suporte social, tal o turbilhão que a progressão do capital impõe. Com o gigantesco aumento do capital agiganta-se também a massa proletária e proletarizada num movimento imparável de mudança que consciência adversa alguma poderá conter definitivamente.”, podemos ser levados a supor que estamos já perante a tal sociedade de monólitos, quando, de facto, uma rápida consulta dos dados estatísticos concretos, nos revela que, na realidade (e não na imaginação e na utopia) as classes intermédias são hoje, no nosso contexto nacional, a massa de maior influência política e social, abarcando um universo que inclui desde pequenos proprietários burgueses até sectores assalariados intermédios, política, associativa e sindicalmente organizados, totalmente reacionários, chauvinistas, corporativos, anti-comunistas e classistas. Ora, a tarefa de apoiar a organização, consciencialização e os interesses objectivamente revolucionários do proletariado põe-se aos comunistas hoje e não num futuro fantástico qualquer, em que a pequena burguesia já totalmente proletarizada e empobrecida, descubra “os encantos” do socialismo e do comunismo. Vejamos o que considerava o revolucionário russo V. I. Lenine, acerca desta questão: 
Não se pode pensar sequer que a massa laboriosa pequeno-burguesa ou semipequeno-burguesa possa resolver antecipadamente este problema político extremamente complicado — estar com a classe operária ou com a burguesia. As hesitações das camadas trabalhadoras não proletárias são inevitáveis; é inevitável que façam por si próprias a experiência das coisas para poderem comparar a direcção da burguesia com a do proletariado.
Em todos os países capitalistas existem, ao lado do proletariado (ou da sua parte avançada que tomou consciência das suas tarefas revolucionárias e é capaz de lutar por elas), numerosas camadas de trabalhadores inconscientes da sua condição proletária, semiproletária, semipequeno-burguesa, que seguem a burguesia e a democracia burguesa (inclusive os ‘socialistas’ da II Internacional) enganadas pela burguesia, essas camadas não acreditam nas suas próprias forças nem nas forças do proletariado, não têm consciência de que podem satisfazer as suas necessidades essenciais expropriando os exploradores.” 
Estas camadas de trabalhadores e de explorados fornecem aliados à vanguarda do proletariado, asseguram-lhe uma maioria estável na população; mas o proletariado só pode ganhar estes aliados por meio do instrumento do poder do Estado, isto é, depois de ter derrubado a burguesia e demolido o seu aparelho de Estado.(1)
 
O proletariado só ganhará a si essas camadas da população (semiproletários e pequenos camponeses) depois de ter vencido, depois de ter conquistado o poder estatal, isto é, depois de ter derrubado a burguesia, libertado todos os trabalhadores da canga do Capital e mostrado na prática os benefícios concedidos pelo poder proletário (os benefícios da emancipação do jugo dos exploradores." (2)
 
Essa camada de operários aburguesados ou de «aristocracia operária», inteiramente pequenos burgueses pelo seu género de vida, pelos seus vencimentos e por toda a sua concepção do mundo, constitui o principal apoio da II Internacional e, hoje em dia, o principal apoio social (não militar) da burguesia. […] 
Sem ter compreendido as raízes económicas desse fenómeno, sem ter conseguido ver a sua importância política e social, é impossível dar o menor passo para o cumprimento das tarefas práticas do movimento comunista e da revolução social que se avizinha.(3) 
 
Vejamos ainda o que considerava Engels, ainda no enquadramento histórico de um capitalismo concorrencial e de um imperialismo que atravessava a fase inicial do seu desenvolvimento, acerca das consequências sociais e políticas da influência imperialista: 
"Pergunta-me o que pensam os operários ingleses acerca da política colonial. O mesmo que pensam da política em geral. Aqui não há um partido operário, há apenas partido conservador e liberal-radical e os operários aproveitam-se, juntamente com eles, com a maior tranquilidade do mundo, do monopólio colonial da Inglaterra e do seu monopólio no mercado mundial." (4) 
 
Assim, como já referi no artigo ‘Materialismo Histórico versus Obreirismo Messiânico’ a tarefa que hoje se nos coloca é precisamente a de revelar as determinações concretas do proletariado moderno, no nosso enquadramento, objectivo do qual tenderemos a desviar-nos inexoravelmente, caso insistamos em não partir da concretude social que se nos depara, sob a égide da filosofia materialista e do método dialético, mas antes de uma abstração sem existência social, fruto de uma incompreensão básica da natureza tendencial das leis económico-sociais desveladas por Karl Marx e pelo marxismo. 
Notas: 
Todos os sublinhados a negrito são meus. 
(1) V. I. Lenine, As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, 16 de Dezembro de 1919
(2) V. I. Lenine, Resposta à carta do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha, Março de 1920
(3) V. I. Lenine, Imperialismo, estádio supremo do capitalismo, Junho 1916 
(4) Engels, Carta a Kautsky, 12 de Setembro de 1882
02Nov2020
JC
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