CULTURA

Textos para a revolução  II

O tempo nos tempos que morrem.

“O rebanho torna-se mudo, baixa a cabeça e obedece ao estômago".

Hoje em dia não temos tempo para nós. Quando temos olhamos para o nosso umbigo. Se não tivermos tempo, pelo menos uma vez por dia, para ouvir uma boa melodia, uma canção com uma letra poética ou uma sinfonia que possa revigorar os nossos ouvidos e aprimorar o nosso gosto, se não conseguirmos assistir a um bom filme ou a uma peça de teatro que nos faça emocionar, se não folhearmos um livro que nos faça pensar, seja um romance ou um excerto de filosofia, ou se não temos tempo para vislumbrar a natureza bruta em estado puro e cheirar o ar, então caminhamos para a barbárie, sufocamos a cada suspiro e nos tornamos desumanizados. É isto que o capitalismo tenta suprimir e que nós comunistas nos opomos e evocamos!

Convém lembrar que a culpa não deve recair sobre o indivíduo único, no ser humano isolado; o homem não é o que fez de si. Antes das suas escolhas e vontades próprias, ele é o estado, a sociedade dos homens e o mundo humano objectivado (resultante da experiência). Ele é marionete dos cordéis manipulatórios do capitalismo, refém do inimigo que o sustenta e o tenta nas garras do falso conforto ilusório. Nós queremos a abolição da propriedade privada, sem margem para negociações! A propriedade privada “é a última e a mais acabada expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros”.

Para o capital, o tempo livre do trabalhador deve ser estritamente direccionado à realização das suas fisiologias, no regresso à sua animalidade. A maior parte das horas são dedicadas a produzir mais-valor; nas horas sobrantes dorme, come, cloaca e copula. Não há tempo para a realização da vida humana; quando há, é para ser gasto em excessos supérfluos, em passeios de vitrine, programas de entretenimento, em consumo desnecessário, em socialização fugaz ou ser apanhados na distração em modo piloto automático que a internet estimula. E onde fica o tempo do proletário? Reduzido a nada!

O lumpesinato pós-moderno, farrapo intelectual, onde o solipsismo figura no cerne das questões sociais. O capital impõe, pela dinâmica da reprodução de valores, que o homem seja um apêndice/acessório da maquinaria na sua vida laboral, um produtor de lucro. Ele traz o trabalho para casa no seu inconsciente, ele é vítima de stress da competição especulativa e do consumo desenfreado. Não há tempo, sob o metabolismo do capital, para que se efective enquanto humano, enquanto ser social. O capital destrói a família, cria as barreiras da liberdade e aumenta as fronteiras do antagonismo de classes!

As potencialidades peculiares do ser social, enquanto natureza humana (ente-espécie), dissipam-se no ar como poeira, mas a sua raiz imanente/inerente reside na fábrica, nas moendas dos esforços, no suor e nas perdições oníricas e moribundas do capitalismo. A classe dominante exige que o trabalhador acrescente o capital, incapacitando-o de viver! As ideias dominantes numa sociedade são totalmente as ideias impostas pelos interesses da classe dominante!

Um dia sem reflexões, sem pensamento crítico, sem materializar um rasgo intelectual intrínseco, é um dia desperdiçado e inútil, onde se estende o flagelo da alienação e da opressão que se sucumbe à massificação do consenso, e nos perdemos humanamente. A sociedade actual está de rastos, e rasteja para a decadência ideológica mas quando algo perece, dá vida a algo novo e podemos afirmar sem subterfúgios: nós comunistas não temos medo de dizer ao que viemos! Queremos uma sociedade sem classes! Nós caminhamos para a revolução comunista!

27Nov2020

Benjamin

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